O dia depois de amanhã

Cleber Lourenço *

Não falta quem alardeie aos quatro ventos de que o dia 7 de setembro será a tomada do país pelo bolsonarismo, não estão errados em sua totalidade, acontece que – parafraseando o brilhante jornalista Thomas Traumann – Bolsonaro já sequestrou o país, há semanas não só a imprensa, como também os poderes legislativo e judiciário estão orbitando as estultices ditas pelo presidente.

Com quase 15 milhões de desempregados e gasolina, óleo, arroz, carnes e eletricidade custando valores dignos de lojas de aeroporto, a principal pauta do momento é: se o presidente eleito irá apear a República municiado de um punhado de desvairados.

E eu não tiro a razão do presidente esbravejar e ameaçar os poderes sempre que é contrariado por algum destes, afinal de contas, ele chegou até o posto máximo da democracia brasileira falando todo tipo de impropério e supostos esquemas de peculato, sem qualquer impedimento.

Pregou fechamento do Congresso, elogiou criminosos, pregou o assassinato de pessoas e de um presidente eleito, saudou milicianos, cumprimentou neonazistas e todo tipo de absurdo sem qualquer intervenção.

Faz sentido que depois de tudo isso passar impunemente, ele não goste das restrições impostas e os reiterados pedidos para que mantenha um certo decoro.

Mas a verdade é que o nosso presidente é fraco, diferente da última quartelada que derrubou a democracia, não há um apoio consolidado do empresariado e mercado financeiro, até então, nas pesquisas eleitorais, perderia para praticamente todos os candidatos, é líder absoluto da rejeição entre os demais candidatos e goza de uma desaprovação unânime de seu governo.

Do lado da moral e dos bons costumes, os filhos, todos, com exceção da menina de dez anos de idade, todos estão enrolados na justiça ou possuem o patrimônio sob suspeita. É peculato, esposa de miliciano em gabinete, e os nomes intimamente relacionados com as milícias cariocas.

É realmente isso que os generais e outros agentes influentes da sociedade defendem e pelo qual, demoliriam a democracia? Acho que não.

No Congresso, outra lástima: desembolsou R$ 41,1 bilhões em emendas para congressistas, conquistando o posto de presidente que mais gastou com emendas, tudo isso para aprovar apenas 83 propostas.

Essa semana mesmo ele aprovou - a contragosto – o fim da Lei de Segurança Nacional em detrimento da nova Lei de Defesa da Democracia, isso tudo, mesmo com os generais do Alvorada recomendando que derrubasse a lei.

Ele sabia que o Congresso derrubaria facilmente os vetos e a última vez que tentou usar os militares como instrumento de dissuasão, sabemos o vexame que foi.

Mas os policiais militares, Cleber? Deixarei abaixo, a reprodução de um trecho do meu artigo da semana passada:

“Às vezes que a PM se amotinou, foram de maneira isolada e por questões da própria classe (aumento de salários, condições de trabalho e afins), e sim, existem bolsões bolsonaristas nas PMs de todo o país, isso não significa elas possuem força para alguma intentona. Mesmo no primeiro semestre de 2020, quando tivemos ameaças de sublevação da PM em vários estados, a crise não se intensificou”.

A agitação que temos para esse 7 de setembro não é muito diferente da agitação que vivemos nos últimos oito anos nas vésperas do 31 de março. Agitações que vivemos, inclusive, em março deste ano.

Já os nossos “valorosos” militares que possuem as línguas fortes e as mãos leves, está flagrante que o maior desejo é o de aumento dos rendimentos, uma boquinha. A generosa previdência dos militares, as promoções para que filhas de militares recebam pensões de marechais e os milhares de fardados em cargos públicos provam que melhor do que esvaziar o Congresso Nacional, é encher o bolso pessoal.

A nossa sorte é que Bolsonaro é incompetente demais para comandar qualquer sublevação.

Falta muito tempo até janeiro de 2023, até lá ficaremos nesse marasmo de um governo que não existe, um presidente que não trabalha e um golpe que jamais ocorrerá e será o eterno moinho de vento de alguns Dom Quixotes da política.

Prometo que nos próximos artigos falarei de algo mais produtivo, não de um presidente que notoriamente não gosta de trabalhar e vive de acintes e arruaças.

Infelizmente temos o pior presidente no pior momento da nossa história.

Se Bolsonaro decidir se exceder, será melhor para a democracia, pode ser que esse seja o estopim que faltava para que esse governo seja finalmente abreviado.

Caso contrário, o dia 8 de setembro será como o dia 8 de agosto e 8 de outubro.

* Cleber Lourenço é pós-graduando em Jornalismo político. 

O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para redacao@congressoemfoco.com.br.

Outros artigos do mesmo autor

Se você chegou até aqui, uma pergunta: qual o único veículo brasileiro voltado exclusivamente para cobertura do Parlamento? Isso mesmo, é o Congresso em Foco. Estamos há 17 anos em Brasília de olho no centro do poder. Nosso jornalismo é único, comprometido e independente. Porque o Congresso em Foco é sempre o primeiro a saber. Precisamos muito do seu apoio para continuarmos firmes nessa missão, entregando a você e a todos um jornalismo de qualidade, comprometido com a sociedade e gratuito.
Mantenha o Congresso em Foco na frente.
JUNTE-SE A NÓS

Continuar lendo