“O DEM se distanciou do povo”, diz Irajá Abreu

Renata Camargo e Edson Sardinha


Kátia Abreu, quem diria, acabou no Irajá. Em 1973, Fernando Mello escreveu uma peça cujo título era Greta Garbo, quem diria, acabou no Irajá. Trata-se da história de um viciado que sonha ser Greta Garbo. O título virou uma espécie de sinônimo para o inusitado: a elegante atriz sueca num subúrbio do Rio de Janeiro. Presidente da Confederação Nacional da Agricultura, a senadora Kátia Abreu foi uma das mais agressivas opositoras do governo Lula. Chegou mesmo a ser cotada em determinado momento como candidata à Presidência da República se o DEM viesse a ter candidato próprio. Agora, Kátia Abreu resolve seguir para o PSD, o partido criado pelo prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab. Com ela, vai seu jovem filho de 28 anos, o deputado Irajá Abreu (DEM-TO), uma das novas lideranças da bancada ruralista. Nesta entrevista ao Congresso em Foco, Irajá faz alguns rasgados elogios ao governo Lula, nas ações sociais que empreendeu, especialmente no combate à fome, com o Bolsa Família. E diz que o grave erro do DEM foi não ter compreendido esses avanços, distanciando-se do povo. Esse erro, cometido pela direção do deputado Rodrigo Maia (DEM-RJ), custou caro ao partido. Daí a decisão de Irajá e Kátia Abreu de deixarem o DEM. Para Irajá, Rodrigo Maia não soube conduzir o partido com a maturidade e a experiência necessárias para prosperar.


Em uma primeira conversa com o Congresso em Foco, no dia 22 de março, Irajá ainda se dizia disposto a dar um voto de confiança ao novo presidente do DEM, senador José Agripino Maia (DEM-RN). Menos de um mês depois, porém, ele e sua mãe, a senadora Kátia Abreu (DEM-TO) decidiram fazer as malas e rumar para o PSD. Kátia Abreu é cotada, inclusive, para ser a presidenta do novo partido.


O que mudou? Irajá responde que, ?infelizmente, o rumo que tomou o DEM não atendeu àquilo que seja prudente e correto para um futuro partido?.


?Nós estávamos apostando numa mudança com a nova executiva. Mas, infelizmente, o rumo que tomou o partido não atendeu aquilo que a gente acredita. O DEM não mudou o posicionamento do partido, de ser um partido de direita radical, um partido que vai se posicionar sempre contrário às propostas que forem apresentadas pelo governo, seja por bem, seja por mal. E, por razão dessa insatisfação, não é nada pessoal, a gente tomou essa decisão de mudar de partido?, disse ao site nesta semana.


Irajá ? que exerce seu primeiro mandato político, mas que é filiado ao DEM desde os 19 anos ? avalia que a oposição não soube observar os avanços que o governo do PT teve. Irajá afirma que, desde 2002, quando o eleitor brasileiro deu uma resposta nas urnas de que um partido de esquerda deveria comandar o país, os partidos mais conservadores perderam o rumo.


?A oposição não soube conduzir esses avanços que a base teve, e isso fatalmente fez com que os partidos de oposição ficassem enfraquecidos, parecendo que estavam brigando, ou atrapalhando, ou fiscalizando aquilo que era bom. Faltou habilidade em poder saber trabalhar junto com isso, não contra isso. Aí, a sociedade, é óbvio, vai se manifestar contrária. A prova disso foram os resultados das eleições?, avalia.


Formado em publicidade e propaganda e pós-graduado em gestão empresarial, Irajá Abreu é empresário do ramo da pecuária e da silvicultura, além de dono de uma empresa na área de comunicação em seu estado. Iniciante na vida parlamentar, Irajá diz pretender caminhar com as próprias pernas, apesar de ter como forte referência o trabalho de sua mãe, atualmente presidente da Confederação Nacional da Agricultura (CNA) e uma das parlamentares mais atuantes da bancada ruralista.


Na entrevista a seguir, além de traçar análises e críticas sobre o DEM e o papel da oposição no Congresso, Irajá Abreu fala também sobre suas principais bandeiras na Câmara, revela sua opinião sobre temas delicados no Congresso, como a PEC do Trabalho Escravo e o relatório do novo Código Florestal, do deputado Aldo Rebelo (PCdoB-SP), e conta como é sua relação com a mãe senadora.


