Mulheres no poder: por que é tão difícil elas chegarem lá

Cinthia Ribeiro (PSDB), prefeita de Palmas (TO), única mulher eleita em 2020 para comandar a prefeitura em uma capital
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A ideia em um segundo

As mulheres, maioria no eleitorado, permanecem amplamente sub-representadas, mostraram os resultados das eleições municipais. Nesta edição, analisamos por que isso acontece e como, cada vez mais, têm sido valorizados pelo mundo afora certos atributos vistos como característicos das lideranças femininas.

O filtro partidário: o lado da oferta

A distribuição das candidaturas revela 66,4% de candidatos e 33,6% de candidatas. Ou seja: a dimensão da oferta já cumpre um primeiro e violento papel de exclusão de gênero, 55 anos depois de instituída no país equivalência formal no direito de voto no Brasil (as mulheres obtiveram o direito de voto em 1932, mas era facultativo, só se igualando ao dos homens em 1965).

Mesmo com a obrigação legal de destinar às mulheres 30% das candidaturas e dos recursos do fundo eleitoral, instituída no primeiro caso em 1997 e no segundo em 2018, a equivalência de gênero está longe de ocorrer de fato no país.

Se os movimentos legais vão em uma direção e os fatos em outra, a explicação talvez resida nos movimentos institucionais.

Os partidos políticos brasileiros revelam perfil interno altamente antidemocrático, com diversos marcadores oligárquicos (sobre esse assunto, recomenda-se o artigo científico A oligarquia desvendada: organização e estrutura dos partidos políticos brasileiros (scielo.br)).

Os problemas passam pela concentração de poderes em comissões executivas reduzidas; pela eternização de presidentes nacionais, estaduais e municipais, verdadeiros “caciques” que de tudo fazem para conservar o controle partidário em suas mãos; pela manutenção de intrincadas redes de afiliações nativas nos órgãos deliberativos, diretivos e nas comissões executivas; e pelos critérios ambíguos e discricionários para o preenchimento de cargos partidários.

Em todos esses casos, as barreiras favorecem os homens e as antigas lideranças, em prejuízo das mulheres e da renovação política.

 

O viés decisório: o lado da demanda

Se os dados sobre oferta são ruins, os dados sobre demanda são dramáticos. Considerando as prefeitas e os prefeitos eleitos, percebe-se que os eleitos homens representam percentualmente quase duas vezes mais (1,8) do que o total de candidatos; ao passo que as mulheres eleitas representam, proporcionalmente, mais do que quatro vezes menos (4,3) do que as candidatas.

O ideal é deixar o título do gráfico abaixo em uma linha só; não consegui fazer isso

Quando olhamos para as câmaras municipais, o quadro é idêntico. Diante de um eleitorado de maioria feminina (52,5%), as vereadoras eleitas representam apenas 16% do total de eleitos. Os homens, que são 47,5% dos eleitores, são 84% dos eleitos.

Mulher trans, Duda Salabert (Psol) foi a vereadora mais votada em Belo Horizonte (MG)
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Leis, costumes e educação

A experiência de outras nações mostra que medidas legais são fundamentais para buscar a equidade de gênero. Um exemplo é o Reino Unido, onde as mulheres ocupam hoje 34% dos assentos do principal órgão do Parlamento (a Câmara dos Comuns). Ali, a conquista do voto feminino também foi uma lenta e difícil batalha, iniciada em 1866 pelo filósofo e economista político John Stuart Mill.

No Brasil, as mulheres aumentaram na atual legislatura de 10 para 15% sua presença na Câmara dos Deputados. Mesmo assim, segundo os dados mais recentes da ONU Mulheres, o país aparece na 133ª posição em termos de participação feminina no Legislativo.

Por que isso ocorre e por que é relativamente baixo o efeito das cotas de candidaturas e de recursos do fundo eleitoral?

A resposta está na educação e na cultura. Somos uma sociedade fundada na desigualdade de gênero. Na família, na escola e no trabalho, na vida pública e privada, com raras exceções, ainda reproduzimos um mundo em que os homens têm mais direitos do que as mulheres. Por mais estranho que pareça, muitos homens continuam a não enxergar nas mulheres os atributos necessários para exercer a liderança.

Mesmo mulheres poderosas, têm mostrado inúmeros estudos, são menos ouvidas; são mais interrompidas quando falam; são tratadas com maior ironia (quando não de forma nitidamente discriminatória); têm suas propostas mais frequentemente rejeitadas ou ignoradas; e ficam mais sujeitas a abusos sexuais, como ocorreu recentemente com uma deputada estadual dentro da Assembleia Legislativa de São Paulo.

A presença feminina tem avançado mais rapidamente no ambiente empresarial do que na política. Cada vez mais mulheres assumem posições de comando em grandes empresas. No Brasil, várias delas constituíram o Women On Board (WOB), uma organização criada para desenvolver a cultura da equidade no ambiente corporativo.

A literatura na área de Administração reúne considerável evidência de que essa tendência, mais do que uma estratégia de marketing ou (como costumam dizer os críticos) uma concessão ao “politicamente correto”, se impõe pela racionalidade.

