Algumas coisas que sei sobre o Francis

Márcia Denser*

“O Brasil só não é rico porque não quer”.
                     Temos de vencer uma certa infantilidade
                                                              que há no nosso temperamento, uma
                                                              confusão entre desejo e realidade. O
                                                               Brasil tem o dever consigo próprio de
                            eliminar as necessidades básicas do
                                               ser humano. Mas o Brasil não cumpre
                                                                isso, os governos não cumprem isso,
                                                               a nossa sociedade não cumpre isso ““,
        Paulo Francis.

Escrevi em algum lugar que “o brasileiro não só não tem memória como antecipa o esquecimento”, contudo, como exceção à regra, essa frase não se aplica à memória de Paulo Francis. Morto há quase dez anos, em 4 de fevereiro de 97, Franz Paul Heilborn mantém acesa a chama em torno de uma legenda.

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Francis gozou de um estatuto raro no jornalismo brasileiro: escrevia o que queria. Não estava a serviço dos interesses políticos do patrão, quer este fosse a Folha, o Estado ou a Globo. Assim, durante décadas, graças a essa independência de espírito, cultura enciclopédica e estilo corrosivo, tornou-se o maior crítico cultural e político da sociedade brasileira.

Pessoalmente refinado, amoral, elitista e excludente, publicamente temido, respeitado, odiado e sobretudo invejado, seus inimigos eram legião, bajuladores idem.

Insubornável. 

Infelizmente não teve e parece que não terá sucessores. Alguém como ele não é mais possível no insalubre contexto histórico contemporâneo. 

No entanto, sua figura emblemática continua crescendo na razão inversa duma mídia que cada vez mais se banaliza, se acanalha, se vende, perde credibilidade, sua função de mídia. Ainda bem que temos o Francis como paradigma, quer dizer, alguém de grande porte para botar nos devidos lugares – aquela terra de ninguém entre a irrelevância e o esquecimento – os jabores, mainardis e demais aspirantes de somenos. Entende-se por que as mediocridades de plantão precisam destruí-lo. No melhor estilo ancilar.

O editor e amigo Paulo Roberto Pires (Ediouro) considera que a posteridade tem sido injusta com Francis ao fazer dele uma caricatura de reacionário em tempos politicamente corretos, incensado por subarticulistas. Direita Volver é o título da matéria (15/2/06-FSP) que tenta fazer de Francis algo entre fada madrinha, santo padroeiro e muso inspirador daquele setor da mídia cooptado pelo “intelectual a favor” – a favor do privilégio do patrão em geral, de George Bush em particular, dos ricos em si e do opressor no íntimo. O que é uma contradição nos termos pelo que foi dito anteriormente: Francis só foi quem foi porque escrevia o que queria, livremente, não atendia a pressões, e o público sabia disso.

Mas tudo isso é bobagem, porque tê-lo como herói, como mito, é o que importa, é o que conta (falando em heróis, sabem quem é a figura ideal, o paradigma da Adriane Galisteu, quem ela quer ser quando crescer? Hebe Camargo, coitadinha).

Agora falta contar minha relação pessoal com o Francis.

Pesquisando para escrever esta crônica, encontrei o artigo do Paulo Roberto Pires, Razões e Sensibilidades (de 30/9/2004), que incrivel e mui apropriadamente fala do tremendo impacto cultural que representou a associação extra-oficial de amizade e idéias Paulo Francis/Ênio Silveira nas décadas de 70-80,  porque sou uma espécie de produto dessa associação.

Ênio como o primeiro grande editor que acreditou em mim, desde O Animal dos Motéis até Exercícios para o Pecado (que revisou pessoalmente, fez as orelhas, prefaciou, pode?) e Francis, como o crítico que me consagrou quando, numa manhã de julho de 1983, escreveu no Diário da Corte, FSP (foi a primeira nota crítica, mas haveria outras, tenho todos os recortes):

"Li uma escritora brasileira que sabe escrever. Se chama Márcia Denser. Tem um cuidado com a palavra que sempre imaginei morto aí, onde nosso escritores ou contam histórias ou propõem teses para nos salvar do capitalismo. Ela tem uma cabeça capaz de criar o que vê, como é, sem adornos. Parabéns."

Nesse dia passei a ter uma pálida idéia do seu poder de fogo: o telefone não parou de tocar a partir das sete da manhã lá em casa, a começar por – pasmem – Raduan Nassar: “Já leu a Folha hoje?” O primeiro a cantar a bola, o resto vocês podem imaginar. A inveja que coletivamente me passou a ser dirigida era tão espessa quanto sopa de ervilha: dava para cortá-la!

A propósito, nesse mesmo Diário da Corte de julho de 83, Francis também fala de política: “Um certo George Will, cara de fuinha, mestre do lugar-comum, é atacado na imprensa americana porque teria treinado Reagan para o debate contra Carter em 80, sabendo que Reagan tinha papéis confidenciais de Carter, sem nada dizer, e por isso dizem que violou ética jornalística. Francamente. Esse Will é descendente de Ghengis Khan. É um propagandista do privilégio, da repressão e do militarismo. Admira Reagan. Nada mais pândego que exigir de propagandistas do “establishment” que se portem como jornalistas independentes. São parte do sistema, ajudam os poderosos a ludibriar as massas o tempo todo. Não só brasileiros são ingênuos. Um deputado do PMDB disse ontem que não se escreve história com baioneta ou fuzil. Ao contrário, é plausível argumentar que só se escreve história com baioneta, fuzil ou equivalente, de Júlio César a Robespierre, a Hitler e Stalin”.

Interessante é que ele parece descrever a atuação dos nossos moderníssimos intelectuais-a-favor, os meninos direitos de quem não poderia ser santo padroeiro nem aqui nem na casa do caralho.

Meu bom e velho Francis, eu te devia essa, que descanse em paz.

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