Livros, filmes e uma neo-humanidade

O romance À sombra do vulcão (Under the Volcano), do inglês Malcolm Lowry (que virou filme do mesmo nome, dirigido por John Houston, produção de 1984, com Albert Finney, Jacqueline Bisset e Anthony Andrews) é desses livros canônicos, torturantes, definitivos. Algo que nasceu absolutamente perfeito. Como uma rosa ou uma laranja podem ser perfeitas.

Não o comprei, ganhei – aliás, herdei da viúva do escritor Osman Lins, Julieta Godoy Ladeira, morta em 1994. Deu-me precisamente este livro por razões não isentas de malícia – razões, que a ironia e o mau-humor, poderiam considerar moralistas – até porque, na época, eu absolutamente não seria um modelo de sobriedade. E bons modos. Muito ao contrário. Tava mais para “la belle dame sans merci”, a bela criatura lamentável, arranjando uma pá de saias justas sobretudo para os amigos, algo que, aliás, não abandonei de todo, afinal, eu me conheço.Mas amadureci, sinto-me mais vulnerável, quer dizer, fisicamente, na razão inversa da mente, esta bem menos vulnerável – plantada é a expressão correta. Posso não ter certeza de muitas coisas, posso, é claro, não saber de muitíssimas outras, mas sei precisamente o que quero, onde posso chegar e o que não quero. Enfim, conheço meus limites. Mais: a essa altura da vida, começo, mansamente, silenciosamente, a compreender Clarice e sua “Via Crucis do Corpo”.

Voltando ao romance: na essência, é a radiografia mais completa já escrita sobre o alcoólatra e a plena sistematização desta alquimia - quase uma ciência - chamada Alcoolismo. E sem nenhum proselitismo, não obstante a magnitude quase hipnótica da sua poesia. Então, fico pensando que o Osman, tão culto e tudo mais, pela óbvia impossibilidade da leitura deste livro no original, socorreu-se da edição portuguesa (Livros do Brasil – Lisboa, Rua dos Caetanos,22).

Como eu própria, mais tarde, faria com os romances de Faulkner. Por que estou relendo

À sombra do vulcão? Pelo estilo, acima de tudo, a exemplo deste fragmento magistral:

“Meus segredos são daqueles que precisam se manter inviolados. E é por isso que me imagino um explorador que, tendo descoberto uma terra extraordinária, jamais poderá abandoná-la para informar ao mundo sua descoberta, porque essa terra é o Inferno.”

Essa semana assisti, no cabo, Enterrado Vivo (Buried, 2010), produção espanhola dirigida por Rodrigo Cortés, com Ryan Reynolds. Quer dizer, comecei a assistir muito a contragosto e falta do que fazer, pensando, porra, mais um filme com claustrofobia, onde o personagem principal – motorista de caminhão americano trabalhando no Iraque - após um tiroteio, se acha confinado num caixão com um celular egípcio, lanterna falhando e um isqueiro.

Reynolds passa os, sei lá, 90 minutos do filme, tentando pedir socorro, teclando infinitamente para a mulher (que nunca está), operadoras diversas, cujo implacável jargão torna os diálogos filhadaputamente absurdos, a polícia (de Chicago!), o FBI, o Departamento de Estado, seus sequestradores – sim, porque é um sequestro, depois se fica sabendo ­– que pedem cinco milhões de dólares pelo seu resgate; um sujeito chamado significativamente Dan Brenner (clara alusão a L. Paul Bremer III, o enviado da Casa Branca em 2003 que, dentro da Zona Verde, representava o governo dos EUA (1) no Iraque pós-invasão, cujos “erros” político-administrativos no sentido de “privatizar” o mais rápido possível um país já devastado, inauguraram uma nova categoria de crime de guerra (2)) no caso, o chefe duma firma americana local especializada em resgates.

Em essência, o que o filme coloca com precisão claustrofóbica, daí sua eficiência, é que o único ramo de negócios florescente no Iraque atual é a Irak Seqüestros & Resgates Inc. e por uma razão muito simples: no intuito de “apagar o Iraque” e impor uma “democracia de araque” (com o perdão do trocadilho), os norte-americanos dissolveram todas as instituições do país - Estado, governo, exército, sistema de saúde, educação, transportes, saneamento, água, luz, comunicações, indústrias locais, universidades, bibliotecas, etc., tudo.

Literalmente, eles mataram uma nação, até porque, assim como a romana, a Pax Americana não é nada mais que um deserto, pontuado por algum Wall Mart, Big Mac ou Pizza Hut, aqui e ali.

Eis a Grande Revolução Neocon: um Estado oco recheado com batatas Pringles, cultura pop e filmes dublados.

Ainda em Buried, um derradeiro requinte macabro: nos instantes finais, Reynolds recebe uma ligação dos patrões informando-o que acabara de ser despedido por justa causa, pois, contrariando as normas de seu contrato, mantivera ligação amorosa com colega de trabalho (morta simultaneamente em outro sequestro) e, consequentemente, a firma se eximia de qualquer pagamento, compromisso ou ônus decorrente da presente situação (sequestro) do ex-funcionário. Portanto bye-bye, te encontramos no Inferno.

Nesses tempos desumanos, brutais, insensíveis, neo-truculentos, pós-antigos, natimortos, moralóides - essencialmente imorais,  preferencialmente amorais - ler (ou reler) Malcolm Lowry ou assistir a filmes como Buried (este, pelo lado negativo) implica, não só em atos de coragem (literalmente no caso do filme:haja saco), mas em algo como uma espécie de renovação de fé na humanidade.

Que ainda deve existir em alguma parte.

(1)Autoridade Provisória de Coalizão (CPA).
(2) o Capitalismo de Desastre, segundo Naomi Klein.

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