Requião toma gravador de repórter em plenário

Fábio Góis

O senador Roberto Requião (PMDB-PR) tomou à força há pouco, no Plenário do Senado, o gravador digital de um repórter da Rádio Bandeirantes por causa de uma pergunta. O ex-governador do Paraná falava sobre medidas antiinflacionárias quando o repórter quis saber se, caso o governo do estado implementasse uma política de contenção de gastos, ele abrira mão de sua aposentadoria vitalícia (R$ 24.117,62). Irritado, Requião, que é conhecido por seu temperamento irritadiço, tirou com um safanão o instrumento de trabalho da mão do jornalista.

Adversário de Requião, o atual governador paranaense, Beto Richa (PSDB), determinou no final de março a suspensão do pagamento vitalício de todos os ex-governadores desde 1988. Mas Requião conseguiu reverter a decisão junto ao Tribunal de Justiça do Paraná, que revogou em 13 de abril o entendimento da Procuradoria Geral do Estado. Assim, o senador voltou a receber o benefício, em caráter liminar.

?Eu estava louco para dar uma porrada em um garoto?, disse em seguida Requião, visivelmente alterado. Diante da estupefação dos demais repórteres que presenciaram o episódio, o senador se negou a devolver o gravador.

O Congresso em Foco acompanhou o repórter até o gabinete de Requião, que se negou a receber a imprensa e, segundo sua assessoria, havia deixado o Senado. Ao devolver o gravador, uma assessora solicitou que o repórter confirmasse uma espécie de ato de recebimento informal, mas ele se recusou a registrar sua assinatura. ?Não vou assinar nada. Só vim buscar o que é meu, e que me foi tirado?, disse o profissional da imprensa, que preferiu não se identificar.

Em seguida, o repórter constatou que o cartão de memória do gravador, em que estão registradas diversas entrevistas, havia sumido. A princípio, os assessores de Requião disseram que o parlamentar devolveu o gravador da mesma forma com que o havia subtraído. Mas, ao telefone com o diretor da Secretária de Comunicação do Senado, Fernando Mesquita, Requião disse que não devolveria o cartão, e ainda mandou um recado à imprensa. ?Podem fazer o que quiser?, disse o ex-governador.

?Depois que ele se acalmar, vou tentar pegar [o cartão] de volta?, resignou-se Fernando, acrescentando que Requião viu como ?provocação? a pergunta do jornalista. Do ponto de vista institucional, concluiu a secretaria, nada mais poderia ser feito. Diante da impotência do Senado, o repórter disse que registraria queixa na polícia comum. O tipo penal para esse caso é apropriação indébita de bem particular.

Sem correção

Nervoso, e em contato constante com a redação de seu veículo, o repórter foi orientado a deixar o gabinete com o gravador. Ele foi então à Secretaria de Comunicação saber como deveria proceder, já que a Polícia Legislativa do Senado informou que não poderia formalizar denúncia contra os senadores. A explicação da polícia é que, segundo a resolução 17/93 (dispõe sobre as atribuições da Corregedoria do Senado), o caso deveria ser encaminhado à corregedoria, como era feito na gestão do ex-corregedor Romeu Tuma. A corregedoria está desativada desde a morte de Tuma, em outubro de 2010.

?É atribuição da corregedoria apurar ocorrência de delito envolvendo parlamentar. Como ainda não temos nova norma, nos orientamos pela norma anterior?, disse ao Congresso em Foco um policial que foi procurado pelo jornalista.


Correligionário de Requião, o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), deixou de responder se o episódio não implicaria necessidade de indicação de um novo corregedor. ?O senador Requião é um cavalheiro. Deve ter ocorrido um mal-entendido, com certeza houve um equívoco?, defendeu Sarney.

Como se não bastasse o furto do cartão de memória, Requião ainda zombou da situação. ?Acabei de ficar com o gravador de um provocador engraçadinho. Numa boa, vou deletá-lo?, disse Requião por meio de seu microblog no Twitter. ?O jornalista agressor está conseguindo o sucesso que pretendeu. E a ?catigoria? está alvoroçada.? Temendo pela integridade física, o repórter roubado disse que o termo ?deletá-lo? é dúbio.

Assim que soube do ocorrido, o presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Distrito Federal, Lincoln Macário, compareceu ao Senado para as devidas providências: ?A arbitrariedade não é prerrogativa de nenhuma autoridade. Que a censura volte para o tempo sombrio ao qual ela pertence?, disse Lincoln, reforçando o conteúdo de nota por meio da qual o sindicato repudia a atitude de Requião.

Sem capacete

Recentemente, o senador Requião deu uma declaração que, se não beira o destempero, configura racismo. Em uma entrevista coletiva na qual o senador Pedro Simon (PMDB-PR) lançou extra-oficialmente a candidatura alternativa de Requião à Presidência da República, em junho de 2010 (leia), Requião se dirigiu a uma produtora negra e perguntou-lhe:

?Penteado 'veio de moto'??, disse Requião, no gabinete de Simon, para constrangimento de todos os que aguardavam o início da entrevista. Ele fazia referência ao corte de cabelo estilo afro da produtora que, com espírito esportivo, respondeu que foi ao Senado de moto ?e sem capacete?.

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