Nossa consciência infeliz

Márcia Denser*

Propondo uma definição de “intelectual engajado”, Roberto Schwarz observa que se engajar politicamente significa engajar-se à esquerda, inclusive por exclusão, até porque “engajar-se ao centro” não faz sentido. Seria o mesmo que “ousar uma ida à pizzaria”. E “engajar-se à direita” seria sair em defesa do privilégio e quem haveria de?
 
É incrível, mas hoje há muita gente.

Especialmente para mim, escritora, é impossível louvar o privilégio até porque o artista é aquele que fala pela voz pública – que é coletiva, polissêmica, plurivalente. Sem contar que não daria nenhum ibope. Por isso, mais intensa do que nunca reina hoje o que chamo de “consciência infeliz”, com nossas decepções políticas à frente, e, mais abaixo, as humanas, com a cruel constatação de que até pessoas admiráveis estão “se engajando à direita”, descaradamente fazendo a apologia dos poderosos.

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Contudo, alguém comentou recentemente que desde a queda do socialismo é possível verificar um aumento empírico da crueldade no mundo. O problema não é o fato da derrota do campo comunista ter empurrado o mundo ainda mais para a direita, mas sim que mal se extirpou uma peste, surgiu outra pior em seu lugar. Eis o que poderia ser considerado o fim da história: é que ela já não está mais do lado de ninguém, vencedores ou perdedores. Até porque neste mundo globalizado, no terceiro giro do capitalismo financeiro, é preciso não esquecer o axioma de que os vencedores perdem, ou seja, todos perdem.

A propósito das idéias expostas na coluna “Musas de joelhos”, a professora e crítica de literatura Lúcia Helena, da UFRJ, observa que a crise de representação da mulher é também uma questão filosófica vinculada à crise de humanismo, humanismo este que está sendo descartado pelo relativismo do momento pós-moderno (seja lá o que for que isso signifique). Lutar contra a exclusão – seja de gênero, etnia ou classe social – implica produzir uma reflexão antiautoritária.

Nosso tempo, ao decretar – por meio dos ideólogos do “pensamento único” – o fim da história, das utopias e de tudo que nos faça sujeitos da história no sentido marxista, sujeitos esperançosos de mudar o status quo, revela-se nominalista. Sabem, aquele nominalismo que é puro materialismo retórico, para o qual só existem “coisas” e não “idéias sobre as coisas”, e que conseqüentemente também descarta qualquer abstração. Inclusive os valores e direitos humanos.

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