“Ninguém pode pensar em amordaçar a imprensa”

Rudolfo Lago


“Onde está escrito que o eleitor tem de votar em político?”, desafia a jornalista Ana Amélia Lemos. Durante 33 anos, os telespectadores gaúchos acostumaram-se a ver Ana Amélia na televisão. Ela foi uma das primeiras mulheres do país a exercer na TV a função de comentarista econômica. Em 1977, foi contratada pelo grupo RBS para apresentar o programa Panorama Econômico, o primeiro programa televisivo sobre economia da região Sul. Como ela mesma diz, na função de jornalista ao longo desse tempo, posicionava-se em favor de temas de importância no estado. Com fortes ligações com o setor produtivo gaúcho, casada com o ex-senador gaúcho Octávio Omar Cardoso (senador entre 1983 e 1987), Ana Amélia, como jornalista, sempre esteve próxima da política. Em março deste ano, ela tomou a decisão de, pela primeira vez, passar para o outro lado do balcão.


A decisão de Ana Amélia causou um reboliço entre os políticos tradicionais do Rio Grande do Sul. Ela entrou numa disputa apertada com os veteranos gaúchos Germano Rigotto, do PMDB, e Paulo Paim, do PT. Acabou desbancando Rigotto, e elegendo-se senadora com 3,4 milhões de votos.


A origem humilde e a formação política conservadora produziram em Ana Amélia um perfil que pode produzir resultados pouco previsíveis no Senado. Ao mesmo tempo em que ela está relacionada aos setores que defendem o agronegócio, tem fortes preocupações sociais, ligadas principalmente à educação. Filha de um carpinteiro e de uma merendeira, a jornalista gaúcha de 65 anos só conseguiu estudar graças à ajuda do então governador Leonel Brizola. Ela própria escreveu uma carta a Brizola e conseguiu, assim, uma bolsa de estudos. Por isso, quando estudantes com bolsa do Enem ficaram inadimplentes por conta das condições de pagamento de seus financiamentos, ela tomou o problema para si e pessoalmente procurou o Ministério da Educação e políticos para negociar melhores condições para os estudantes.


Ana Amélia iniciou sua carreira jornalística em 1970. Há 31 anos, na sucursal da RBS em Brasília, cobrindo a área econômica. Como jornalista, ela é radicalmente contra as propostas, defendidas pelo atual governo, de controle social do jornalismo. “Nos tempos atuais, não se pode pensar em amordaçar a imprensa. A liberdade é uma conquista e um direito inalienável dos brasileiros. As tentativas de cercear a imprensa fracassaram, felizmente”, diz ela.


No Rio Grande do Sul, o PP participou da mesma coligação do PSDB. E, assim, o candidato de Ana Amélia à Presidência foi José Serra. O que não significa, porém, falta de contatos com o grupo ligado à candidatura de Dilma Rousseff, do PT. Nesta entrevista ao Congresso em Foco, ela conta, inclusive, que recebeu um telefonema da própria Dilma cumprimentando-a pela eleição. É assim, nessa oscilação entre o tradicional e o novo, entre o social e o conservador, que Ana Amélia pretende buscar seu próprio caminho no Senado. Leia abaixo:


Congresso em Foco - A senhora obteve 3,4 milhões de votos. Desbancou, na sua primeira eleição, um político tradicional do Rio Grande do Sul, Germano Rigotto, que, inclusive, já governou o estado. A que fatores a senhora atribui sua eleição? Há um certo esgotamento das forças políticas tradicionais gaúchas?
Ana Amélia Lemos -
Durante quatro décadas, três das quais em Brasilia, fui comunicadora multimídia dando ênfase a todas as questões de interesse dos gaúchos. Essa atuação, penso eu, foi interpretada pelos eleitores, como se eu, ao longo desse tempo, tivesse sido uma "advogada" das causas de interesse comum da economia de nosso Estado. Tive participação em decisões que beneficiaram estudantes que tinham crédito educativo (antecessor do Fies) e cujas dívidas eram impagáveis.  A liquidação dessa dívida aliviou milhares de famílias que tinham um pesadelo com esse débito. Com minha atuação, evitei o colapso de uma importante escola técnica, em Sapucaia do Sul, hoje referência regional, que não vinha recebendo os recursos necessários ao seu custeio. Conclusão de pontes, liberação de verbas para municípios e regiões do Rio Grande do Sul fizeram parte da minha agenda como jornalista, sintonizada com os problemas do estado no plano federal. Colhi o que plantei nesta eleição. Fui julgada pelo meu trabalho que não se limitou a defender a produção de alimentos, mas toda a agenda social dos eleitores gaúchos. O senador Paulo Paim (PT) declarou que fui a jornalista que mais espaço deu aos projetos dele, em favor dos aposentados. Repeti, nos meus discursos, durante a campanha  que iria em busca da vaga do senador  Sergio Zambiasi (PTB), que deixa um legado importante e que darei continuidade, especialmente no que se refere à logistica de transportes como a segunda ponte sobre o Guaíba, na região metropolitana, e o asfaltamento da BR-470 entre Nova Prata e Barretos, que será uma obra revolucionária para a região Nordeste do Estado.