Suéllem Rosim (Patriota), prefeita eleita pela cidade de Bauru-SP
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Mulheres e capacidade de gestão

Estudos com funcionários, fornecedores, gestores de empresas concorrentes e executivos em geral indicam uma impressionante vantagem para as mulheres quando se comparam os atributos de lideranças sob a ótica de gênero. Regra geral, as mulheres se comunicam melhor; são mais propensas a admitir erros; ouvem mais; são mais hábeis para motivar equipes; mostram-se mais gentis no trato com as pessoas; são mais ousadas; têm mais facilidade para enfrentar adversidades e se adaptar a situações novas; e ganham pontos por liderar pelo exemplo.

Apesar de todas essas vantagens, mesmo nos países mais avançados, a lei é usada para estimular a mudança dos costumes. Neste mês, a bolsa Nasdaq – que reúne as principais empresas de tecnologia – submeteu ao órgão regulador norte-americano (a SEC) pedido para que todas as 3.249 companhias que nela operam sejam obrigadas a cumprir uma cláusula de diversidade. A ideia é exigir que elas tenham em seu board (conselho de administração) pelo menos uma mulher ou um/a representante de minorias étnico-raciais ou da população LGBT.

Na Alemanha de Angela Merkel, os partidos da coalizão governista já concordaram em tornar obrigatória a presença de pelo menos uma mulher em todos os conselhos deliberativos de empresas listadas no mercado de ações.

A pandemia tem ajudado a desfazer mitos. Países governados por mulheres – como Nova Zelândia, Taiwan, Noruega e a própria Alemanha – se destacaram pelo êxito na gestão da crise sanitária.

O que as identifica?

Tudo o que tem nos faltado no Brasil de Bolsonaro e Pazuello: reação precoce (isolamento social amplo e muitos testes); escolhas ditadas pela ciência e pela racionalidade (ações coordenadas nacionalmente, plano de imunização, gestão técnica etc.); coragem para tomar decisões difíceis e impopulares (lockdown em fez propagar medicamentos supostamente milagrosos e outras fantasias); e sensibilidade suficiente para não se curvar às pressões empresariais mais infames.

Porque é nesse último ponto que, no entendimento dos autores do Farol Político, reside a grande fragilidade de muitos governantes. Pressionados por quem está mais preocupado em garantir lucros ilusórios do que em promover a saúde, eles se acovardam. Renunciam ao dever de proteger a sociedade a pretexto de “manter a economia de pé”. No mais das vezes, erram duas vezes. Permitem que pessoas se infectem e morram. E deixam de atentar – até mesmo – para os efeitos econômicos danosos da perda de vidas humanas, sobretudo em um horizonte de longo prazo.

Não são as mulheres as únicas, nem as maiores, vítimas dos preconceitos e da discriminação que as alijam de postos-chave na política e na sociedade. Todos nós, homens e mulheres, saímos perdendo.

Geladeira

Rodrigo Maia foi a mais ativa autoridade da República entre os decisivos meses de março a maio de 2020. Ante um presidente omisso em relação à pandemia, e que àquela altura tentava obter apoio para dar um golpe de Estado, foi ele quem coordenou as ações legislativas que resultaram na criação de uma rede de proteção econômica e social contra os efeitos da covid-19. Vive agora os últimos dias no cargo bastante diminuído em estatura. Não bastassem a timidez com que reagiu aos ataques de Bolsonaro contra o Congresso e sua recusa em discutir claramente as dezenas de pedidos de impeachment apresentados contra o presidente, tentou colar a sorte em uma manobra oportunista, que lhe permitiria disputar novo mandato contrariando norma expressa da Constituição. Em menos de dez meses, Maia mostrou como um mesmo político pode ser em sua trajetória pública grande, médio e pequeno. Em rota descendente, claro.

Chapa quente

O MDB, eterna Fênix da política brasileira, poderá voltar a viver dias de glória em Brasília a partir do ano que vem. Com a impossibilidade de Davi Alcolumbre disputar a reeleição, o partido é o franco favorito para eleger o novo presidente do Senado. A bancada tem ao menos quatro pré-candidaturas, mas duas são vistas como mais fortes: as de Simone Tebet (MS) e de Eduardo Braga (AM). Na Câmara, o favoritismo é de Arthur Lira (PP-AL), o preferido do Planalto. Mas, embora haja ainda muitos obstáculos a enfrentar até a eleição marcada para 1º de fevereiro, há alguma chance de o MDB voltar a presidir a Câmara. O nome disponível para a tarefa é o do deputado paulista Baleia Rossi, presidente nacional do partido. Para vencer, ele precisa ser abençoado pelo atual presidente da Câmara e, sobretudo, superar as resistências dos parlamentares de oposição, que desconfiam de sua forte ligação com o ex-presidente Temer.

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O Farol Político é produzido pelos cientistas políticos e economistas André Sathler e Ricardo de João Braga e pelo jornalista Sylvio Costa. Nesta edição, contamos com a colaboração de João Frey e Lucas Vinícius (análise de dados) e Vinícius Souza (design).
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