Nas revistas: traição e caixa dois

Istoé revela que ministro da Agricultura, Antônio Andrade, autorizou operações para financiar a campanha do PP em Santos Dumont. Gravações obtidas pela revista confirmam o repasse

Istoé

"O dinheiro chegou de uma empresa. Eu nem deveria ter deixado passar. Foi uma falha"

Durante as eleições de 2012, o atual ministro da Agricultura, Antônio Andrade, autorizou uma operação com indícios de crime eleitoral para financiar a campanha do PP em Santos Dumont. Em gravação obtida por ISTOÉ, ele confirma o repasse. Na conversa, ocorrida no dia 19 de dezembro de 2012, Conrado pergunta sobre a doação no valor de R$ 100 mil do PMDB mineiro para o candidato do Partido Progressista, adversário eleitoral em Santos Dumont (MG). O atual ministro Antônio Andrade responde que o dinheiro obtido pelo deputado federal João Magalhães (PMDB-MG) veio de uma empresa e foi transferido para Luiz Fernando de Faria (PP-MG). O repasse é considerado ilegal e, de acordo com especialistas em direito eleitoral, tem indícios fortes de caixa 2. No diálogo, o ministro admite que foi uma falha.

Disputas políticas em pequenos municípios costumam passar despercebidas num Brasil de dimensões continentais. Com menos de 50 mil habitantes, a cidade mineira de Santos Dumont está fugindo à regra. A eleição do prefeito, em 2012, virou alvo de uma investigação na Justiça Eleitoral que bate à porta do gabinete do ministro da Agricultura, Antônio Andrade. Então presidente do PMDB mineiro, ele autorizou em meio à campanha municipal do ano passado uma operação financeira considerada totalmente ilegal. O repasse, feito inexplicavelmente a um adversário eleitoral, tem fortes indícios de caixa 2 e lavagem de dinheiro, na avaliação de especialistas em direito eleitoral.

Os fatos apurados por ISTOÉ indicam um caso emblemático, daqueles que se tornam explosivos apesar de terem tudo para não chamar a atenção. Uma pequena cidade, uma eleição de baixa relevância nacional, candidatos pouco conhecidos e verbas quase desprezíveis se comparadas aos bilhões que costumam passar pelas campanhas políticas no País. Talvez essas características expliquem os métodos esdrúxulos e a desfaçatez com que o esquema funcionou: dinheiro vindo de empresa não identificada transitou na contabilidade do PMDB mineiro e foi parar no caixa de seus opositores. O trajeto heterodoxo revela a ponta do que parece um robusto esquema de fraudes que já ameaça comprometer todas as contas do PMDB de Minas Gerais e enrola o ministro da Agricultura num caso exemplar de infidelidade partidária.

A terceira vida de Palocci

Logo depois do Carnaval, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva recebeu um recado de um diretor da Fiesp – Federação das Indústrias do Estado de São Paulo – informando que diversos empresários estariam sendo seduzidos pelo discurso de um estado ágil, enxuto e menos intrometido apresentado pelo senador Aécio Neves (PSDB-MG) em reuniões com pequenos grupos de industriais. Dias mais tarde, o ex-ministro José Dirceu relatou a Lula, durante um jantar em São Bernardo, uma crescente insatisfação do setor de logística com a gestão da presidenta Dilma Rousseff. Como conhece muito bem a força do empresariado em uma disputa presidencial, Lula resolveu trazer de volta ao tabuleiro um velho bombeiro, tarimbado na prática de apagar os incêndios que costumam colocar o setor produtivo e o PT em lados opostos: Antonio Palocci.

