Entenda o que é “comunista” e outros termos importantes da política

Comunista, socialista, esquerdista e variações “ridicularistas” e pejorativas tomaram conta de boa parte das discussões sobre política nos últimos anos. Confesso que desde o início estranhei o uso, e principalmente o abuso, dos termos. Assim como um químico não fica à vontade se alguém disser no laboratório “fervura”, ele provavelmente usaria “ebulição”, a montanha de circunstâncias e significados possíveis dados aos termos políticos exigiriam um melhor cuidado. Como ele não veio, cabe-nos tentar compreender como são usados e alguns porquês.

A designação de um movimento político como “esquerda” ganhou seu sentido clássico no período da França da primeira revolução, onde os mais radicais defensores de mudanças colocavam-se no lado esquerdo da Assembleia e os mais conservadores à direita. Naquele período havia três grandes linhas políticas. A primeira monárquica absolutista, que se esboroava e nunca mais retomaria sua proeminência. A segunda burguesa, que desejava derrubar a ordem feudal e desenvolver o capitalismo – grandes vitoriosos ao longo dos séculos 19 e 20. A popular, baseada em reivindicações para os grupos mais pobres e desprestigiados da sociedade, os quais veriam algumas vitórias parciais ao longo dos próximos 200 anos.

Comunista, por sua vez, foi um termo que designou parte dos movimentos de trabalhadores nos séculos 19 e 20, um subgrupo da linha política popular citada no parágrafo anterior.

O capitalismo em ascensão urbanizou e proletarizou muitas sociedades. Milhões de pessoas aglomeravam-se nas cidades e trabalhavam canas fábricas, mas viviam em péssimas condições. Assim, movimentos organizaram-se de diversas formas, sob diversas ideologias, das mais às menos radicais. A amplitude das mudanças almejada variava, e mesmo vários grupos desejavam um passado idílico, romântico, em que todos viveriam numa sonhada abundância no campo. Anarquistas, por sua vez, queriam uma sociedade toda nova, sem estado, dominação, etc.

A grande base comunista derivou do trabalho de Karl Marx e seu colega Friedrich Engels em meados do séc. 19. A par do desejo de uma vida melhor para as classes populares, Marx e Engels aportaram uma perspectiva científica ao estudo da sociedade. Em sua construção, que traz elementos importantes do Iluminismo, da crença na evolução e na sociedade dirigindo-se a um futuro melhor, entendiam que a sociedade movimenta-se sobretudo baseada na luta de classes. Grupos com condições de vida e objetivos distintos seriam antagonistas, pois conscientes de uma relação de exploração entre eles. O fulcro dos problemas seria a propriedade privada, e o futuro, de forma inexorável e predita pela ciência marxista, produziria uma sociedade sem propriedade privada, sem classes e sem dominação: o mundo comunista (sobre o qual, justiça seja feita, Marx pouco escreveu).

A partir dessas bases os movimentos políticos dividiram-se em incontáveis tendências. Considerada apenas a vertente à esquerda, a grande divisão ideológica dava-se em relação à centralidade da revolução e à profundidade das transformações pretendidas. Para alguns, tudo deveria mudar, necessariamente derrubando o sistema anterior – suprimir a propriedade privada e coletivizar tudo era o grande alvo, assim como desconstruir a ideologia burguesa com seus valores políticos, sociais e religiosos. A revolução russa principiou assim, embora posteriormente tenha adquirido a face de uma ditadura burocrática com altas doses de ideologia e propaganda, o que é outro capítulo enorme da discussão política.

Por outro lado, alguns grupos conformaram-se a mudanças possíveis dentro do jogo de poder capitalista, abrindo mão de transformações radicais e utilizando estrategicamente da democracia liberal. Buscavam-se melhores salários, serviços públicos de qualidade, possibilidades de ascensão social. Aqui surgiu a social democracia (que ganhou impulso no pós II Guerra na Europa), e, em algumas variantes de nomenclatura, definiram-se os grupos socialistas (brandos) em oposição aos comunistas (radicais).

Pois bem, descontadas as simplificações necessárias a um texto curto, atentando contra a história geral, política e das ideias, o quadro acima situa as bases canônicas do que seria esquerdista, comunista, socialista, socialdemocrata. É este quadro que gera o desconforto com o uso disseminado e sem o mínimo rigor dos termos. Contudo, como dissemos, o uso da linguagem é propriedade coletiva (contraditoriamente...), e cabe compreender o significado que os termos adquiriram no debate contemporâneo no Brasil.

No clima de polarização política visto hoje em dia, comunista, socialista e esquerdista e suas variantes são acusações que se faz a um grupo adversário, vindas em regra de um emissor que busca apoiar valores tradicionais na economia, sociedade, cultura, etc. Nessa intempérie dos termos, algumas ideia-força despontam, demonstrando situações e razões que dão maior ensejo aos termos.

Uma acusação “comunista” usual dirige-se às Ciências Sociais, vistas como altamente esquerdistas. Daí o ataque às universidades e a círculos de reflexão e crítica social. Nesse sentido, parece-me que o problema reside na percepção que se tem sobre a própria natureza dessas ciências, a Sociologia, a Antropologia, a Ciência Política e mesmo algumas partes da Economia.

Imagina-se um biólogo criticando a extensão da família dos coleópteros? Ou a relevância das pteridófitas nas florestas caducas? Desculpem-me os termos, referem-se a besouros, samambaias e plantas das quais as folhas caem em determinadas estações. Da mesma forma, um físico não questiona a força da gravidade. Quantas espécies de besouro existem, quantas samambaias vivem em florestas e seu papel nelas, se a gravidade deveria ser maior ou menor, nada disso está sob julgamento de valor humano. Não faz sentido uma campanha para aumentar em um par de asas os coleópteros, pois isso facilitaria seu voo, ou expressarmos nosso desejo de que a força da gravidade fosse menor para saltarmos como na Lua. Não faz sentido porque tais fenômenos fogem ao controle dos seres humanos, são fenômenos naturais.

