Nas revistas: o Brasil depois da morte de Santiago Andrade

Semanais repercutem a morte do cinegrafista da Band, questionam violência nas manifestações de rua e alertam para os perigos dos radicalismos

IstoÉ

O risco do radicalismo
A morte do cinegrafista Santiago Andrade, fruto da inaceitável violência dos black blocs, revela o despreparo da polícia para lidar com extremistas e coloca o País diante do desafio de conter o vandalismo sem atentar contra liberdades democráticas

Um dos principais militantes anarquistas do século XIX, Sergei Nechaev criou em 1869, em Moscou, o grupo terrorista Narodnaya Rasprava, que pregava a realização de atos de assassinato de grandes figuras políticas e práticas de terrorismo contra a burguesia e a imprensa com o objetivo de estimular insurreições populares. Exatamente um século depois, em dezembro de 1969, inspirados nas ideias de Nechaev, grupos terroristas da Itália, com a pretensão de desestabilizar a ordem política do pós-guerra, promoveram uma ação que ficou conhecida como o “Atentado à Piazza Fontana”, detonando uma bomba que destruiu o Banco Nacional de Agricultura, em Milão, matou 16 pessoas inocentes e deixou outras 88 feridas. Nada disso, afora a inspiração anarquista dos atos e o clamor popular que se seguiu às mortes na Itália, se assemelha ao que ocorreu há duas semanas no Rio de Janeiro. Na quinta-feira 6, o cinegrafista Santiago Ilídio Andrade, da TV Bandeirantes, que registrava o confronto entre manifestantes e policiais durante protesto contra o aumento da passagem de ônibus, no centro da cidade, foi atingido na cabeça por um rojão lançado por dois integrantes do grupo Black Bloc – linha de frente das manifestações que lançaram o Brasil, desde junho do ano passado, na maior convulsão social experimentada em décadas. Em consequência do ataque, Andrade sofreu afundamento do crânio e faleceu na segunda-feira 10.

Convém delimitar bem os dois episódios para não se cometer equívocos históricos que resultem em diagnósticos errados e embalem soluções políticas inapropriadas. O que se configurou na Itália em 1969 foi puro ato de terrorismo, no sentido preciso da palavra, porque sua intenção era a de provocar terror, morresse quem morresse, uma criança ou um homem, jornalista ou político. No Rio, a situação foi outra. Na esteira das manifestações de junho passado, quando a sociedade tomou as ruas demonstrando um mal-estar difuso, vândalos e arruaceiros, muitos deles influenciados por ideais punks e anarquistas, como os black blocs, se apossaram dos movimentos e promoveram radicalismos inaceitáveis, criminosos, mas que, nem de longe, podem ser classificados como ações terroristas que ameaçam a ordem institucional do País. A democracia brasileira segue firme.

Rede de conspirações
Investigação sobre a morte de cinegrafista sugere que ativistas seriam bancados por partidos, mas isso, além de carecer de comprovação, não explica o problema

As investigações sobre as circunstâncias da morte do cinegrafista da TV Bandeirantes Santiago Ilídio Andrade, de 49 anos, aprofundadas na última semana em meio ao clamor popular gerado pela tragédia, fizeram suscitar teses que apontam para várias direções, mas que, até agora, carecem de comprovação. Não restam dúvidas da participação dos dois acusados, Caio Silva de Souza e Fabio Raposo, no acionamento do rojão que vitimou o cinegrafista. Ambos estão presos e indiciados por homicídio doloso qualificado com dolo eventual e crime de explosão. Na sexta-feira 14, o delegado Maurício Luciano, titular da 17ª DP (São Cristóvão), entregou o relatório final do inquérito que apura o caso para a Promotoria de Investigação Penal do Ministério Público. Nele, constam provas robustas do envolvimento dos dois. Entre elas, o depoimento do próprio Caio, que admitiu que colocou o artefato no chão, depois de pegá-lo, já aceso, das mãos de Raposo. Acompanham o relatório laudos do esquadrão antibombas sobre o artefato, laudo cadavérico do cinegrafista, perícia do local, além de depoimentos de testemunhas e do amigo de Caio, que trabalhava com ele no hospital. O amigo confirmou ter ele ligado no dia da manifestação ofegante dizendo que havia feito uma besteira e teria matado um homem.