Na primeira semana de março, o ex-ministro, que estava havia quase dois anos longe dos holofotes e raramente mantinha contatos políticos, atendeu ao chamado de Lula. Foi ao Instituto Cidadania, QG lulista em São Paulo, e, depois de conversar por quase três horas com o ex-presidente e dois assessores, aceitou o desafio de mais uma vez aparar arestas entre o partido e os empresários. Palocci passou a fazer semanalmente avaliações da política econômica – tarefa também realizada pelo economista Luiz Gonzaga Belluzzo – e a participar de encontros reservados com empresários e banqueiros. A maioria das reuniões ocorre sem a presença de Lula. “Assim como atuou durante a campanha em 2002, Palocci é uma espécie de avalista da política econômica de Dilma junto ao empresariado”, disse à ISTOÉ um dos assessores de Lula presentes no encontro no Instituto Cidadania. Desde aquele dia, a participação política de Palocci vem aumentando, ainda que só nos bastidores.

Repulsa a Feliciano

Na última semana, intensificaram-se os protestos contra a presença do pastor-deputado Marco Feliciano (PSC-SP) à frente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara. Aproveitando, desta vez, a capilaridade e o poder de mobilização das redes sociais, atores, cantores, intelectuais, pessoas comuns e até brasileiros que moram fora do País se uniram para engrossar o coro pela saída do parlamentar. O mais recente manifesto inclui a divulgação de fotos pela internet em que as pessoas seguram cartazes com os dizeres “Feliciano não me representa”. Cada um expressando um motivo particular para justificar a afirmação, hoje já transformada num mantra nacional. O ator Cauã Reymond, da Rede Globo, escreveu: “Não importa o que sou. Feliciano não me representa.” Já um casal de mulheres aproveitou o protesto para anunciar o futuro enlace: “Somos lésbicas, vamos casar e Feliciano não nos representa.

A nova onda de protestos foi motivada pela divulgação de dois vídeos nos quais o pastor-deputado comenta as mortes do ex-beatle John Lennon e dos cantores da banda Mamonas Assassinas. Segundo Feliciano, Lennon teria morrido porque os Beatles afrontaram Deus. “Eles disseram que os Beatles eram mais populares do que Jesus Cristo. Ninguém afronta Deus e sobrevive para debochar”, diz Feliciano. Em outro vídeo, o parlamentar também atribui o trágico acidente aéreo envolvendo os integrantes do grupo Mamonas Assassinas à vontade de Deus. Para o pastor, as músicas da banda eram inadequadas: “Um anjo pôs o dedo no manche e Deus fulminou aqueles que tentaram colocar palavras torpes na boca das nossas crianças”, disse. A despeito do clamor das ruas por sua renúncia da Comissão de Direitos Humanos, o parlamentar tem feito ouvidos moucos e agarra-se cada vez mais ao cargo. Sem alternativas, só resta aos parlamentares tentar uma saída política. “Temos que buscar uma recomposição civilizada”, defende o deputado Nilmário Miranda (PT-MG).

Tudo sobre Marco Feliciano

A volta dos arapongas

O general José Elito Siqueira é tão poderoso quanto polêmico. No comando do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) da presidência desde 2011, ele mantém sob suas rédeas as funções estratégicas que envolvem proteção e defesa nacional. Com perfil centralizador, Elito nunca escondeu que considera manifestações sindicais um risco à segurança pública, defende a infiltração de agentes clandestinos nestes movimentos e tem realizado uma política de militarização dos órgãos de defesa do governo, o que inclui a Agência Brasileira de Inteligência (Abin), criada para ser uma resposta civil e civilizada ao antigo Serviço Nacional de Informações, o SNI do regime militar. Capaz de ganhar prestígio junto a autoridades que confiavam em seus relatórios confidenciais sobre movimentos políticos, em especial de servidores, na semana passada uma sequência de erros jogou luzes sobre a fragilidade dos órgãos de segurança.

