Luz nas sombras

O mundo da sombra/ Caverna escondida/ Onde a luz da vida/ Foi quase apagada/ O mundo da sombra/ Região do escuro/ Do coração duro/ Da alma abalada

Estes acima são os versos iniciais da Balada do Lado sem Luz, composição de Gilberto Gil, gravada por Maria Bethania em um de seus mais belos discos, Pássaro Proibido. Composta nos duros anos de chumbo do início da década de 1970, é um retrato triste, sofrido daqueles tempos. Tempos em que um país passou a ser governado dos porões. De um submundo escuro e fétido que sustentava a máquina governamental com tortura, com deduragem, com ameaças, com medo, com o “coração duro”.

O tempo passou, a ditadura militar acabou, mas aqueles que se refugiavam nos porões recusam-se a sair deles. Se não mais matam ou torturam, continuam se movimentando no escuro. Saindo apenas quando podem se proteger da luz do dia. Esgueirando-se pelos becos. Nessas horas, espalham mentiras, divulgam falsos dossiês, ou emprestam a soldo seus antigos serviços de arapongagem. São os Dadás que se espalham pelos esquemas dos Cachoeiras.

Essas pessoas se acostumaram aos porões. Se agarram a eles. E, principalmente, recusam-se a tirar de lá os esqueletos que ali deixaram. Com as chagas, as feridas, que a eles impuseram. E fica o Brasil preso a um tempo que já passou. Incapaz de virar a página. Com uma lacuna de sua história guardada, coberta de pó, por esses porteiros do submundo.

Se eles não querem sair dos porões e não aceitam tirar de lá os esqueletos que ali sepultaram, só nos resta, então, invadir essas celas escuras. Abrir todas as portas. Abrir todas as janelas. Acender todas as luzes e lanternas para iluminar essas salas e revelar, afinal, o que elas escondem. Esse foi o passo que deram nossos vizinhos e companheiros de porões e tempos de chumbo, como o Chile e a Argentina. Esse era o passo que até então nos recusávamos a dar. Até então. Ontem (16), o passo foi dado, com a entrada em vigor da Lei de Acesso e a instalação da Comissão da Verdade. Foi só o primeiro passo. Será preciso seguir com a mesma coragem, com a mesma cabeça erguida, em direção a essas sombras, que continuarão agarradas aos seus porões.

Talvez o fato de a presidenta Dilma Rousseff ter sido fruto das circunstâncias, e não de um projeto pessoal de chegada ao poder, venha dando a ela as condições para enfrentar alguns delicados gargalos brasileiros. Gargalos que precisavam ser atacados, mas que, pela sua delicadeza, eram evitados. Talvez por medo da reação que provocavam naqueles com as pretensões eleitorais que Dilma não tinha. Eleitorais, reforce-se, porque pretensões políticas Dilma sempre as teve, ou não teria largado vida e família para militar na clandestinidade, sabendo os riscos de ser presa e torturada, como foi, pela defesa das suas ideias. Dilma parece raciocinar da seguinte forma: “As circunstâncias me puseram aqui para fazer as coisas em que eu acredito. Se der certo, lucrarei politicamente com isso. Se não der certo, volto para o bastidor em que estava antes”.

Assim, Dilma peita os líderes políticos tradicionais buscando estabelecer um novo tipo de coalizão na qual não se veja obrigada a fingir que a corrupção, os “malfeitos”, usando o termo dela, não existem. Peita os banqueiros e seus lucros excessivos para estabelecer um padrão de juros menos extorsivo, em patamares que voltem a estimular o empreendimento no país. E peita esses senhores das sombras para que o Brasil, enfim, ponha fim à ditadura militar e se torne, afinal, o que, queira Deus, é o seu destino: uma democracia civil. Porque essa canção de Gil citada lá em cima termina com os seguintes versos: “O meu canto é a confirmação/ Da promessa que diz/ Que haverá esperança enquanto houver/ Um canto mais feliz”. E “canto” pode ser também um lugar mais iluminado que o porão.

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