Outra vertente da apuração, porém, que sugere o financiamento das manifestações por políticos e partidos ainda está perdida em densa nebulosidade. Num primeiro momento, o advogado Jonas Tadeu Nunes, que defende Caio, acusou o deputado Marcelo Freixo (PSOL) de ter ligação com o seu cliente e afirmou que seu cliente recebia R$ 150 para cometer atos de vandalismo durante os atos públicos. Dois dias depois, desculpou-se com Freixo e reconheceu que o suposto pagamento ao manifestante deveria ser “melhor apurado”. Ao longo da semana, além de Freixo, o ex-governador Anthony Garotinho, adversário do atual governador Sérgio Cabral, foi apontado como suposto financiador de protestos.

Corrida contra o tempo
Depois de 16 anos, Procuradoria confirma as provas do mensalão mineiro, pede 22 anos de prisão para o deputado Eduardo Azeredo e o processo caminha para um desfecho no STF. Os outros réus, no entanto, ainda aguardam manifestação da Justiça de Minas

Adormecida durante 16 anos, a Ação Penal 536, que envolve o chamado mensalão mineiro, esquema de arrecadação irregular de recursos para a campanha eleitoral do PSDB para o governo de Minas em 1998, revelado por ISTOÉ em 2007, acaba de chegar à sua fase final. Na semana passada, o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, enviou ao STF uma denúncia de 84 páginas contra o deputado e ex-governador tucano de Minas Gerais Eduardo Azeredo. Ele é o principal personagem do processo e em 1998 tentava a reeleição para o comando do Estado. Em sua denúncia, o procurador reafirma todas as revelações feitas por ISTOÉ, acusa Azeredo de peculato e lavagem de dinheiro e pede uma pena de 22 anos de prisão – superior, por exemplo, à de Delúbio Soares, José Dirceu, José Genoíno e  João Paulo Cunha, para ficar nos integrantes do chamado núcleo político da AP 470, o processo do mensalão do PT. Na quinta-feira 12, o ministro Luís Roberto Barroso, relator do caso no STF, declarou que vai julgar a Ação Penal 536 com “o máximo de isenção e empenho”.

A pena tão alta contra Azeredo se justifica por uma razão que não se encontra nos autos. É que a AP 536 caminhou tão devagar que agora se transformou numa corrida contra o tempo. O ex-ministro Walfrido dos Mares Guia, por exemplo, um dos réus no processo, já se favoreceu com a prescrição e nem sequer será julgado. Como a decisão judicial será tomada 16 anos depois dos fatos ocorridos, qualquer condenação inferior a 20 anos permitirá que Azeredo deixe a Suprema Corte sem receber nenhuma punição prática, pois a denúncia estará prescrita. O fato de o julgamento ocorrer ainda no primeiro semestre, porém, pode trazer uma repercussão política em ano de disputa eleitoral. Os petistas avaliam que, no mínimo, uma condenação de Azeredo poderá reduzir os danos provenientes das condenações dos líderes do PT na AP 470. No PSDB, o raciocínio é diferente. Segundo o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, ainda que seja provada a existência de crimes no mensalão mineiro, ele não se refere a uma operação que contamine o partido, mas a um suposto esquema isolado na campanha de Azeredo.

O rei Joaquim
Presidente do STF derruba decisões tomadas durante as suas férias, divide a Corte, surpreende o meio jurídico e reanima especulações sobre seus sonhos políticos

O ministro Joaquim Barbosa retornou de suas férias e, em menos de uma semana, conseguiu gerar um clima de guerra e de incertezas na mais alta corte de Justiça do Brasil. “Ele tem se comportado como um reizinho, e não como o presidente de um órgão colegiado”, diz um ministro que pede anonimato. O fato é que, com quatro canetadas, o presidente do STF derrubou despachos assinados pelo ministro Ricardo Lewandowski, número 2 na hierarquia do Supremo e seu desafeto. Num deles, Joaquim desautorizou sentença do colega para que uma advogada deficiente visual entregasse petições em papel, em vez de empregar arquivos eletrônicos que ela tinha dificuldade de enxergar. Alegou que Lewandowski cometera “populismo jurídico”. Joaquim também reverteu decisão de seu substituto que autorizava as prefeituras de São José do Rio Preto, no interior de São Paulo, e Caçador, em Santa Catarina, a reajustar o IPTU.

