Dilma e a hora do bambolê

Ainda no mês de julho, antes de o Congresso entrar em recesso, a gente já comentava aqui sobre os problemas que a presidenta Dilma enfrentava no campo político, com aqueles que vão se consolidando como seus maiores adversários: os parlamentares e suas práticas e a corporação sindical do funcionalismo público. Naquela ocasião, o funcionalismo já estava em greve. E os deputados federais ameaçavam não entrar em recesso porque o governo não tinha liberado suas emendas ao orçamento.

Passou-se um mês, o Congresso voltou do recesso, e a greve dos servidores continua. E o quadro só fez piorar. A paralisação dos servidores recrudesceu, com a adesão todos os dias de novas categorias do funcionalismo. Estima-se que já são mais de 350 mil os servidores em greve em todo o país. E a Câmara dos Deputados também continua em “greve”: não vota nada porque as emendas continuam não liberadas.

Aparentemente, também não mudou a visão que a população de um modo geral tem do governo Dilma. A presidenta continua batendo recordes de popularidade. E continua parecendo correta a impressão de que isso acontece porque, aos olhos da população, ela compra as brigas certas. Mas é inegável que esse estado de coisas já está começando a ficar perigoso. E essa é uma preocupação que percorre também o Palácio do Planalto. Dilma anuncia programas de crescimento para o país, como o pacote de concessão de ferrovias e rodovias de ontem (15). Mas, com a máquina pública em greve e com os deputados federais também de braços cruzados, o esforço todo do governo corre sério risco de emperrar.

Apesar de pertencer a um partido de oposição, o deputado Chico Alencar (Psol-RJ) acha absurda a pressão que os deputados “grevistas” vêm fazendo sobre Dilma. “Os deputados estão se comportando como se fossem um automóvel: precisam ser abastecidos, com as verbas orçamentárias, para funcionar. Isso é algo inadmissível”, reclama. De fato, fica explícito que não é por convicção que o Congresso se move. E que a coalizão política passa a quilômetros de distância longe disso.

O problema é que isso não é novidade para ninguém. Que o presidencialismo de coalizão brasileiro passa longe da adesão a um projeto político único é coisa mais do que sabida. Inclusive – e hoje principalmente – por Dilma. Por mais que seja louvável que ela tente estabelecer mecanismos novos de relação política, já se disse aqui – e não custa repetir – que ela sabia como era o jogo político antes de aceitar entrar nele. Para que o recesso acontecesse, o presidente da Câmara, Marco Maia (PT-RS), fez um acerto pelo qual comunicou que o governo liberaria as emendas. Se não vai liberar, o governo deveria dizer claramente que não pretende seguir com esse tipo de troca. E arcar com as consequências.

No caso do funcionalismo, o problema é mais complicado. O próprio Palácio do Planalto reconhece que há distorções no serviço público, que deixam carreiras bastante prejudicadas. O caso mais flagrante é o dos professores. As informações no palácio são de que Dilma reconhece isso. E entrou pessoalmente na tentativa de encontrar uma solução negociada para eles, na proposta que o governo chegou a fazer e acabou não sendo aceita.

No caso, Dilma delegou à ministra do Planejamento, Mirian Belchior, que trate da greve. Mas conversa diariamente sobre o tema com ela. E quando Mirian Belchior afirma que é preciso discutir as situações do funcionalismo caso a caso, apontando que há categorias que não estão tão prejudicadas quanto afirmam, fala por Dilma. Os servidores, porém, dizem que Dilma – ou Mirian por ela – nada negociam. E a greve só vai inchando, sem vislumbre de quando possa acabar.

Para complicar, há categorias da iniciativa privada – como os trabalhadores na indústria automobilística – discutindo entrar em greve também. Reclama-se – é fato – que um dos males da política brasileira sempre foi ter cedido a pressões não republicanas. E, nesse ponto, a população parece aplaudir Dilma. A essa altura, porém, talvez seja prudente que ela relaxe um pouco e pegue aquele bambolê que o líder do PMDB, Henrique Eduardo Alves (RN), disse que ia lhe dar de presente para amolecer um pouco a cintura.

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