A trapalhada começou quando reportagem do Estado de S. Paulo informou que o GSI havia montado uma estrutura de monitoramento no Porto de Suape (PE) de portuários e sindicatos contrários à Medida Provisória 595, conhecida como MP dos Portos. O maior opositor à MP dos Portos é o governador pernambucano Eduardo Campos (PSB), pré-candidato à presidência em 2014, em barulhenta aliança com o sindicalista Paulinho da Força (PDT-SP), que entrou na mobilização com a promessa de fazer protestos como a presidenta Dilma Rousseff nunca viu. Num primeiro momento, o general tentou, pura e simplesmente, negar a operação. Acabou desmentido de forma categórica, pela divulgação de um documento sigiloso que dava detalhes sobre o monitoramento dos sindicalistas.

A guerrilha do réu Dirceu

A reconstituição dos passos do ministro Luiz Fux para obter sua indicação para o Supremo Tribunal Federal sugere que ele fez um esforço concentrado para se aproximar de personagens envolvidos com o mensalão. Manteve uma primeira conversa com o deputado João Paulo Cunha, que saiu do encontro convencido de que Fux não acreditava na existência de provas para condenar a maioria dos réus. Após o encontro com João Paulo, que, com o voto de Fux, acabaria condenado a nove anos de prisão, outro acusado, o deputado José Genoino, também foi sondado para um encontro, mas recusou a oferta.

O candidato encontrou-se uma vez com José Dirceu, cerca de um ano antes de ser indicado por Dilma Rousseff, e manteve ainda três conversas em separado com a mulher do ex-ministro, Evanise Santos. Numa das ocasiões, Luiz Fux agendou uma visita ao jornal onde Evanise trabalhava como diretora de marketing. Numa segunda vez, fez convite para um almoço no D.O.M., mais premiado restaurante brasileiro, nos Jardins, em São Paulo. Por fim, Evanise foi recebida na residência do próprio Fux, no Lago Sul, em Brasília, quando o anfitrião era ministro do Superior Tribunal de Justiça.

As concessões de Dilma

Com os olhos na reeleição de 2014, a presidenta Dilma Rousseff passou a arriscar um complexo jogo de concessões políticas e financeiras. Para agradar a Estados governados por aliados, o governo tem irrigado as contas públicas estaduais com financiamentos para obras que mascaram administrações afundadas em dívidas. Apesar de fechar no vermelho, os governadores não rejeitam a oferta do governo federal, esquecem a responsabilidade fiscal e tomam como prioridade transformar seus Estados em canteiro de obras para ter o que mostrar à populacão no ano eleitoral. Essa é a situação de pelo menos sete Estados que não tiveram receita suficiente para cobrir despesas de pagamento e custeio no ano passado: Pernambuco, Rio de Janeiro, Paraíba, Acre, Sergipe, Roraima e Amapá. Alguns deles são importantes palanques para 2014.

Em vez de determinar a dieta financeira dos Estados, o governo lança mão de mecanismos para afrouxar o cinto dos governadores. O Congresso vai aprovar, até maio, a Medida Provisória 589, que reduzirá em 50% os juros que os Estados pagam pelas dívidas e ainda propõe o abatimento de até 100% dos encargos legais dos débitos. Com o abatimento e as novas regras de “reparcelamento”, os gestores poderão ganhar uma certidão negativa de bons pagadores e se endividar ainda mais, numa concessão economicamente muito perigosa. E o pacote de permissividades do governo, de olho na reeleição, não para aí. A execução orçamentária de emendas parlamentares, convênios e recursos dos ministérios em 2013 mostra que a distribuição dos recursos federais obedece a agenda eleitoral. Para se cacifar eleitoralmente no Estado governado por um adversário em potencial, o socialista Eduardo Campos (PSB), o governo privilegiou Pernambuco na liberação de recursos de convênios. Só no último mês, o Estado, que tem 8,7 milhões de habitantes, recebeu R$ 822,7 milhões. É o terceiro maior valor entre os repasses governamentais, perdendo apenas para Minas e São Paulo, que tem 41,2 milhões de habitantes e recebeu R$ 855,3 milhões no último mês. Em contrapartida, juntamente com as transferências federais, cresce a dívida de Pernambuco. O Estado tem o maior déficit do País, mas os gestores só falam em investimento financiado e não pensam em sanear as contas. Já o Estado de São Paulo, comandado pelo PSDB, recebe recursos do governo federal de forma seletiva. A execução orçamentária é alta nas pastas de Saúde e Educação, comandadas, respectivamente, por Alexandre Padilha e Aloizio Mercadante, ambos cotados para disputar o governo paulista em 2014 pelo PT.