Por outro lado, toda sociedade, a forma da economia, os valores culturais são criações humanas. É a forma de pensar e agir de mulheres e homens que determinam se temos propriedade privada, o nível da desigualdade, a aceitação de determinados hábitos como monogamia, homossexualidade, discriminação racial. As Ciências Sociais debruçam-se sobre esses fenômenos.

O grande contraste e desconforto que há deriva da diferença de visões entre aqueles que compreendem tais fenômenos (sociais) como criações humanas e assim passíveis de mudança e aqueles que os entendem como derivados de outras fontes, seja a tradição intocável, seja o mandamento divino (via religião), ou mesmo uma imposição da natureza sobre o homem.

Devido a esta razão o mundo das Ciências Sociais recebe mais cotidianamente a marca de “esquerdista” e coisas do gênero pois a perspectiva crítica é nelas central, e em muitos casos esta crítica aponta para uma mudança do mundo em que vivemos. É impossível fazer Ciências Sociais sem a crítica à sociedade, faz parte da atividade. Podemos dizer que essa crítica é “essencial”.

Não podemos esquecer, contudo, que, ao contrário, há uma enorme massa de fenômenos sociais que mesmo criticados recebem o apoio para sua manutenção, pois não se vê, por exemplo, que a crítica social procure abolir a ideia de educação para todos, da prevalência do Direito, da importância da liberdade, da igualdade. De fato, o que as Ciências Sociais não podem abrir mão é da crítica. Se ela se transforma em pedido de mudança, isso ocorre em alguns casos, em franjas ideológicas, em tendências.

Em suma, o que define as Ciências Sociais é a crítica ao mundo humano. Aos que a valorizam, isso é sua riqueza; aos que são contrários a determinadas mudanças, trata-se da perversão da ciência. Veja curiosamente que um conservador ocidental, se levado a outras culturas distintas, poderia lutar pelo fim da mutilação do clitóris, sendo totalmente crítico à sociedade local. Talvez lá ele fosse taxado de “esquerdista”.

Um segundo uso da pejoração “comunista” volta-se ao sistema político. Há sem dúvida um extenso e difuso sentimento de desconforto com a sociedade em que vivemos. Em perspectiva histórica, a sociedade hoje traz muito mais confortos materiais a um número bastante grande de pessoas, embora parcela enorme ainda permaneça em situações de pobreza e miséria. Da mesma forma, a informação flui como nunca antes. Mas o fato é que o sentimento de desconforto deriva do que o ser humano deseja, sonha e pede, e não do que já foi conquistado; e é normal que seja assim.

Desta forma, o grande culpado da sociedade não atingir os fins que deseja precisa ser encontrado, e essa figura está disponível desde sempre, o establishment. O establishment consiste na ordem impessoal que rege a sociedade ou se refere ao grupo que controla a sociedade, mesmo que tais controles sejam parciais e limitados. À medida em que as pessoas desejam um mundo diferente mas não encontram forma de acesso a ele, o establishment torna-se alvo.

No contexto atual brasileiro, chamar o establishment de esquerda derivou do movimento de contestação política que cresceu à direita, basicamente o grupo que mostrou sua face a partir de 2013 e obteve sucesso na última eleição de 2018. Vindo da direita e enfeixando o mal-estar da população “com tudo que está aí” (corrupção, crise, criminalidade, etc.), disso decorreu logicamente que todas as instituições, grupos econômicos e figuras de relevo, quando postadas no grupo político antagonista, passassem a ser chamados de esquerdistas. Ressalte-se que, para alguns representantes do establishment, seria impossível construir uma imagem de esquerdismo em modelos clássicos. Por exemplo, acusar a rede Globo de esquerdista, pois que defende a ordem estabelecida, defendeu a ditadura militar e coisas do gênero. Contudo, leva o rótulo de esquerdista porque simboliza o establishment, e este é o grande inimigo do momento.

No sentido da crítica ao establishment, o uso do impropério “comunista”, “esquerdista” e variações nos lembra a máxima de Sartre, “o inferno são os outros”. Sim, todos aqueles que não nos apoiam ou diferem de nós mesmos são esquerda, fazem parte do problema.

Por fim, essa discussão dos termos faz-nos também pensar se, à luz de seu significado histórico, os movimentos e atores que hoje se dizem de esquerda realmente o são. A experiência do PT e sua aliança no governo por mais de uma década questiona se aqueles ideais de mudança social profunda realmente devem ser relacionados ao grupo.

Em verdade, a trajetória do PT e seus aliados insere-se no mundo pós-queda do Muro de Berlin, em que a esquerda perdeu suas bandeiras históricas. Mais do que isso, insere-se na realidade brasileira em que os princípios republicanos são muito pouco enraizados e relevantes. Nosso caldo cultural mistura o gosto atávico pela desigualdade, o patrimonialismo e o corporativismo. Assim o “esquerdismo” resultante mostra-se como uma figura muito peculiar, e aquém dos sonhos utópicos.

Assim, vê-se que o uso hoje dos termos esquerda e correlatos ganhou curso muito particular. Por um lado serve para atacar o establishment, por outro questiona as perspectivas de mudança. Por fim, é ainda uma bandeira já sem brilho.

Perder o sentido das palavras empobrece a experiência e reflexão humana. Talvez, ao cabo, trate-se disso, de um empobrecimento da reflexão e da capacidade racional de influenciar o mundo, pois entregues a conflitos superficiais e sonhos vazios.

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