E isso explica o fato de a senhora ter conseguido assim ameaçar e mesmo desbancar os políticos tradicionais, que já corriam há bem mais tempo em busca de votos?
Eu não sei onde está escrito que o eleitor deve votar em políticos. Penso que o eleitor vota em quem conhece e naqueles candidatos que imagina serem competentes para representar o Estado. Isso também explica minha votação.
 
Em seu trabalho como jornalista e comentarista econômica, a senhora sempre demonstrou ter muito contato com os setores ligados ao agronegócio gaúcho. Esse é o principal setor que a senhora irá representar no Senado? Como se dará essa relação?
Ignorar o papel e a importância que a produção primária tem na economia gaúcha e brasileira é colocar uma venda nos olhos à realidade econômica do país. Nos últimos doze meses, a exportação de alimentos (soja, carnes, açúcar, suco de laranja) além de etanol e tabaco, renderam ao país US$ 72 bilhões de dólares. Canta-se esse resultado, mas quando se mostra a realidade do pequeno e médio produtor com renda cada vez menor e empobrecendo,o foco é preconceituoso. Os custos da última safra aumentaram muito, mas a receita com a venda do produto diminuiu. Quando a renda reduz no campo, a cidade sofre as consequências. A agricultura familiar está assistida, mas o médio agricultor está sem pai nem mãe. Ficou abandonado  e corre o risco de desaparecer. Esse é o produtor com até 300 hectares, com bom conhecimento técnico, com produtividade, mas que não consegue renda para ampliar a produção.  Filhos desses produtores não querem continuar a atividade dos pais, por falta de perspectivas. Talvez tenhamos um novo processo de êxodo rural no país.


Uma discussão que não deverá ser decidida este ano e que deverá chegar ao Senado logo no início do próximo ano é a que se refere ao novo Código Florestal, que se encontra em discussão na Câmara. Os pontos mais polêmicos do texto do relator Aldo Rebelo propõem anistia para quem desmatou, fim da exigência de reserva legal para pequenas propriedades e a redução dos limites para áreas de preservação permanente. Como a senhor vai se posicionar quanto a esses temas?
Se o Congresso Nacional não decidir sobre esse assunto até o final da presente legislatura, em 2011 darei atenção especial ao tema, pela relevância. Pois acredito muito na produção sustentável. O Rio Grande do Sul, aliás, é pioneiro em manejos ambientalmente corretos, como o plantio direto, por exemplo, método copiado hoje por países desenvolvidos como a Espanha. Nesse tema, não me deixarei influenciar por aqueles que, a pretexto de defender o meio ambiente, na realidade estão defendendo os interesses comerciais de seus países. Aliás, está por sair um documento de ambientalistas internacionais conhecidos que irá desmontar algumas teorias sobre preservação ambiental. Deve-se  reconhecer que o produtor tem consciência de sua responsabilidade com a preservação da terra. Falo sobre a realidade do meu estado onde a maioria dos produtores sabe que precisa proteger a terra, nascentes e matas ciliares  para obter  produção sustentável. Os maiores atentados contra o meio ambiente estão nas áreas urbanas.  Pouco se fala sobre essa realidade. Só lembram disso nas tragédias. Há ocupação desordenada nos morros, em áreas de risco, esgoto a céu aberto comprometendo a saúde pública, lixões espalhados por regiões metropolitanas, poluição de rios e lagos.


Ainda no tema do meio ambiente, a votação expressiva de Marina Silva de alguma forma demonstra que o assunto entrou no universo de preocupações do eleitor. Ela, Marina, defende que os desafios ambientais da nova era implicam uma mudança na forma de exploração do planeta. E uma das críticas que mais são feitas pelos grupos ambientalistas diz respeito aos modelos de agricultura e pecuária mais extensiva. Como a senhora se posiciona quanto a essa discussão?
A senadora Marina Silva tem posições respeitáveis, na defesa do meio ambiente. Mas certamente não é a única líder com essa preocupação e nem todos os seus votos foram dados por ambientalistas. Muitos eleitores escolheram Marina para levar a decisão ao segundo turno, como acabou acontecendo. Muitos eleitores não queriam uma eleição plebiscitária. Acredito que a produção sustentável é o caminho. Não podemos demonizar a produção de alimentos, a pretexto de defender o meio ambiente. Bom senso e racionalidade nesse debate farão muito bem ao meio ambiente.


E quem propõe bom senso e racionalidade nesse debate?
Tenho enorme respeito pela seriedade e pelos compromissos nacionais do deputado Aldo Rebelo (PCdoB), um dos grandes responsáveis pela Lei de Biossegurança que modernizou o país e fez a ciência e a medicina avançarem muito. O futuro fará justiça ao deputado Aldo Rebelo na discussão do novo Código Florestal.


