O Brasil que não acredita no Brasil

E que promove o complexo de vira-lata, como escreveu o ministro Celso Amorim (vide Carta Capital)  ao se reportar a uma força-tarefa do Ministério de Relações Exteriores norte-americano, que dedica um relatório integralmente ao Brasil, indicando-o como “ator mundial” proativo, a ser levado em consideração por suas atuações junto aos BRICs, Conferência do Clima, a própria criação da Unasul, entre outros, e defendendo nosso assento permanente no Conselho de Segurança da ONU. Ele comenta: “Que abismo entre a visão dos insuspeitos membros da comissão do conselho norte-americanos e aquela defendida por parte da nossa elite, que insiste em ver o Brasil como um país pequeno (ou, no máximo, para usar o conceito empregado por alguns especialistas, “médio”), que não deve se atrever a contrariar a superpotência remanescente ou se meter em assuntos que não são de sua alçada ou estão além da sua capacidade. Como se a paz mundial não fosse do nosso interesse ou nada pudéssemos fazer para ajudar a mantê-la ou obtê-la.”

Quando recebo o Diário Tucano, o porta-voz do PSDB, “conclamando a sociedade brasileira a se mobilizar contra a corrupção”, sinto-me insultada, subestimada, idiota mesmo. Mas que gracinha: vão clamar no caralho! Na Carta Capital desta semana, bem disse Dilma ao comentar que as pessoas preferem discutir coisas acessórias, não as principais; preferem o espetáculo. Para não dizer: as eternas intrigas palacianas. Como se o resto do mundo – todo interligado – não contasse. Importante é Temer avec PMDB promover apliques, golpes e camas de caboclo para a presidente e vice-versa, e estamos conversados.

Como se inexistisse uma crise mundial no horizonte, das mais negras, predita como pior do que a de 29, posto que longuíssima e sem uma força social organizada para lhe fazer frente. Falando em corrupção, veja-se o paradoxo (que não escapou aos americanos): temos uma presidente de reputação inatacável, honesta, bem intencionada, de passado idealista,etc. Salvo algumas mancadas tático-estratégicas. Mas o bastante para ser crucificada em primeiro lugar por ser mulher, em segundo, por escolher outras mulheres como ministras, em terceiro, por trocar ministros (como se Lula no passado não tivesse sido useiro e vezeiro disso, a começar por Zé Dirceu e terminar em Palocci), e em quarto, por se manifestar contra a corrupção – mas que fique bem claro, como aludido nas entrelinhas – como parte do que é acessório e do espetáculo diário da mídia canalha e desacreditada, salvo os hipócritas e anjinhos de plantão.

Dilma sabe onde pisa. Tropeça aqui e ali, naturalmente. Talvez não tivesse de ser com a Globo ou a FSP que ela devesse confraternizar, mas com Temer, Sarney & Asseclas ou talvez Padim Serra, Daniel Dantas, Alckmin ou – melhor ainda! – Gilberto Kassab, eleito presidente nacional do PSD tendo Kátia Abreu como vice! Pra não falar na viralatice dos jornalões que CLAMAM contra a Corrupção. Desde que não se fale em governar propriamente – o que é muito natural, afinal Eles não estão fora?

Precisamente quando se tem uma Primavera Árabe e as Ruas do Mundo em Londres, Atenas, Espanha ou Madison (USA) se levantam indiscriminadamente (e não são meramente os negros pobres, árabes e imigrantes locais, mas os trabalhadores e profissionais qualificados dos países em pauta é que estão à frente dos Indignados do Planeta), enquanto, alheio a tudo isso, o nosso prezado Tea Party exige agora total ortodoxia dos órgãos públicos dos EUA e UE (zero de taxação para os ricos, idem zero de contrapartida social, idem ibidem emprego zero, desregulamentação total de todas instituições, etc.), em contrapartida, Cristina Kirchner vence na Argentina e a Unasul começa a ser tornar realidade (a Unasul, people, tão mencionada no relatório supra da força-tarefa norte-americana,  sabe  a Unasul? Vide artigo do Eric Nepomuceno na Carta Maior, ilumine-se), a Unasul ou a nossa blindagem econômica sulamericana contra a crise mundial que se afigura longa e negra, etc.etc.etc.

Mas não, nossa viralatice coloca como item um da pauta a sempiterna “corrupção” e o dois, as intrigas palacianas que – como todos estão carecas de saber – têm como objetivo único e exclusivo desestabilizar o governo Dilma, como inclusive a própria Dilma – apesar dos vacilos bravos -  também está careca de saber.

O fato é que essa Guerra nunca-por-demais-ressucitada contra a Corrupção no Brasil me cheira à Guerra contra o Terror inventada por Bush & Asseclas para encobrir o Capitalismo de Desastre aplicado em tsunamis, Nova Orleans, Iraque, Haiti, Afeganistão. Isto é, trata-se de piadas boas demais, e, no caso brasileiro, do manto sagrado do Insigne Falso Moralismo Pátrio cujo propósito é, como sempre, ocultar ao homem comum os fatos principais, o que realmente importa, enfim, a História.

Falando em História, finalizo com uma frase excelente e muito engraçada do Flávio Aguiar a respeito da atual situação de Barak Obama: “Mas ao invés de apontar a própria indigência, é mais fácil dizer que Obama é o indigente. Ecoando a direita. Talvez ele esteja passando por um momento de indigência, é verdade. Mas vai ter que sair desse momento se puxando pela própria pele, porque de lugar nenhum vai lhe vir ajuda. Da esquerda muito menos. Afinal, para administrar a crise mundial, o que ela tem a oferecer? Vai cair muito mais pau em cima de Obama. O que vai favorecer, é claro, uma candidatura republicana. Ele é fraco. É frouxo. É banana. É babaca. É vendido. Etc. Só falta dizer que ele é negro.”

Já Dilma, se é mulher, pelo menos não é frouxa.

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