Inclusão nas urnas e nas ruas

Hoje somos 45,6 milhões de brasileiros com deficiência em um país ainda aquém de nossas expectativas. Deste enorme contingente, cerca de 70% já são maiores de 16 anos e, portanto, carregam um importante direito: o de votar. Você já parou para pensar que este número significativo de cidadãos, o mesmo que vive no dia a dia os problemas engendrados pela falta de acesso, pode fazer em prol da melhoria de suas vidas, do local onde vivem e de toda a sua cidade?

Estamos a menos de duas semanas das eleições. E não poderíamos viver momento mais propício para colocar em prática nosso papel de agente social. Embora ainda pareça lugar comum falar da importância do voto, não podemos negar que a urna é, no mínimo, o nosso primeiro acesso à cidadania e à oportunidade de futuramente cobrar por melhorias.

Nos últimos tempos, a população com deficiência tem passado por importantes transformações na maneira de participar de ações na sociedade. Este impacto refletiu, inclusive, na crescente participação de candidatos com deficiência que pleiteiam cargos públicos nestas eleições. Eu mesma tenho sido procurada por muitos desses candidatos de cidades do interior de São Paulo – e também de outros estados, que estão dispostos a trabalhar pela acessibilidade em seu município.

Em 2010, o Instituto Mara Gabrilli realizou uma pesquisa para apurar justamente essa questão: coletar o número de políticos com deficiência nos 645 parlamentos municipais do estado de São Paulo. O resultado do estudo apontou que deste total, 80 parlamentares possuem uma deficiência. O equivalente a 1,3% dos representantes em todo o estado. Um número que tende a crescer e traz um novo olhar inclusivo para o parlamento, uma vez que esses representantes estão conseguindo olhar para além de suas dificuldades para ajudar outras pessoas, ultrapassando as barreiras do ir e vir, do acesso à saúde, à educação e do próprio mercado de trabalho.

Embora ainda sejamos representados por uma minoria no poder público, uma nova bandeira de inclusão passou a ser erguida nos últimos tempos. Daí a importância de não só votarmos de maneira consciente, mas promovermos a participação de parlamentares com deficiência na política e de representantes que vislumbrem gestões mais inclusivas e humanas.

É mais comum do que se imagina ainda ouvirmos de governantes expressões como “portadores de deficiência” ou “necessidades especiais”- termos que foram abolidos e trocados pela terminologia “pessoas com deficiência”, adotada por uma Convenção da ONU que trata justamente sobre os nossos direitos.

Esse equívoco é só um simples exemplo da falta de informação sobre o assunto. Um erro cometido por profissionais que por destreza deveriam conhecer a terminologia correta. Afinal, política é a ciência que estuda a melhor qualidade de vida de uma cidade. Um gestor público deve conhecer sua população e toda a diversidade humana que emana dela. Isso é um sinal de respeito às pessoas e suas diferentes necessidades.

O processo de exclusão começa na falta de informação. Por isso é tão importante que estejamos atentos para cobrar dos governantes as mudanças necessárias e a conduta que esperamos que seja adotada por eles perante a nós.

Infelizmente, muitas pessoas com deficiência deixam de votar pela falta de acessibilidade nos colégios eleitorais, que não estão preparados de nenhuma forma para receber eleitores com deficiência. Além do espaço arquitetônico não ser planejado, falta preparo para lidar com esse público. Mas a Justiça Eleitoral vem trabalhando para mudar isso. Hoje, a urna eletrônica preconiza o acesso ao cidadão com deficiência na hora de votar. Fazer valer esses acessos é nossa missão nestas eleições.

Estamos falando de uma postura que subtrai da pessoa com deficiência a condição assistencialista à qual foi submetida por décadas e a torna cidadã. Fazer da democracia um dos pilares da inclusão é a maneira mais eficaz e poderosa de guerrearmos a favor de cidades e vidas mais livres de barreiras e preconceitos.

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