?Nossa família nunca teve um político até a minha mãe. Ela conquistou um cargo sem qualquer tipo de apadrinhamento, ou incentivo familiar, e conquistou o espaço dela. Ela é a prova viva de que você pode descobrir uma vocação na política e levar esse projeto adiante. Agora, é normal como é na medicina, no direito, que o pai e a mãe projetem para seus filhos a sua profissão. Encaro isso com tranquilidade?, conclui.


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Leia a seguir a entrevista com Irajá Abreu (DEM-TO):


Congresso em Foco - Numa primeira conversa com o Congresso em Foco há três semanas, o senhor falava em dar nova chance ao DEM. Hoje o senhor se prepara para se filiar ao novo partido do prefeito Gilberto Kassab, o PSD. O que mudou?
Irajá Abreu -
Nós estávamos apostando numa mudança com a nova executiva, com o senador Agripino. Mas, infelizmente, o rumo que tomou o partido não atendeu àquilo que a gente acredita como sendo prudente e correto para um futuro partido. E, por razão dessa insatisfação, não é nada pessoal, a gente tomou essa decisão de mudar de partido. Vamos mudar para o PSD, que tem uma nova perspectiva, é um partido de centro, um partido independente, que vai votar favorável nas matérias que nós julgarmos serem para o bem do país, como redução de imposto, é um exemplo. E naquelas matérias que o governo possa colocar que firam, por exemplo, o direito de propriedade, nós vamos votar contra. Então, vamos ter essa liberdade para trabalhar. E também vamos tentar viabilizar que seja um partido que represente uma camada da sociedade, que está dispersa hoje, sem representatividade, que está engessada pela burocracia e pelo Estado ineficiente, que é a classe média, que corresponde quase à metade da população do país. Esse vai ser nosso foco, para ter a aproximação com a população.


O senhor fala que o rumo que tomou o partido não atendeu àquilo que se esperava. O que não mudou no DEM?
Não mudou o posicionamento do partido, de ser um partido de direita radical. Um partido que vai se posicionar sempre contrário às propostas que forem apresentadas pelo governo, seja por bem, seja por mal. Foi um grave erro que o partido cometeu. O partido se distanciou da sociedade, e isso nos custou caro. Prova disso foi o resultado das eleições no ano passado, onde o partido diminuiu aqui no Congresso Nacional. E eu não tenho dúvidas que isso tem relação direta.


Em que momento o senhor acha que o DEM se distanciou do povo?
Acho que desde 2002, quando houve a eleição presidencial que fez com que um partido de esquerda, o PT, tivesse oportunidade de comandar o país, nós nos colocamos na condição de oposição. Foi essa resposta que a sociedade nos deu, através das urnas. E nós aceitamos, absorvemos essa decisão da sociedade, e fizemos cumprir nossa missão dali em diante, que seria a de ser oposição. No entanto, após esse episódio da eleição presidencial de 2002, o partido achou por bem que deveria haver uma renovação na sua direção, no seu comando. Quando o senador Jorge Bornhausen deu a oportunidade para que os novos deputados, as novas lideranças dentro do partido pudessem ter chance de crescer e também demonstrar o seu trabalho. E eu acho que foi exatamente aí que o DEM, infelizmente, tomou um caminho que culminou nessa situação que hoje se encontra. Porque a direção comandada pelo meu colega deputado Rodrigo Maia não soube conduzir com a maturidade e a experiência necessárias o partido para que pudesse prosperar e não retrair, como aconteceu. Então, acho que faltou não boa vontade ou interesse de querer ver o partido crescer, mas faltou realmente habilidade e maturidade num momento tão crucial que o partido passou, quando se transformou num partido de oposição. Acho que o erro, a princípio, foi esse, foi na raiz.


Que exemplos o senhor pode dar da falta de habilidade do deputado Rodrigo Maia? Quando o senhor acha que faltou maturidade?
Logo quando ele começou a desenvolver o trabalho à frente da Presidência, ele atacou a bandeira social, quer seja pelo Bolsa Família, quer seja por outros programas de assistencialismo.