Começou a onda de demissões

"Albina, nem precisa trocar de roupa.” Foi assim que a doméstica carioca Albina Costa, 52 anos, foi recebida pelo patrão quando chegou para trabalhar na segunda-feira 1º, às 8h, como sempre fazia nos últimos oito anos. Na sequência, ele explicou: “Não posso mais te pagar por causa dessa nova lei.” Durante quase uma década, a profissional – que recebia R$ 802 e tinha carteira assinada – manteve a rotina de pegar ônibus e metrô de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, no Rio de Janeiro, até o Flamengo, na zona sul. Cozinhava, lavava a roupa, arrumava a casa de quatro quartos e, às 15h, com o dever cumprido, fazia o percurso de volta. Agora, desempregada, se divide entre dois sentimentos: de um lado, acha que a chamada PEC das Domésticas, que estende à categoria os mesmos direitos já concedidos às outras desde a Constituição de 1988, trará benefícios. De outro, teme uma onda de dispensas, com razão. “A gente estima que o aumento de demissões chegou a 60% nessa primeira semana de lei”, afirma Luiza Batista Faria, presidente do Sindicato dos Empregados Domésticos de Pernambuco.

Os números de Pernambuco impressionam: “Antes, fazíamos, no máximo, dez homologações diárias no sindicato. Nessa primeira semana em que a lei está valendo, chegamos a ter 25 rescisões de contrato num único dia”, afirma Luiza. Como a grande maioria das demissões de domésticas não passa pela entidade de classe, é impossível, neste momento, ter um número preciso da realidade nacional. Mas todos os sindicatos consultados pela reportagem de ISTOÉ acusam queda de empregos domésticos. “O normal eram duas, três dispensas por mês. Nos últimos 15 dias, foram dez”, atesta Neuza Alves Garcia de Almeida, presidente do Sindicato das Trabalhadoras Domésticas de Niterói, na região metropolitana do Rio. Em São Paulo, de cada dez empregadas que procuraram o sindicato regional na semana passada, duas tinham sido dispensadas. “Em dois ou três meses poderemos saber se a nova lei causou muito prejuízo ao segmento de empregados domésticos”, avalia Fernando Holanda Barbosa Filho, pesquisador da área de economia aplicada do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da Fundação Getulio Vargas. “Mas, com certeza, deve ocasionar mais informalidade.”

Craques no banco de reservas

A um ano da Copa do Mundo, o comando do Comitê Organizador Local (COL) do Mundial pode ser trocado pela Fifa. José Maria Marin, 80 anos, presidente do COL e da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), passou a semana no olho do furacão. Sem trânsito com a presidenta Dilma Rousseff e em baixa com a entidade máxima do futebol, Marin já tem até substitutos cotados para o seu lugar: os ex-jogadores da Seleção Leonardo e Ronaldo – o Fenômeno é membro do COL desde 2011. Mesmo na CBF, a situação do cartola não é confortável. “Como ministro, não posso fazer nada, mas a Câmara e o Congresso, no geral, podem tomar as decisões que julgarem adequadas”, afirmou o ministro dos Esportes, Aldo Rebelo, em audiência pública na Câmara dos Deputados na terça-feira 9, ao explicar por que o governo não pode intervir na entidade e tirá-lo da presidência.

O comentarista e ex-jogador Júnior acredita que a possível saída de Marin, ex-deputado pela Arena (1971-1979) e ex-governador de São Paulo, pode pôr fim à desunião política que impera no COL. “Nitidamente o governo não está satisfeito com essa gestão”, diz Júnior, para quem estão faltando harmonia e integração, elementos fundamentais para “resolver obstáculos ou imprevistos que surjam daqui para frente.”

