A arapuca de Bolsonaro

A ideia em um segundo

Jair Bolsonaro contava que seu apoio no eleitorado seria sempre a “maior minoria”, o que lhe faria competitivo nas eleições de 2022. Uma eventual reeleição do presidente dependerá da polarização com um adversário com maior rejeição que a dele. O recrudescimento da pandemia, contudo, parece estar criando uma “maioria” que se coloca contra a forma como Bolsonaro conduz o país. Mais grave para o presidente foi a entrada de Lula na competição, tanto com bom índice de apoio quanto com rejeição bastante menor que a esperada. Como eles sairão desse labirinto?

 

Ilusão de ótica, em gravura xilográfica, marca registrada do artista holandês Maurits Cornelis Escher

Bolsonaro segue com cerca de um terço de aprovação ao seu governo de acordo com os índices de ótimo e bom em várias pesquisas de opinião. Este número surpreende. Aqui no Farol, por várias vezes, esperávamos sua queda, tanto diante da crise econômica quanto do recrudescimento da pandemia e seus efeitos, principalmente o número de mortes. Contudo, ele segue firme, ainda.

O presidente talvez tenha compreendido de forma pioneira a consolidação de um bloco de opinião pública inédito na história brasileira. De maneira geral, os eleitores brasileiros sempre costumaram ser mais pragmáticos em suas posições, considerando condições de vida e desempenho do incumbente no governo. Bolsonaro, contudo, energizou e se aproveitou de um grupo que compra o discurso anti-elite, está insatisfeito com a sociedade em que vive em termos econômicos e de valores, teme as mudanças no rumo da modernidade globalizada, multiétnica e multiidentidade, e, sobretudo, mantém-se fiel a esse ideário. Por um lado, este grupo se alimenta da despolitização atávica de nossa sociedade. Por outro, contudo, inova ao se posicionar de forma confortável na extrema direita

Bolsonaro aposta na fidelidade de seu eleitorado para tentar renovar o mandato em 2022
José Dias/PR
O presidente desde sempre governa para esse grupo fiel, confiante de que sua solidez o tornaria competitivo na eleição de 2022. A lógica do modelo é que este um terço garantiria Bolsonaro no segundo turno, e a vitória final viria da concorrência com candidato de rejeição maior que a sua. 

A necessidade da rejeição ao adversário do segundo turno decorre do enquadramento político de Bolsonaro. Ele não faz a tradicional evolução ideológica da extrema para o centro, como Lula, por exemplo, fez em 2002, mas sim aferra-se à sua posição de extrema direita. Para ser competitivo num segundo turno, o centro precisa estar vazio, pois ele não tem como movimentar-se nessa direção. 

Dilema bolsonarista

 

Projeção no Minhocão em São Paulo contra Bolsonaro
Mídia Ninja
A estratégia de Bolsonaro assentou-se num forte discurso ideológico. É em cima de valores ideológicos que ele se comunica rotineiramente com seus apoiadores. Raramente ele abriu canal de comunicação com o eleitorado a partir de realizações de governo. O ganho popular em cima do auxílio emergencial foi uma dessas situações excepcionais. 

Mas a construção da estratégia assentada sobretudo em ideologia traz problemas para o presidente.

Em primeiro lugar, ele não pode abandonar o discurso radical sob pena de perder o apoio dos famosos 30%. A pandemia tem criado, de forma lenta, posicionamento mais geral da sociedade em favor de iniciativas responsáveis, seguimento da ciência e apoio à vacina. Quando Bolsonaro ensaiou apoiar a vacina a grita de seus seguidores foi grande e o movimento do presidente refluiu. 

Seu dilema se coloca da seguinte forma: mudar de discurso sobre a pandemia o enfraquece diante de seu grupo fiel ao mesmo tempo em que o coloca na última posição da fila dos apoiadores da ciência, da responsabilidade e da vacina. Contudo, se a maioria se formar do outro lado, ele pode ser derrotado.

Assim, o primeiro grande problema de Bolsonaro é que uma dimensão central da discussão pública no Brasil o está colocando do lado minoritário. Discutir a pandemia coloca Bolsonaro ao lado dos 30%, e todo o restante da sociedade de outro.

A surpresa de Lula

Lula fez barulho em seu primeiro discurso após anulação de condenações
Ricardo Stuckert
O segundo problema para Bolsonaro veio com a baixa rejeição de Lula pelo eleitorado. Provavelmente o presidente contava que o petista poderia voltar ao certame, mas certamente o potencial de votos do ex-presidente deve ter assustado. 