O PP aliou-se ao PSDB na disputa estadual no Rio Grande do Sul e, no plano nacional, ficou oficialmente neutro na eleição, embora mais próximo da candidatura de Dilma Rousseff. Hoje, faz parte da base do governo Lula e é provável que faça também parte de um eventual governo Dilma. Nessa hipótese, como a senhora pretende se posicionar?
A ministra Dilma Rousseff fez a gentileza de me ligar para cumprimentar pela minha eleição ao Senado. Ela sabe que irei colaborar com todas as iniciativas que sejam de interesse do Rio Grande do Sul. O senador é o representante do estado, no Congresso Nacional. Minha relação com Dilma será republicana. Mas o candidato que apoio é José Serra.


Por que a opção por Serra?
Minha posicão é disciplinar. O PP do Rio Grande do Sul estava com Serra no primeiro turno e decidiu manter  esse apoio no segundo turno. Mas, é verdade, alguns, como Francisco Dornelles, apoiam Dilma.


Não é uma confusão?
No fundo, não é diferente do PMDB, que também está dividido na sucessão presidencial. No Rio Grande do Sul, veja a situação do PMDB. Osmar Terra (deputado federal), Ibsen Pinheiro (deputado federal), José Fogaça (ex-prefeito de Porto Alegre e candidato derrotado a governador) e Rigotto (ex-governador, candidato derrotado ao Senado) estão com Serra. Mendes Ribeiro Filho (deputado federal) está com Dilma
 
Que avaliação a senhora faz do governo Lula?
O presidente Lula foi a prova da força da nossa democracia e da sua obstinação pessoal. Ele chegou ao poder na hora certa. Na política, isso conta muito. Estava maduro. Livrou-se dos radicais de seu partido, e a prova dessa maturidade foi ter dado continuidade à política econômica de estabilização de FHC e da escolha de Henrique Meirelles para comandar o Banco Central, aliás, o mais longevo presidente do BC.


Como jornalista, como a senhora se manifesta quanto a algumas discussões levadas por grupos ligados ao governo, ao PT e à candidata Dilma com relação ao papel da mídia? Há um  Partido da Imprensa Golpista? A cobertura não é equilibrada?
Nos tempos atuais, não se pode pensar em amordaçar a imprensa. A liberdade é uma conquista e um direito inalienável dos brasileiros. As tentativas de cercear a imprensa fracassaram, felizmente.


Ainda no tema mídia, qual sua posição sobre a criação de um mecanismo de controle social da mídia?
A imprensa brasileira é madura o suficiente para trabalhar com responsabilidade. São inúmeros os casos de ações na justiça, penalizando órgãos de  imprensa. A justiça é o melhor caminho para quem se sentir atingido, injustamente, por algum veiculo de comunicação.


A senhora chega ao Senado após uma legislatura em que o Congresso foi muito criticado e sofreu fortes desgastes. Houve a questão da farra das passagens, denunciada pelo Congresso em Foco. Depois, a questão dos atos secretos no Senado. Há uma crise no Poder Legislativo? Algo precisa ser mudado?
Não resta dúvida que o Senado, com esses episódios, perdeu credibilidade. Penso que os senadores que assumem em 2011 terão como prioridade um  compromisso coletivo para  resgatar a credibilidade da instituição


Há, na sua opinião, exageros nos gastos e nas benesses oferecidas aos parlamentares, como verbas de gabinete, passagens, auxílio-moradia, etc?
De minha parte, farei um mandato com muito rigor, nesse aspecto. Uma das minhas primeiras iniciativas será dispensar o auxilio moradia, porque resido em Brasilia. A respeitabilidade do Senado passa, necessariamente, pela respeitabilidade de cada senador.


Quais serão suas primeiras propostas? A senhora já tem projetos em mente?
 O compromisso é com a instituição. Um mandato austero, em relação a gastos. Como representante do estado, penso que precisaremos discutir, com urgência, a partilha da receita dos impostos. A Federação está fragilizada porque 60% do que se arrecada fica com a União, 25% com Estados e apenas 15% com os municípios. As pessoas não moram na União. Moram nas cidades. Os prefeitos, desde 1988, tiveram aumento de competências na prestação de serviços e, ao mesmo tempo, redução das fontes de receita para fazer frente a essa nova realidade. Essa repartição é injusta e compromete a própria estabilidade institucional do país.


Uma possível discussão da próxima legislatura diz respeito à reforma política. Como a senhora se posiciona com relação a propostas que estão em questão, como a lista fechada nas eleições proporcionais e o financiamento público de campanhas?
A reforma política é inadiável. Sou favorável ao financiamento público de campanha e à adoção do voto distrital misto para as eleições proporcionais, mas tenho dúvida em relação à lista fechada. Teremos um Senado com a presença de políticos experientes que poderão dar enorme contribuição nesse aspecto, como é o caso de Aécio Neves, Itamar Franco, Aluisio Nunes Ferreira, Luís Henrique da Silveira, Roberto Requião e Marta Suplicy, por exemplo.

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