Histórias que assustam a ONU

Em 2003, o ajudante de pedreiro Heberson Oliveira foi acusado de entrar na casa de vizinhos na periferia de Manaus, arrastar uma criança para o quintal e estuprá-la enquanto os pais dormiam. Heberson dizia que, na noite do crime, estava em outro bairro da cidade. Ninguém acreditou. A vítima, uma menina de 9 anos, se viu pressionada a reconhecê-lo como algoz e dar um desfecho ao escândalo. Embora a descrição do suspeito divergisse das características físicas de Heberson, ele foi para a cadeia. Lá aguardou julgamento por quase três anos jurando inocência. A mãe chegou a ser hospitalizada ao receber a notícia. “Com a vida que a gente levava, não podia garantir que ele nunca roubaria”, diz Socorro Lima. “Mas não seria capaz de uma coisa dessas.” Dona de casa e pensionista, ela pegou empréstimos para bancar advogados. Atrás das grades, o rapaz sem antecedentes criminais assistiu a rebe­liões, entrou em depressão, foi abusado sexualmente e contraiu o vírus HIV.

E nada de audiência ou sentença. Até que a defensora pública Ilmair Siqueira assumiu o caso: ela alertou o promotor de que não havia provas ou testemunhas para acusar seu cliente. O juiz pediu desculpas pela injustiça e concedeu a liberdade. Mas Heberson nunca mais seria um homem livre. Tentou um emprego numa loja de materiais de construção e foi vítima do preconceito entre os próprios colegas, que temiam até beber água da mesma torneira. Sete anos após sua absolvição, o rapaz permanece desempregado. Hoje, perambula pelas ruas catando latinhas e consumindo pedras de oxi. “Eu morri quando me fizeram pagar pelo que não fiz”, diz Heberson aos 32 anos, explicando por que não toma o coquetel contra a Aids. “Todos os dias tento esquecer o que vivi”, diz ele, vítima de um sistema judiciário que também está doente e, segundo as Nações Unidas, desperta graves preocupações.

Época

O tomate e a ameaça da inflação

"Estou usando uma joia.” Com essa frase, a apresentadora Ana Maria Braga apresentou o colar de tomates de seu figurino no programa da quarta-feira passada. Foi apenas uma das muitas piadas que pipocaram ao longo da semana sobre o mais novo símbolo da inflação. Numa piada da internet, a atriz Claudia Raia, chefe de uma quadrilha internacional de prostituição na novela das 9, diz que mudará de ramo e traficará tomates. Em outra, um caqui que se passa por tomate vai para a cadeia. Alguém sugeriu um novo programa social – Meu Tomate Minha Vida. Na semana em que a inflação acumulada nos últimos 12 meses ultrapassou o teto da meta estipulada pelo Banco Central, o Brasil se transformou no “país do tomate”. Com alta de 122% em um ano, o fruto contribuiu para o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) fechar o período em 6,59%.

Não se acredita num descontrole que leve o país aos patamares de inflação do final dos anos 1980, quando, na casa dos 1.000% ao ano, ela obrigava os brasileiros a apostar corrida, entre as gôndolas dos supermercados, com os funcionários responsáveis pela remarcação de preços. É um erro, porém, comparar os índices desses dois períodos, tantas foram as mudanças da economia na conquista da estabilidade. Mesmo que o patamar atual não pareça assustador, ele é. Índices desse porte estão longe de representar um problema trivial. Um primeiro efeito: na semana passada, os supermercados divulgaram que, em fevereiro, registraram queda de 2,1% nas vendas de alimentos e bebidas, em comparação com o mesmo mês de 2012. O consumo diminuiu sobretudo entre a classe média e os mais pobres. De acordo com a Associação Brasileira de Supermercados (Abras), as vendas para famílias de menor renda caíram 4% em 12 meses. Essa situação – em que os maiores beneficiários do crescimento recente da economia brasileira perdem poder de compra – é a principal fonte de preocupação para o futuro político da presidente Dilma Rousseff.

