CPI do carro vazio, trancado, ladeira abaixo

Imagine um carro parado. Trancado. Desengrenado. Com o freio de mão solto. Estacionado no alto de uma longa e íngreme ladeira. Então, um grupo se junta e resolve empurrar o carro ladeira abaixo, acreditando piamente na avaliação de um deles, de que consegue controlar a direção do carro durante a descida. Quando o carro começa a ganhar velocidade, o grupo constata que, ao contrário do que imaginava, querer guiar o carro naquelas circunstâncias é impossível. Então, inicia um esforço para tentar pará-lo. O que se revela, também, uma tarefa igualmente impossível. Na noite de terça-feira (17), os deputados e senadores colocaram esse carro em movimento no Congresso Nacional. Ele atende pelo nome de CPI do Cachoeira. Começa agora a descer desembestado pela ladeira. Onde vai parar, só Deus sabe.

Desde o segundo momento do caso Cachoeira – quando começaram a surgir informações além das relações do senador Demóstenes Torres (sem partido-GO) com o bicheiro – começou a ficar claro que não havia ali algo que pudesse vir a ser limitado para atingir apenas a um dos lados na disputa política. Demolida a imagem de Demóstenes, dando um tiro de morte em alguém que era uma das principais apostas da oposição para o futuro, rápido chamuscou-se a imagem do governador de Goiás, Marconi Perillo, que começou a ter de dar explicações. Ainda estávamos só no campo das oposições. Mas eis que surgem as denúncias que envolvem o governo petista de Agnelo Queiroz no Distrito Federal. Entre os deputados, há oposicionistas como Carlos Alberto Lereia (PSDB-GO) e Stepan Nercessian (PPS-RJ), mas há deputados da base governista como Jovair Arantes (PTB-GO) e Rubens Otoni (PT-GO). Há até um vereador do Psol citado: Elias Vaz, de Goiânia.

Nos corredores do Congresso, o caminho dos vazamentos de informações das Operações Vegas e Monte Carlo, da Polícia Federal, que detalham a rede política montada por Cachoeira, tem sido tema das principais conversas. A primeira coisa que chama a atenção de muitos foi o fato de o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, ter ficado desde 2009 com as informações das investigações sem oferecer denúncia contra Demóstenes. Aí, os vazamentos surgem, inicialmente apenas com as informações sobre Demóstenes.

Então, surgidos os dados contra Demóstenes, Gurgel oferece a denúncia contra ele, aceita pelo Supremo Tribunal Federal. Os advogados do senador goiano passam, então, a ter acesso ao inquérito. E é na sequência disso que começam a surgir as denúncias contra outros políticos envolvidos. Terá havido um esforço inicial de vazamento seletivo? Terá sido o próprio Demóstenes quem resolveu jogar o restante da sujeira no ventilador?

O fato é que querer selecionar aqueles que vai se atingir na investigação da CPI é tarefa quase tão impossível quanto controlar um carro desgovernado pelo lado de fora. Se a rede de Cachoeira era bem mais ampla que apenas Demóstenes, por que imaginar que ele aceitaria cair sozinho? Se vai além dos políticos de oposição, por que imaginar que os políticos governistas não acabariam aparecendo? Se alcança os demais poderes além do Legislativo, pode apostar que quem não tiver compromisso com eles, assim que obtiver a informação, vai repassá-la adiante.

Se era intenção do PT, diante do depoimento gravado por seu presidente, Rui Falcão, fazer a CPI do Cachoeira para denunciar que o mensalão era uma farsa, o tiro pode sair totalmente pela culatra. Essa tese parte do fato de os arapongas de Cachoeira estarem por trás do vídeo, publicado pela revista Veja em 2003, que mostrava o ex-diretor dos Correios, Maurício Marinho, pedindo propina. A denúncia foi o estopim do mensalão: depois dela é que Roberto Jefferson procura a jornalista Renata Lo Prette, da Folha de S. Paulo, e denuncia a existência do esquema.

Em primeiro lugar, o caso da propina de Maurício Marinho não estava diretamente ligado ao esquema que Jefferson batizou de mensalão. O que aconteceu ali é que Jefferson na época identificou José Dirceu como sendo o autor da denúncia contra Marinho, que atingia o PTB e, consequentemente, a ele, e interpretou que aquilo seria parte de um estratagema para isolá-lo. Aí, chutou o balde com a história do mensalão.

É verdade que o que se verificou mais tarde não foi exatamente o que Jefferson disse que havia. Nunca se comprovou a existência de um pagamento de mesada aos partidos aliados, como o termo mensalão fazia imaginar. Mas se verificou, sim, a existência de um fundo de recursos, a partir dos empréstimos do publicitário Marcos Valério ao PT, que amparava partidos e políticos aliados. Os nomes de quem se valeu do tal fundo estão no inquérito que tramita no STF. O próprio Marcos Valério detalhou-os ao Ministério Público. Uma CPI, que teve como presidente um senador do PT, Delcício Amaral (MS), foi atrás do que houve. O próprio presidente Lula, em determinado momento, diante do que se constatou, convocou uma reunião ministerial, pediu desculpas à população e disse que o PT precisava pedir desculpas também. “Eu me sinto traído”, disse Lula, nessa reunião, no dia 12 de agosto de 2005. Então, imaginar que os experimentados 11 senhores e senhoras que compõem o STF vão acreditar que as mais de mil páginas do inquérito do mensalão são uma farsa montada por Carlinhos Cachoeira parece uma aposta um bocado arriscada na falta de memória.

Imaginar também que um novo escândalo poderia ofuscar o julgamento do mensalão que acontecerá daqui até o final do ano também parece outra aposta um bocado arriscada. Se Cachoeira gravou Maurício Marinho e isso fez detonar o mensalão, foi também Cachoeira quem gravou Valdomiro Diniz, o homem que trabalhou com José Dirceu na Casa Civil, e aparece nesse vídeo, o primeiro escândalo da era Lula, pedindo propina ao bicheiro. E há ainda as denúncias contra Agnelo, contra a construtora Delta, que tem diversos contratos de obras do PAC. Tudo isso, ao contrário de ofuscar, poderá é agravar o ambiente político no momento do julgamento do mensalão.

Deve, então, a oposição soltar foguetes e fazer festa? Seria algo igualmente insano e arriscado. Até o mensalão, ao final da CPI dos Correios, provocou danos irreparáveis à oposição. Descobriu-se que o embrião do esquema montado por Marcos Valério para o PT ele tinha feito em Minas Gerais para os tucanos. O hoje deputado Eduardo Azeredo (PSDB-MG) nunca mais foi o mesmo depois das denúncias. O ex-senador Roberto Brant (PSDB-MG), depois do que surgiu, deixou a política.

No caso Cachoeira, já está aí Demóstenes caminhando pelo Congresso como se fosse a versão zumbi de si mesmo. Marconi calado em Goiás. Possíveis tentáculos se aproximando de outros estados, como Rio de Janeiro e Tocantins. Enfim, empurraram o carro. Pará-lo já é impossível. Ele ganha velocidade. Veremos onde vai parar.

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