E não devia atacar?
Nenhuma sociedade pode prosperar se existem pessoas nela que passam fome. E o governo Lula atacou muito o primeiro ponto, que é o da fome. O preço do alimentou baixou. Para você ter uma ideia, em 1970, para quem recebia um salário mínimo, o custo da alimentação de uma família comprometia 48% da renda dele. E hoje está em 17%. O governo federal soube atacar esse problema com sabedoria. E melhorando ainda a vida das pessoas com programas como o Minha Casa, Minha Vida. Melhorando o índice ? não que nós cheguemos aos índices ideias ? mas a educação prosperou. E a saúde, não melhorou muito, mas também não agravou em relação ao que existia antes. Então a oposição não soube conduzir esses avanços que a base teve, e isso fatalmente fez com que os partidos de oposição ficassem enfraquecidos, parecendo que estavam brigando, ou atrapalhando, ou fiscalizando aquilo que era bom, o que o governo federal emplacou. Faltou habilidade em poder saber trabalhar junto com isso, não contra isso. Aí a sociedade, é óbvio, que vai se manifestar contrária. A prova disso foram os resultados das eleições.


Mas não é esse o papel da oposição? Se opor aos programas do governo do qual é contrário?
Na verdade, a oposição no Poder Legislativo tem o papel de representar, legislar e fiscalizar. Mas deve fazer isso de forma propositiva. Não ser pura e simplesmente de oposição para ser o do contra sempre, para atacar e criticar o que quer que seja. Aquilo que está sendo bom, a gente tem que apoiar, aquilo está ruim, tem que fiscalizar e cobrar. Eu acho que faltou essa habilidade.


Como surgiu a ideia de o senhor disputar a vaga de deputado federal?
Foi um fato interessante. Na verdade, estou filiado ao DEM (antigo PFL) desde os 19 anos. De lá para cá, venho acompanhando o trabalho que minha mãe vem desenvolvendo, como deputada federal inicialmente e depois como senadora. E vendo o trabalho, a atuação e a linha das bandeiras que ela vem defendendo, eu tive o interesse de também fazer algo pelo setor de que eu participo e pelo meu estado. Na última eleição, surgiu a oportunidade e eu aceitei esse desafio. E tive a felicidade de poder ser eleito, ter tido uma votação expressiva.


A indicação do senhor foi mais em cima da hora, não? Pegou de surpresa, inclusive, aliados...
A decisão na verdade de sair candidato foi uma decisão rápida. Geralmente, quando se pretende ser candidato, começa-se a desenvolver um trabalho de pré-campanha seis meses antes, pelo menos. A decisão foi na convenção praticamente, então isso pode ter surpreendido algumas pessoas. Mas era uma coisa que eu já vinha pensando, mas claro que não tinha tomado ainda a decisão. Mas o contexto mudou e aí aceitei essa ideia e a proposta para sair candidato.


Qual era o contexto exatamente que mudou?
O contexto era o panorama político. Quando se vai para uma disputa, seja eleitoral, seja no mercado privado, você analisa a concorrência, quem serão os candidatos, quem tem condições e chances.


O fato de sua mãe ser senadora foi fundamental para o senhor ter sucesso já nesta primeira eleição?
Contribuiu muito, claro. Todo o trabalho que ela já desenvolveu no Tocantins, o respeito que o povo tocantinense tem pela senadora Kátia Abreu, pelo trabalho na CNA. Não há dúvida que há uma associação pelo fato de ser mãe e filho. É como em outras profissões, como um advogado bem sucedido. Mas é claro que cada um tem a sua vida própria. É uma responsabilidade grande ser comparado com ela.


Como o senhor pretende caminhar agora com as próprias pernas e não ficar sempre associado com a senadora Kátia Abreu?
Como eu disse, quando você tem uma referência boa, ela é sempre desafiadora. Cabe a mim agora mostrar a minha própria estrela, competência e a minha capacidade como deputado federal. Por isso que eu elegi prioridades e bandeiras para defender aqui no Congresso Nacional. E vai ser através desse desempenho que eu vou mostrar a minha capacidade como parlamentar. Eu pretendo ser atuante. Quero deixar claro que o fato de ser associado a minha mãe, que é uma pessoa que vem realizando um bom trabalho, é motivo para me dar mais disposição para o trabalho.