Dois dias antes da divulgação do IPCA, a presidente convocara a seu gabinete três de seus principais consultores econômicos: o ex-ministro Delfim Netto, Luiz Gonzaga Beluzzo e Yoshiaki Nakano, que cuidou das contas de várias administrações tucanas. O governo só se pronunciou sobre o assunto depois que o índice foi divulgado, na última quarta-feira. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, disse que não pouparia esforços para evitar a alta de preços e quis demonstrar otimismo. Afirmou que a entressafra agrícola terminará em breve, que as pressões sobre o setor de serviços estão mais brandas. Também lembrou que a inflação de março foi a mais baixa do ano – segundo ele, um bom sinal. Procurado por ÉPOCA para comentar o assunto, Mantega não quis dar entrevista. O presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, também não quis se pronunciar. Na sexta-feira, durante um evento em São Paulo, Mantega afirmou que “as medidas que forem necessárias serão tomadas pelo governo”. “Não titubeamos em tomar as medidas, inclusive, posso dizer, mesmo medidas que são consideradas não populares, como elevação da taxa de juros, quando isso é necessário”, afirmou. “O Banco Central tem dito que não há e não haverá tolerância com a inflação”, disse Tombini no mesmo dia.

O forró promovido pelo senador Ciro Nogueira com dinheiro público no Piauí

Eu tenho dinheiro e faço tudo que quiser/eu gosto da bagaceira, forró, cachaça e mulher. A letra é cantada em ritmo de forró pelo sanfoneiro Leo, de chapéu e botas de vaqueiro. Leo lidera a banda Xenhenhém, uma máquina de produzir shows e vender produtos. Bebe pra dormir/acorda pra beber/o futuro desses caras/é ver a galha crescer. Enquanto Leo canta, Pônei toca triângulo e dança fantasiado de boneca. Seu Madruga toca zabumba com uma cesta de palha na cabeça. No fundo do palco, mais discretos, o baixista Shrek balança as orelhas de ogro, e o baterista “3 em 1” veste um elmo viking. Com letras que falam de bebida, mulheres, dinheiro e – acredite – exames proctológicos, as apresentações da Xenhenhém fazem sucesso no interior do Piauí. Um de seus ofícios é tocar em festivais bancados por prefeituras. O público adora. Os políticos também. O senador Ciro Nogueira, do PP do Piauí, eleito na semana passada presidente nacional do partido, é um dos mais entusiasmados fãs da Xenhenhém.

Recentemente, a Controladoria-Geral da União descobriu que políticos como ele se acabam no xote antes mesmo de sair a primeira nota da sanfona de Leo. Dançam agarradinhos ao dinheiro público. A festa começa, como a plateia sempre espera, no Congresso. Em 2010, quando ainda era deputado, Ciro e alguns de seus colegas de bancada do Piauí destinaram suas emendas parlamentares a promover no Estado as festas da Xenhenhém e assemelhadas. Emendas são um instrumento de que os parlamentares dispõem para atender às mais urgentes necessidades de seus constituintes – normalmente por meio de obras, como construção de escolas e hospitais. Ciro e sua turma resolveram gastar esse dinheiro de outro modo. Apresentaram suas emendas ao Ministério do Turismo. A Pasta repassou o dinheiro das emendas a prefeituras piauienses. No papel, o repasse foi feito para “promoção de eventos para divulgação do turismo interno”. O que o “turismo interno” tem a ver com o batuque de Seu Madruga é um mistério que nem Pônei consegue explicar. A CGU detectou todo tipo de irregularidade nas festanças: ausência de licitação, conluio entre empresas, superfaturamento na contratação das bandas – e, por fim, ausência de comprovação de que alguns dos “eventos” de fato existiram.

