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O golpe chileno, um dos mais sanguinários dos anos de chumbo

Um dos eventos programados para hoje (11), quando se completam 45 anos de um dos golpes de Estado mais sanguinários dos anos de chumbo, é o ato marcado para as 19 horas, na sala dos estudantes da Faculdade de Direito da USP, no largo São Francisco (SP), com a participação de representantes de entidades de defesa dos direitos humanos e dos movimentos populares, militantes libertários, juristas, advogados e público em geral.

Na ocasião será lançado um abaixo-assinado reivindicando a saída de Mauricio Hernandez Norambuena, um dos líderes da luta armada contra a ditadura de Augusto Pinochet, do cativeiro em regime de segurança máxima que lhe é imposto há mais de 16 anos em prisões brasileiras, onde cumpre pena por sua participação no sequestro do publicitário Washington Olivetto. A imposição de rigor carcerário extremo por período tão longo fere nossas leis e toda a jurisprudência dos países civilizados, por representar uma destruição lenta do condenado.

O banho de sangue desfechado no dia 11 de setembro de 1973 vinha sendo preparado há quase três anos por uma direita inconformada com o êxito eleitoral obtido pela Unidad Popular em 4 de setembro de 1970.

Como a vitória não se deu por maioria absoluta de votos, os derrotados cogitaram inclusive articular uma inédita não confirmação do resultado das urnas por parte do Congresso, mas acabaram desistindo deste intento e optando por uma estratégia golpista de longo prazo.

Encabeçou-a o chefe do Exército nomeado pelo presidente Salvador Allende: com extrema desfaçatez, Augusto Pinochet Ugarte tramava o golpe militar na surdina, enquanto garantia ao governo que sua corporação permaneceria leal à Constituição, mantendo a ordem a qualquer preço.

A tomada de poder foi a mais dramática daquele período: o bravo Allende recusou a oferta de seguir incólume para o exterior e entrincheirou-se com sua guarda pessoal e os assessores mais leais no Palacio de la Moneda, que os golpistas atingiram com obuses e depois invadiram atirando. Allende morreu baleado.

Ao massacre na sede do poder seguiu-se outro episódio que será sempre lembrado como um dos mais repulsivos do ciclo militar: dezenas de milhares de presos políticos amontoados num estádio de futebol. E a execução pública do extraordinário Victor Jara, cantor e compositor em muito semelhante ao nosso Geraldo Vandré.

No ano seguinte, o Quilapayún prestou este pungente tributo a Allende.

Tentando humilhá-lo, os verdugos desafiaram-no a cantar para seus fãs naquele momento. Foi o que o altivo Jara fez, enquanto era espancado até a morte, tendo os companheiros prisioneiros como testemunhas impotentes de sua imolação.

Mais de 3 mil pessoas mortas, 28 mil torturadas, dissidentes assassinados até em terras estrangeiras: essa carnificina jamais será esquecida.

Emblematicamente, o grande poeta Pablo Neruda, Prêmio Nobel de literatura, morreu logo após o golpe, com suas enfermidades agravadas pelo imenso desgosto.

A Unidad Popular estava longe de realizar um governo radical. Tendo como principais forças os socialistas e os comunistas de linha soviética, fazia algo semelhante às reformas de base de João Goulart e nacionalizava uma ou outra empresa estrangeira espoliadora.

Disco de 1976 do filho de Violeta Parra, todo ele sobre o trauma do golpe e as desventuras dos (como ele) exilados.

Sua desestabilização foi uma clara reedição esquema golpista brasileiro, acrescida de um toque de mestre: o suborno aos caminhoneiros para que promovessem um interminável locaute, de forma que sempre estivessem faltando alguns itens nas prateleiras dos estabelecimentos comerciais. A consumista classe média chilena foi levada à loucura.

Trata-se da quartelada em que ficou mais evidente a instigação e o apoio financeiro dos EUA. Decididos a vencer a guerra fria com a URSS a qualquer preço, eles violavam cinicamente a soberania de nações livres.

Um cidadão estadunidense, pai de um hippie assassinado no Chile, acionou seu governo, acusando-o de cumplicidade na morte do filho. Durante esse processo vieram à baila muitos detalhes do envolvimento da CIA e dos assessores militares dos EUA no golpe. O episódio deu origem a um ótimo filme de Costa-Gravas: a melhor reconstituição cinematográfica do golpe chileno.

A era Pinochet findou quando os chilenos disseram não! à sua permanência no poder, em plebiscito realizado no mês de outubro de 1988. Nem o fato de haver conseguido a duras penas estabilizar a economia do país, colocando-a no rumo do crescimento sustentado, foi suficiente para que nuestros hermanos relevassem seus crimes contra a humanidade.

A pá de cal no prestígio de Pinochet foi a revelação, em 2004, de suas contas secretas no exterior. Até então, era tão cultuado pelas viúvas da ditadura de lá quanto seu congênere Brilhante Ustra pelos ultradireitistas daqui (caso do presidenciável fascistoide Jair Bolsonaro).

 

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