À beira-lago, a estranheza e o encanto do TSE

A primeira sede do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), localizada no centro de Brasília, a cerca de um quilômetro do Congresso, estava com instalações ultrapassadas do ponto de vista arquitetônico, e mesmo em face à ampliação da Justiça eleitoral. Esse foi o argumento do governo para promover a construção do novo prédio da corte eleitoral máxima – levado para um terreno com vista para o Lago Sul, bairro de classe A da capital, a obra foi inaugurada em dezembro de 2011, ao custo de R$ 327 milhões, com projeto de Oscar Niemeyer.

Longos corredores, plenário e dois auditórios no subsolo, prédio em parábola, a suntuosidade e as medidas gigantes da edificação intrigaram os profissionais de imprensa que cobrem a realização do primeiro turno das eleições 2012. Em contrapartida, encantaram os servidores do TSE – um encantamento meio “lunar” para quem lá chega pela primeira vez. Intrigam as três abóbadas brancas enterradas no chão e o horizonte vasto à frente, sem viva alma terráquea no térreo.

“É ótimo, não é? Nem precisamos de quadros...”, disse à reportagem uma servidora da Justiça eleitoral, para dizer como é “linda” a paisagem de seu escritório, cujo “quadro” é a paisagem do Lago Paranoá. Em dias úteis ou não, de lá se veem lanchas singrando as águas mansas do lago, enquanto o vai e vem ininterrupto dos carros escancara o contraste da cidade agitada. Resumo de Brasília, a ilha do cerrado.

Nelson Jr./STF
A exaltação da servidora foi feita no caminho entre o comitê de imprensa montado no terceiro andar e um dos auditórios do prédio, onde a ministra Carmen Lúcia concedeu um pronunciamento de cinco minutos, com duas ou três respostas curtas concedidas a repórteres em seguida. A câmara fica no primeiro subsolo, ligado à superfície e ao resto do mastodonte de cimento e aço por elevadores com tecnologia de ponta e escadas dentro das mais adequadas normas de segurança em edificações.

Depois da rápida conversa no elevador com a servidora, alguns passos em um corredor em curva – daqueles que impedem a visão do que vem à frente – e, finalmente, a reportagem chegou ao local da tal entrevista coletiva de Carmen Lúcia. O corredor leva a um amplo salão com tapetes, sofás e objetos de decoração que, com túneis adjacentes e mais elevadores, acomodam a estrutura das três abóbadas (plenário e dois auditórios) mergulhadas no subsolo – onde, aliás, o sinal de celular é difícil e o de internet, impossível.

Mas, justiça seja feita, o comitê de imprensa, além de amplo, é bem equipado – e que não se reclame do efeito estufa produzido pelo toque do sol nas cortinas de material sintético, verdadeiro desafio ao ar-condicionado do local. Mereceu até uma visita da presidenta Carmen, lá pelas 16h do domingo de primeiro turno, quando a ministra foi “abraçada” por câmeras e repórteres calorosos. São seis monitores de TV com várias polegadas, 38 computadores dotados de internet ágil e bancadas suficientemente espaçosas para acomodar o material dos profissionais da notícia. No décimo andar, uma lanchonete funcionando à meia força.

Ainda a cerca de um quilômetro, o Congresso Nacional de um lado, e de outro, mais ou menos à mesma distância, o Pier 21 – centro comercial à beira-lago onde restaurantes e lanchonetes se oferecem placidamente ao visitante. Para servidores do TSE e profissionais de imprensa envolvidos com a cobertura das eleições, trata-se de apenas uma bela vista pela janela.

Os próprios ministros do TSE já reclamaram do novo prédio, que adota o estilo americano no plenário (espécie de balcão em que os magistrados ficam de frente para a plateia, um do lado do outro). Mas há quem até aprecie as linhas de Niemeyer. O fato é que servidores seguem felizes ao local de trabalho, onde têm uma linda vista. Preferências arquitetônicas e paisagens oníricas à parte, o Brasil foi às urnas, democraticamente. E isso é o que importa. Lanchas passam para servidores, notícias voam para editores. Mas é o voto que muda a paisagem.

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