A incrível história de Julio Cesar Baltasar

(Cláudio Versiani)Julio Cesar Baltasar nasceu na Guatemala há 20 anos. Ele é formado em “Técnicas da Computação” e trabalha na pastoral da igreja católica na cidade de San Marcos, noroeste do país. Além das funções “informáticas”, ele é um dos líderes comunitários da “Pastoral da Infância” desde fevereiro de 2008. Julio se juntou à pastoral em 2005 fazendo trabalho voluntário e aprendendo com sua mãe o ofício de líder comunitário. Julio assiste às chamadas comunidades carentes, ensinando educação básica, um pouco de medicina natural e alimentação saudável. “Eu queria ajudar as crianças. Minha preocupação é a desnutrição”, diz ele. “Se uma mãe está bem informada, ela pode alimentar bem seus filhos. Mesmo com poucos recursos, a alimentação natural é saudável”, completa. Ele ainda tem que encontrar tempo para ajudar a família no trabalho da terra. Julio, o avô, a mãe e duas irmãs vivem como agricultores na região de San Marcos. Julio nunca havia sequer pensado em sair da Guatemala até que um dia, em setembro de 2007, seu primo lhe disse: “Vou para o norte. Lá a vida é melhor, tem trabalho e se ganha muito mais”. O garoto foi fisgado pela frase. A seguir, a história como me relatou Julio Cesar Baltasar.



"Uma tarde em que eu estava trabalhando nas terras da família, colhendo milho, apareceu o coiote e perguntou se eu tinha desejo de ir para a América. Disse que sim e perguntei quanto custaria. O coiote respondeu 33 mil quetzals – não tenho dinheiro… o coiote replicou: você paga lá, mas aí o preço sobe para 40 mil quetzals. Eu concordei e marcamos a data de 19 de novembro para sair de San Marcos. Minha mãe não gostou nem um pouco da ideia e disse não. Meu avô também disse não: ‘é muito perigoso e você é meu filho único’. Eu tenho duas irmãs, filhas de um outro pai, que também abandonou a família (Julio chama o avô de pai. O pai verdadeiro abandonou a família quando Julio nasceu, hoje ele é casado com uma outra mulher e não se comunica com o filho). Acabei convencendo minha mãe e meu avô. Eu tenho um tio que mora em Los Angeles desde 2004. Ele é quem iria pagar o coiote. No dia 12 de novembro começou a aventura. Eu saí de San Marcos levando uma maleta com dois casacos, duas camisas e duas calças. Nos pés um par de tênis e 800 quetzals (cerca de 100 dólares) para as despesas da viagem. No centro de San Marcos, eu fui “repassado” para um outro coiote. De ônibus fomos até a cidade de La Messia, na fronteira com o México. A travessia foi feita a pé e durou um dia. No lado mexicano, chegamos a uma vila, Tapachula, e descansamos numa pensão local. No dia seguinte pegamos um ônibus para Vera Cruz. Éramos 32 pessoas comandadas por um coiote. Eu viajava junto com um primo. No total foram sete dias atravessando o território mexicano e tentando enganar as barreiras policiais. Quando chegamos a Rio Bravo, tivemos que saltar do ônibus antes da última barreira policial. Na última vila do México dormimos 32 pessoas num espaço de 10 metros quadrados. No dia seguinte atravessamos um rio de 200 metros de largura agarrados numa corda. Para entrar em território americano, caminhamos das 3h da manhã até as 17h. Acho que chegamos ao Texas ou ao Arizona, não sei. Só sei que era um deserto e fazia muito calor de dia e muito frio de noite. De dia nos escondíamos e de noite caminhávamos. No segundo dia terminou a comida e no terceiro, a água. Eu, um amigo e o meu primo carregamos um companheiro durante boa parte da viagem. Chegamos a uma pequena cidade americana, o grupo se dividiu em dois, 16 para cada lado, agora eram dois coiotes novos, cada um para um lado. A gente queria chegar a Phoenix, no Arizona. Chegamos e encontramos o outro grupo, dormimos de novo 32 pessoas num quarto. Dormir mesmo foi impossível, não dava nem para respirar. Consegui telefonar para meu tio que mora em Los Angeles e o tio me disse que estava me esperando e que pagaria o preço combinado com o coiote. Entramos em mais um ônibus alugado em direção a Los Angeles. Não me lembro bem quando foi, mas de repente, o chofer avisou que a imigração estava seguindo de longe o ônibus. O coiote mandou o motorista parar o ônibus na beira da estrada e deu ordem para que todos saíssem correndo e tentassem se esconder no mato. Apareceram vários carros de polícia que nos caçaram por um bom tempo. A polícia agarrou todo mundo, todos os 32, menos o coiote que escapuliu. Fomos todos algemados e colocados num caminhão e levados para a prisão em Phoenix. Lá na prisão de Phoenix, os imigrantes são marcados no braço com um número e o nome da prisão. Em cada cela dormem quatro. Todo mundo acorda às 5 da manhã com os policiais batendo na grade da cela e às vezes com água fria jogada em você. Eu limpava as celas e os banheiros da prisão, ainda lavava as roupas de cama. Depois consegui transferência para a cozinha da prisão, passei a ganhar um dólar por dia. Foram 25 dias nesse inferno. Apanhei de cacetete, porque me envolvi numa briga com uma gangue de salvadorenhos para defender meu primo. Um dia a polícia juntou os 32 guatemaltecos e começou a chamar os nomes dos que queriam voltar para casa. Eu e meu primo fomos os dois últimos da lista, foi uma aflição, mas também uma super alegria. Ficamos mais dois dias no inferno. Me algemaram de novo, mas desta vez eu fiquei feliz. Me levaram para o aeroporto e eu e meu primo embarcamos num avião da Força Aérea da Guatemala. Cheguei ao meu país no dia 5 de janeiro, 54 dias depois de ter saído de San Marcos. Até chegar em casa foram mais 5 horas de carona. Quando me viram, a mãe e o avô, que não sabiam nada de mim, se puseram a chorar. Eu também. Quero esquecer tudo que passei e que vi. Vi muita coisa triste. No deserto vi sapatos e roupas jogadas e vi até uma perna, isso não vou esquecer. Quase morri e não sei como consegui caminhar tantos dias, meus dois pés eram uma bolha só. Agora só quero saber de ajudar as crianças aqui da Guatemala.”



O primo de Julio, depois da terceira tentativa, vive ilegalmente em Los Angeles. Julio não quer mais sair da Guatemala, ele não se esquece do inferno que foi a viagem, por mais que tente. Ele não quer mais saber de passar um Natal e uma virada de ano tão tristes assim. Se for para sair da Guatemala, o destino seria o Brasil, conta ele. “Eu gostaria mesmo é de conhecer o Brasil. Sou fã de Ronaldo e de Ronaldinho. Nunca mais quero ir atrás de uma miragem.”

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