Falta de fiscalização de peso de caminhões custa R$ 1,6 bilhão por ano ao país

Não importa o trajeto ou a região. Dirigir na maioria das estradas federais brasileiras é arriscar-se em pavimentos esburacados. Significa também presenciar a principal causa da deterioração das rodovias: caminhões com carga acima do peso permitido. Esse desrespeito tem um custo altíssimo para o país. Em auditoria concluída no mês passado, a que ÉPOCA teve acesso com exclusividade, a Controladoria-Geral da União (CGU) estimou em aproximadamente R$ 1,6 bilhão por ano o prejuízo do governo provocado pela falta de fiscalização e combate ao excesso de carga transportada nas estradas federais. Não são apenas as empresas pequenas e desconhecidas que desrespeitam o limite de carga. Até a Petrobras contribui para a destruição das rodovias brasileiras.

O país tem hoje apenas 77 postos de pesagem de caminhões, numa malha rodoviária federal pavimentada de 63.900 quilômetros. Somente 35 estavam em operação quando a CGU fez a auditoria. Esses postos existem para verificar se os caminhões transportam a carga dentro dos limites permitidos. Se os veículos estiverem em desacordo, podem ser multados e retidos. Os técnicos da CGU constataram, no entanto, que a fiscalização praticamente não existe. Mesmo os postos em funcionamento não contavam com câmeras para detectar a fuga de caminhões ou sistemas para o controle automático da dimensão dos veículos. Em muitos casos, os postos não tinham agentes de trânsito, cuja presença é exigida por lei. Foi apontada também falha frequente na interceptação de veículos que se recusam a parar nos postos de pesagem.

Para sociólogo, só educação mudará cultura da violência

O assassinato do estudante universitário Victor Hugo Deppman pelas mãos de um menor de idade, na última terça feira em São Paulo, levantou novamente o debate sobre a maioridade penal no país e o comércio de armas. Um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), divulgado na semana passada, mostra que a compra de armas pela população caiu cerca de 40% após o Estatuto do Desarmamento, de 2003. Outro levantamento, divulgado no começo do ano, o Mapa da Violência 2013, enfoca justamente a violência armada no país. Mostra, entretanto, que a taxa de homicídios por armas de fogo se manteve constante na última década após a entrada em vigor do mesmo Estatuto.

Segundo o coordenador do Mapa da Violência, o sociólogo Júlio Jacobo Waiselfisz, a grande redução na compra de novas armas de fogo não significa que o número de armas em circulação no país tenha diminuído na mesma grandeza. Sem campanhas eficazes de desarmamento da população, que se tornaram raras, esse estoque de armas continuará fazendo vítimas como o estudante de Rádio e TV.

Carta Capital

Desconfiavam deles, e agora eles nos surpreendem

Na primeira sessão legislativa de 2011, uma quinta-feira à tarde, Romário, eleito deputado federal pelo PSB, foi flagrado jogando futevôlei na praia da Barra da Tijuca, no Rio. O mundo lhe caiu em cima, com críticas de todo lado. Dois anos se passaram e o ex-jogador não só se tornou um dos parlamentares mais assíduos, como também integra o seleto grupo de novatos que se têm destacado positivamente em um Congresso de velhas raposas. A seu lado, Tiririca, o “palhaço”, e Jean Wyllys, o “ex-BBB”, além do senador Randolfe Rodrigues, um político do “longínquo” Amapá, surpreendem o País ao exercer o mandato de forma produtiva e cidadã, enquanto outros atraem repulsa.

