A Maratona do Deserto e a maratona dos concursos

Tenho aqui em minha mesa o levantamento de concursos autorizados e previstos para o resto de 2012 e o primeiro semestre de 2013. São 25 autorizados, 11 deles de nível superior e 13 de nível médio, e 7 previstos, para ambos os níveis. Em número de vagas, são talvez mais de 100 mil, já que só o de nível superior para o Ministério da Educação, um dos autorizados, oferecerá 71.559 vagas.

Enquanto analisava esses números, deparei, na internet, com um relato que me fez estabelecer uma analogia entre o que lia na tela do computador e o imenso desafio que representa, para quem deseja se tornar servidor público, alcançar a aprovação em uma dessas seleções. Ou em mais de uma delas, afinal é comum ser necessário prestar vários concursos até que a aprovação se torne realidade.

A história que eu lia no computador não era sobre concurso público, mas sobre uma grande aventura atlética, a Maratona do Deserto do Saara, no Marrocos, competição planejada para exigir o máximo do ser humano. Foi fácil perceber a relação entre ela e a maratona dos concursos públicos, outra aventura cheia de desafios traiçoeiros, a exigir do candidato o máximo que um ser humano pode dar em busca do sucesso. Além disso, assim como na Maratona do Deserto, quando se trata de concurso público, a vitória não é apenas de quem chega em primeiro. Apenas cruzar a linha de chegada e conseguir uma vaga entre os finalistas muitas vezes já é o bastante para ser bem-sucedido.

Não, de fato não é para qualquer um. A luta do repórter Clayton Conservani para chegar ao fim da prova é mais do que emocionante. Extremamente comovente, pode até levar os mais emotivos às lágrimas. E as histórias paralelas são algo quase inacreditável. É difícil para uma pessoa comum entender por que um cego disputaria uma prova de 246 quilômetros em meio a dunas gigantescas, enfrentando calor de 50ºC durante o dia e frio de 5ºC de noite, durante 6 dias, em um ambiente agressivo, mágico, perigoso e, sobretudo, extremamente hostil para o ser humano. Por quê?

Fico com a explicação do homem que não enxerga, mas sabe aonde vai: “É sempre uma nova descoberta, um prazer. Eu não vejo, mas eu sinto a paisagem”, diz Didier Benguigui, 61 anos, ao lado do guia, Gilles Clain.

O desafio é uma busca permanente por inspiração. Trata-se de situação muito semelhante, em certos aspectos, à odisseia dos concurseiros. Cansaço, sofrimento físico, vontade de desistir, tudo se soma contra o candidato, assim como contra os aventureiros do deserto.

Depois de três dias e 107 quilômetros percorridos, o estado de Conservani é crítico. Os pés e as costas estão machucados, o organismo está tão desgastado que ele parece na iminência de desistir. Mas, já dizia Lance Armstrong, “o sofrimento é passageiro, desistir é para sempre”. O repórter prossegue, depois de recorrer a mensagens da mulher e da filha para renovar as forças. É assim também com o concurseiro. A família proporciona o apoio fundamental para ele dar seguimento à jornada. A certeza de que ela estará ao seu lado até o fim ameniza um pouco o sofrimento e o cansaço.

Há momentos críticos nessas aventuras, na do concurseiro e na do atleta. Mencionei o participante cego da Maratona do Deserto, o que me faz lembrar dos deficientes visuais que concorrem aos cargos públicos. São dois exemplos fantásticos de determinação e caráter. Entretanto, na aventura do deserto, encontro um outro desafio ainda mais impressionante: quatro rapazes com paralisia cerebral participam da prova se revezando em uma cadeira de rodas especial, conduzida por bombeiros franceses. Os jovens têm entre 16 e 20 anos de idade.

Um deles, Victor, diz: “É a primeira vez que a gente faz um percurso assim. São paisagens magníficas. É uma grande descoberta para pessoas como nós”. Penso, então, em todos os alunos portadores de necessidades especiais que, depois de passar por nossas salas de aulas, têm sua aventura nos concursos coroada com a sonhada aprovação para um cargo público. Que emoção, que valor, que exemplo para o mundo e para as pessoas que não têm problemas para se locomover, se comunicar, se expressar, enfim!

Confesso que meu coração bate mais forte ao acompanhar cada etapa da prova no deserto. Noto que as dificuldades aumentam e o rendimento dos participantes cai, naturalmente, por causa do desgaste físico. Mais uma vez, me vêm à mente os concurseiros, obrigados a enfrentar uma série de testes intelectuais e físicos. E me lembro da dura realidade: apenas os mais fortes, os melhores, são capazes de sobreviver à prova. Não se trata de mera imagem de retórica. Há concursos que testam mesmo os limites físicos dos candidatos, como o da Polícia Federal e o último do Detran. Quem não fez uma preparação adequada ficou pelo caminho.

Quando, finalmente, Conservani e seu amigo maratonista Bernardo Fonseca concluem a Maratona do Deserto, sãos e salvos, embora exaustos, doídos, machucados, Clayton sente-se um campeão, a despeito da 303a colocação na classificação geral. Bernardo é o número 272º, entre os 797 atletas que resistiram ao desafio, dos 881 atletas de 48 países que largaram. Também Didier, o cego, e Victor, o deficiente cerebral, cruzam a linha de chegada.

“Foram seis dias de um esforço extremo. De resistência, de perseverança. E algumas perguntas passaram pela minha cabeça o tempo todo: Por que as pessoas desafiam seus limites? Por que se arriscam em um ambiente tão hostil? Por que enfrentam tantas adversidades voluntariamente? Não é por algum prêmio, por algum troféu ou medalha. É pela convicção de que, apesar de tudo, sempre vale a pena seguir em frente. Apesar de todas as dificuldades, não desistir jamais. Foi isso que o deserto ensinou a mim e a essas pessoas. É uma lição para o resto da vida”, diz Clayton Conservani, ao se despedir do Saara.

Também eu me despeço de você, leitor amigo, deixando aqui essa maravilhosa lição de vida e de superação de todas as dificuldades. Creio que a chave de tudo para alcançar o sucesso, como alcançaram os guerreiros do Saara, está nesta frase do repórter aventureiro: “Apesar de todas as dificuldades, não desistir jamais”. Sigam este conselho, queridos alunos, e lembrem-se: a dor da preparação para concursos públicos é temporária e o cargo público é permanente.

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