2015, uma sala de aula

Terminei 2014 agradecendo o fim daquele ano, que eu achava que tinha sido difícil, longo e provado que tudo era possível. Na minha última coluna decidi deixar todos os fatos desoladores de lado e apresentei uma história para provar que apesar de 2014, 2015 iria trazer outros dias.

Inocência minha (e de muita gente)! 2015 conseguiu ser tão indigesto, insuportável, interminável e difícil quanto 2014. Cheguei a me afastar um pouco das discussões políticas e até das minhas colunas aqui, devido à intensidade dos acontecimentos e à forma como eles mexem comigo. Todo o cenário em curso me esgota, me sufoca, me dói a alma e me deixa sem conseguir pensar. Escrever foi, durante este ano, quase impossível.

Não por menos. Não faltaram tragédias, lágrimas, polarização, brutalidade, preconceito, ignorância, ódio, desrespeito, retrocesso, violações aos direitos humanos. Ajuste Fiscal, Guerra na Síria, Refugiados, Atentado em Paris, Baltimore, Crise Econômica, Impeachment, Lava Jato, Panelaço, Tragédia de Mariana, Cunha, Ataques a Indígenas, Zika Vírus e Microcefalia, Redução da Maioridade Penal, Chacinas… 2015 foi realmente de sangrar a alma.

Anos assim, com tanta provação, cansam, porém, também nos ensinam. E se foi para (re)aprender a acreditar, os secundaristas paulistas nos deram uma verdadeira aula de cidadania. A garotada exigiu participação, chamou a comunidade para a luta e resistiu a brutalidade da PM. Eu visitei uma das principais ocupações, na Escola Fernão Dias, e fiquei impressionada com a coragem dos alunos frente a opressão e intimação da PM. Coragem, resistência, informação e vitória! Sem diálogo e participação nenhuma escola será fechada. Um tapa na cara de quem nunca acreditou nessa moçada. Mais do que uma vitória pontual e mais do que a revogação de um decreto, essas escolas, e a relação desses alunos com elas, nunca mais serão as mesmas. Um acalanto para a alma, enfim. Lutar ainda vale a pena.

E é o mesmo empoderamento e apropriação que os secundaristas tiveram com suas escolas que nós precisamos ter com a vida, com nossos direitos e com tudo que é nosso, que é público, que a vida nos deu. Ao lado dos estudantes, tantos outros movimentos, como a Primavera das Mulheres Brasileiras, 2015 nos ensinou que somos capazes sim de resistir, e que na verdade, precisamos resistir. Desistir, por mais cansado que podemos estar, está fora de cogitação. Ninguém está autorizado a se afastar da linha de frente, pois se assim fizermos nos levarão os direitos que nos restam. Na luta do povo, já dizia um amigo meu, ninguém se cansa. “E é perder o sono mesmo pra lutar pelo o que é seu”.

Não vou me iludir novamente como fiz em 2014, porque sinceramente acredito que 2016 pode (e vai) ser pior que 2015. Porém, dizem que a vida é o que nós fazemos dela, não é? 2016 ainda é uma página em branco, e precisamos resistir ainda mais para garantir que seja um ano, se não de avanços, pelo menos mais justo, respeitoso e tolerante.

Que a virada nos traga força e resistência. Que a gente se cale menos, respeite mais, ocupe mais, lute mais, sofra menos, resista mais, vença mais, aprenda mais, escute mais, ame mais, sorria mais, se some mais e comemore mais.

Pode vir, 2016!

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