A queda de Demóstenes não pode virar a vitória do cinismo

Numa das gravações colhidas pela Polícia Federal nas investigações da Operação Monte Carlo, um integrante da quadrilha de Carlinhos Cachoeira pergunta a um outro, que estava em Brasília: “Então, roubando muito aí?”

Eis aí um resumo cru de quem era a turma do senador Demóstenes Torres (sem partido-GO). Até outro dia, Demóstenes era considerado um dos políticos brasileiros mais identificados com o combate à corrupção e com a defesa da moralidade pública. Até que se descobriu que isso na verdade era apenas a talvez mais bem construída fachada da história da política brasileira. Demóstenes não era nada disso. Ele era simplesmente um dos representantes no Congresso – pelo que mostram as investigações, não o único, mas o mais destacado deles – de uma organização criminosa. Uma organização cujos membros, quando se falavam, perguntavam um ao outro se estavam “roubando muito”.

Para nossa profunda infelicidade, a política brasileira é pródiga na produção de escândalos cabeludos. Mas eu não lembro de uma revelação mais clara de político instalado no Congresso para representar uma operação ilegal. Geralmente, as notícias costumam falar de políticos que superfaturam obras, que recebem propina, que desviam recursos públicos. Demóstenes, pelo que aparece nas investigações da Operação Monte Carlo, era mais do que isso. Ele era um lobista do crime.

Desde que começaram a surgir as denúncias contra o senador goiano, não me sai da cabeça a lembrança de um ótimo filme italiano realizado em 1971 chamado Investigação de um Cidadão Acima de Qualquer Suspeita. Dirigido por Elio Petri, tendo como atores Jean Maria Volonté e a brasileira Florinda Bolkan, o filme ganhou em 1971 dois dos principais prêmios do cinema mundial naquele ano: o Oscar de melhor filme estrangeiro e o Grande Prêmio do Juri no festival de Cannes.

No filme, Volonté é o chefe do Departamento de Polícia. Respeitado, é chamado por todos de “Doutor”. Exatamente o termo que Carlinhos Cachoeira usava nas conversas com Demóstenes (que, em troca, chamava Cachoeira de “Professor”). Volonté, o “Doutor”, mata a sua amante, Florinda Bolkan. E, como ele é um “cidadão acima de qualquer suspeita”, ninguém desconfia, por mais que ele tenha deixado diversas pistas sobre a sua autoria do crime.

No seu comportamento político, Demóstenes não deixou tantas pistas. Ao contrário, sempre foi absolutamente implacável na cobrança que fazia sobre os colegas quanto à postura ética. Não deixava a menor margem para hesitação. É difícil acreditar em quem diz que não ficou surpreso com a revelação de que o Demóstenes defensor da ética era tão falso como uma nota de R$ 3. Que Demóstenes pague, então, e pague caro, por nos ter enganado.

O risco, porém, que não pode acontecer é que o caso Demóstenes venha a ser usado para produzir uma vitória do cinismo. O triunfo daquele tipo de pensamento que diz que todo político é igual, que política não presta, que não adianta, etc, etc. Porque isso só interessa aos demais bandidos inseridos na vida política. Eles hoje estão soltando foguetes com o desmoronamento da falsa imagem do senador goiano. É o triunfo da malandragem política!

“Udenismo”. “Falso moralismo”. “Hipocrisia”. Esses são alguns dos termos preferidos pela malandragem política para designar todas as denúncias que são feitas contra eles. Se o desnudamento do verdadeiro Demóstenes reforça tais argumentos, não se pode sucumbir a isso. Política não é atividade de bandido. Não é. Ou um dia, não será.

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