Pesquisa divulgada pelo jornal O Estado de S. Paulo em 6 de março mostrou que o potencial de votos de Lula é de 50% ─ quem votaria com certeza no candidato ou poderia votar. A rejeição do petista é de 44%, a menor entre os dez nomes pesquisados. O potencial de votos de Bolsonaro é de 38%, e sua rejeição, de 56%. Ambos os candidatos empatam em desconhecimento pelo eleitor, 6%.

Lula, além de contar com o recall de seu governo em vários setores da sociedade, aproveita-se sobretudo de sua posição de desafiante. Lula tem feito movimentos a favor do combate racional e solidário da pandemia e pelo emprego, renda e crescimento econômico. É da natureza que uma campanha amarre o incumbente ao seu desempenho efetivo, enquanto aos desafiantes abre-se o espaço da promessa, da crítica, do sonho – em forma sintética, da vantagem de não ter de enfrentar dificuldades e erros advindos da ação real. 

Assim, Lula, além de sair na frente nas pesquisas eleitorais, conta com a vantagem estratégica ─ tanto mais em tempos de crise ─ de estar ao lado do combate à pandemia e postar-se no espaço privilegiado das promessas e do sonho. 

O relógio está correndo

Brasil acumula mais de 14 milhões de desempregados em idade produtiva
EBC
Bolsonaro depara-se com os dois grandes problemas da pandemia e da crise econômica e ainda seu desaguar precoce no calendário eleitoral.

O presidente só avança para além dos seus 30% se a pandemia e a economia melhorarem. Espera-se que a evolução da vacinação, mesmo na lenta velocidade imprimida até o momento, vá melhorar a situação – embora muito já se fale de uma piora catastrófica nas próximas semanas. A economia, por sua vez, também apresenta uma dinâmica própria de incentivos e ações que demora a trazer resultados.

A dinâmica da pandemia e da economia pode ainda dar alguma esperança a Bolsonaro, pois tudo deve estar melhor em 2022. Contudo, como a campanha eleitoral já ganhou a cabeça de políticos e se esparrama pela mídia, apoios de partidos e lideranças entraram em ebulição precoce. Nas possíveis negociações, Bolsonaro tem a vantagem de deter a caneta e distribuir benesses imediatamente, mas o horizonte futuro é mais favorável a Lula. Isso sem contar a aposta estratégica de alguns – hoje fraca, mas que pode voltar a se fortalecer – numa terceira via competitiva entre Bolsonaro e Lula.

Bolsonaro está hoje onde sua estratégia o levou: radicalizou o discurso antielite, contra mudanças sociais rumo à modernidade e, por consequência, contra a ciência. A pandemia deixou claro como suas opções são perniciosas e o resultado ruim aflorou. A volta de Lula foi como a segunda frente de impacto em Bolsonaro, consolidada pelo nível de rejeição ao petista menor do que ao presidente.

A tempestade está formada para Bolsonaro, que olha 2022. Contudo, um recrudescimento fora de controle da pandemia pode destruí-lo ainda em 2021, pois impeachment e CPIs entram e saem do cenário político... 

Termômetro

Geladeira

O ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, chega ao fim da semana com a cabeça a prêmio. Sua demissão foi pedida, explícita ou implicitamente, pelos presidentes da Câmara e do Senado, por governadores, pela oposição e até por governistas, que exigem mudanças na política externa do país. A percepção dos críticos do chanceler é que muitas das dificuldades que o Brasil encontra hoje para importar vacinas e insumos de imunizantes decorrem de sua postura pouco amistosa com nações como a China. Em audiência no Senado, na quarta-feira, ouviu vários apelos para deixar a pasta. "Pega o beco", sugeriu o senador Jean Paul Prates (PT-RN).

Chapa quente

Cresce no Congresso as articulações em torno de um novo Refis para dívidas tributárias e não tributárias. O movimento é encabeçado pelo presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, que tenta aprovar um projeto de sua autoria que prevê parcelamento de débitos em até 175 vezes e condições favoráveis para o pagamento de multas e juros. O Ministério da Economia ainda resiste à ideia. Paulo Guedes aceita o refinanciamento apenas para as dívidas tributárias de 2020 e restrito aos setores impactados pela pandemia. As negociações com o ministro são conduzidas pelo líder do governo no Senado, Fernando Bezerra (MDB-PE), relator da proposta.
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