O senhor falou que elegeu prioridades e bandeiras para defender no Congresso. Quais são?
Pela relação que a gente tem até pessoal, as raízes, eu tenho afinidade com o setor rural. Nasci mexendo com isso, então é natural que a gente possa contribuir com o que a gente tem mais afinidade. Eu elenquei como uma das prioridades o setor rural. Sempre atento ao crédito rural, assistência técnica e problemas que o campo tem, que são diversos. A linha de crédito é para aumentar a produção, e isso vai contemplar principalmente o problema que estamos enfrentando hoje, que é a inflação. Um dos principais ?culpados? pelo aumento da inflação é a comida. E isso é diretamente relacionado ao mercado, lei de oferta e procura. Então para ter mais oferta, você tem que incentivar, oferecer créditos, com juros e prazos compatíveis e tudo mais. Assistência técnica é uma bandeira porque está diretamente relacionada à capacidade de êxito do negócio. Se você não tiver tecnologia, gestão, então qualquer negócio está fadado ao fracasso. A outra bandeira é geração de emprego e renda. Com a pouca experiência que eu tenho com a atividade comercial, a gente sabe o quanto é importante gerar emprego. É o que dá dignidade às pessoas. Ninguém quer ficar recebendo eternamente o ?bolsa miséria?. As pessoas querem produzir, crescer com as próprias pernas.  É preciso qualificar a mão de obra. E, em especial, curso profissionalizante. Num curto prazo, não adianta pensar que investir no ensino fundamental, médio e superior vai dar conta do problema. Outro aspecto, embora polêmico, é o imposto. Ninguém dá conta. A gente quer defender a redução de imposto. Se a gente vacilar, o governo está falando em criar novo imposto. O que a gente quer é diminuir essa carga tributária.


O senhor é titular da Comissão de Meio Ambiente da Câmara. De que forma o senhor pretende atuar nesse tema?
A parte do meio ambiente veio de encontro a uma questão atual, que é a discussão sobre o novo Código Florestal. Não dá para ficar criando lei por criar, achando que ela é aplicável lá na ponta. A gente tem que saber um pouco do que acontece na ponta para saber se é viável, se não se colocam restrições que não podem ser cumpridas. Temos que aliar a proteção do meio ambiente com o desenvolvimento.


Qual a sua avaliação do relatório do deputado Aldo Rebelo?
Ele avançou muito. Acho que ele contempla os dois aspectos que falei, preservação do meio ambiente e desenvolvimento. Não dá para parar o país para pura e simplesmente preservar. O deputado Aldo estudou muito a matéria, ele é uma pessoa neutra. Nunca foi produtor rural, nem é um ambientalistas radical. É uma pessoa sensata.


A senadora Kátia Abreu quando era deputada foi muito crítica da PEC do Trabalho Escravo. Qual a sua avaliação sobre essa PEC? Há ambiente hoje no Congresso para votá-la?
Só não há ambiente se não quiser. Porque essa PEC é fundamental. É verdade que é preciso esclarecer a diferença entre trabalho escravo, trabalho degradante e trabalho análogo à escravidão. Hoje, se perguntar isso para o Ministério do Trabalho, eles não sabem a diferença. Então precisamos clarear isso. Seja no ambiente urbano, seja no rural, é inconcebível você promover trabalho escravo. Outra coisa é um trabalho degradante, que não está totalmente em conformidade com a legislação, mas que não se compara com trabalho escravo. Trabalho escravo, o que é? É deixar a pessoa dependente para comer, sem as mínimas condições de saúde. Ainda tem o trabalho análogo. A PEC visa deixar as regras claras, dar segurança jurídica.


A demora na aprovação da PEC não acaba favorecendo o empregador e prejudicando o trabalhador?
Muito pelo contrário. É o inverso, porque se você não tem regras claras para saber o que é o escravo, que é errado, o degradante, que não está regular, ou os que não sabem quais as obrigações que tem que cumprir, porque ainda existe essa subjetividade da lei. Você pode estar penalizando pessoas de boa fé, em detrimento de pessoas que não querem agir de boa fé. Quando você deixa as regras claras, promove segurança jurídica e, assim, consegue ser capaz de cobrar e punir.


De acordo com reportagem que fizemos no Congresso em Foco sobre os parlamentares mais jovens, dos 40 parlamentares com menos de 35, apenas oito não são de família de políticos. Hoje, para ser político, é preciso ter parente político?
Eu não concordo. Nossa família nunca teve um político até a minha mãe. E ela conquistou um cargo sem qualquer tipo de apadrinhamento, ou incentivo familiar. Ela é a prova viva de que você pode descobrir uma vocação na política e levar esse projeto adiante. Agora, é normal como é na medicina, no direito, que o pai e a mãe projetem para seus filhos a sua profissão. 


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