Romário mostra certa irritação ao falar do episódio do futevôlei, considera-o injustamente explorado porque assinara presença antes de viajar, embora admita que nem ele mesmo soubesse do prazer proporcionado por ser deputado. Nos primeiros 15 dias, conta, chegou a se decepcionar um pouco, sentindo-se como um peixe fora d’água, ou melhor, como o Peixe, seu apelido no futebol. Com o tempo, foi “pegando o jeito”, principalmente nos trabalhos nas comissões. Começou a ser olhado com mais simpatia pela mídia quando demonstrou dedicação a projetos voltados às pessoas com deficiência, inspirado pela filhinha Ivy, de 7 anos, que tem síndrome de Down. Obviamente, Romário tem tudo para se destacar como presidente da Comissão de Turismo e Desporto da Câmara, que acaba de assumir. “Uma das minhas principais bandeiras como parlamentar é moralizar o futebol em geral através da Copa”, diz o ex-camisa 11 da Seleção Brasileira, tetracampeão do mundo em 1994.

O Japão volta ao Brasil

Diversas coincidências aproximam a vida de Fujiyoshi Hirata da história das relações comerciais entre o Japão e o Brasil. Elas começaram em 1967, quando Hirata, aos 22 anos, trocou sua terra natal por Porto Alegre (RS). A chegada ao País seguiu o fluxo das ondas de investimentos japoneses. O jovem trabalhou por cinco anos na Kurashiki, indústria têxtil instalada no Sul desde os anos 1950. A experiência fez dele um adepto do chimarrão, hábito que ainda cultiva. A passagem por Mogi das Cruzes, no interior de São Paulo, polo de migração nipônica, o levaria a jogar tênis. Hirata fez uma carreira longa na Rohm, fabricante de semicondutores que encerrou suas atividades por aqui em 1997.

Na década de 1970, Hirata assistiu à explosão de investimentos japoneses no Brasil. No fim daquela década, 215 empresas de seu país vendiam produtos e serviços em solo brasileiro, entre elas alguns símbolos do então emergente capitalismo nipônico. Honda, Sony, Yakult e Mitsui são algumas das marcas que se tornariam conhecidas do público nativo e potências globais. “Cerca de 80% das empresas presentes atualmente chegaram naquela época”, afirma Hirata, hoje secretário-geral da Câmara de Comércio e Indústria Japonesa do Brasil (CCIJB).

Veja

Inflação - Dilma pisou no tomate

O tomate virou o grande símbolo do desconforto e da apreensão dos brasileiros com a volta da inflação. O governo até agora, pisou no tomate: usou apenas paliativos para enfrentar o problema.

De acordo com os números do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), divulgados pelo IBGE na semana passada, a inflação acumulou uma alta de 6,59% nos dozes meses encerrados em março, estourando assim o teto da meta inflacionária estabelecido pelo próprio governo. O centro da meta oficial é 4,5%, com uma tolerância de até 6,5%. Depois de muito tempo adormecido, o termo inflação voltou a cair na corrente de comunicação dos brasileiros. Boa parte da alta se deveu de fato aos alimentos.

Tenebrosas transações

A liquidação da seguradora de Naji Nahas virou terreno de práticas nada ortodoxas dentro da Susep, o feudo do PTB à frente do processo que já se arrasta por duas décadas

Furioso e coberto de razão

O presidente do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa, não é um homem afeito a sutilezas. Na segunda-feira passada, em uma reunião em seu gabinete, passou uma descompostura pública nos dirigentes das três principais associações de juízes do país. Chegou a ordenar a um deles que só lhe dirigisse a palavra quando autorizado. Os arroubos verbais do presidente do STF têm deixado satisfeitos seus críticos e ocorrido com mais frequência do que gostariam seus admiradores. Mas a indignação de Barbosa tem razão de ser. A criação de mais quatro tribunais regionais federais, medida aprovada pelo Congresso Nacional na semana anterior e contra a qual ele protestava, é daquelas ideias que farão a alegria de poucos ao custo do bolso de muitos, sem, no fim, atingir seu objetivo - nesse caso, fazer baixar mais depressa a pilha de processos acumulados na segunda instância da Justiça federal.

O bilionário balança

Depois de perder uma fortuna com a queda das ações na bolsa, Eike Batista terá de renegociar dívidas e vender parte de seu império. O governo é peça central no plano de salvação.

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