Entre as alterações realizadas no trabalho de Lewandowski, contudo, a de maior impacto político envolveu o ex-ministro José Dirceu, condenado da Ação Penal 470. Em sentença assinada em 24 de janeiro, Lewandowski determinou a análise imediata, por parte da Vara de Execuções Penais, do pedido feito por Dirceu para trabalhar no escritório do advogado José Gerardo Grossi, um dos mais respeitados de Brasília. Joaquim revogou a decisão e, por causa disso, o mais célebre réu do mensalão pode completar 90 dias em regime fechado, embora tenha direito ao semiaberto pelo menos até que os seus embargos venham a ser julgados pelo plenário do STF. Para David Rechulski, especialista em direito penal e crimes contra a administração pública, o semiaberto não é apenas um benefício favorável a todo réu. “A condenação não pode ser só um castigo. O trabalho também é uma finalidade da pena.”

Lula de volta ao palanque
O ex-presidente não descarta nova candidatura, começa as caravanas para ajudar o PT e vai aos EUA tentar mudar o humor dos investidores

Depois de passar por uma minuciosa revisão médica e constatar que a sua saúde está em dia, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou a fazer aquilo que define como o que mais gosta: correr o Brasil e subir nos palanques em busca de votos. “Vou ser ativista político até morrer”, disse Lula na sexta-feira 14, em Belo Horizonte, durante evento que praticamente oficializou a candidatura do ex-ministro do Desenvolvimento Fernando Pimentel ao governo de Minas Gerais. O encontro com os militantes mineiros fez parte de um projeto de caravanas desenhadas pelo ex-presidente para apoiar os candidatos do PT em diversos Estados. A proposta é de que São Paulo, Minas e Paraná, por serem tradicionais trincheiras tucanas, recebam uma atenção especial. Na Caravana da Participação, em Minas, Lula motivou boa parte dos petistas ao deixar aberta a possibilidade de ele mesmo vir a disputar novas eleições. “Não tenho vontade de disputar eleição novamente. Mas essas coisas não dependem só da vontade pessoal”, afirmou o ex-presidente. “De qualquer forma, é uma questão para o futuro, em 2014 a nossa candidata é a presidenta Dilma.” No PT, porém, há grupos que defendem a candidatura de Lula já e até cogitam uma improvável articulação com o socialista Eduardo Campos.

A temível frota K
Sucessão de falhas nos trens reformados com contratos superfaturados provoca caos no metrô de São Paulo. Poucas vezes foi possível comprovar uma relação tão direta entre o desvio de recursos públicos e os prejuízos causados às pessoas

Na quarta-feira 12, o Centro de Controle Operacional do Metrô de São Paulo registrou uma falha no sistema de fechamento de portas de um trem que saía da estação Bresser-Mooca e tinha como destino a estação Corinthians-Itaquera, ambas integrantes da Linha-3 Vermelha. O problema impediu que o veículo seguisse viagem com as portas fechadas, colocando em risco a segurança dos passageiros. No mesmo dia – e no mesmo trajeto – houve um defeito no sistema de tração e o trem passou a operar no modo manual, em que o limite de velocidade permitido é de 30 quilômetros por hora. As duas falhas fizeram com que na estação Tatuapé o trem fosse evacuado. A paralisação, que ocorreu por volta das 18 horas, durou 30 minutos, impediu a passagem de outras composições e gerou atrasos na rede inteira. O trem que apresentou problema é conhecido como K-07, o mesmo que descarrilou em agosto do ano passado. “O Metrô quer acobertar essas situações, mas o K-07 é o único trem que opera com um supervisor de maquinista”, diz um funcionário do Metrô paulista que não quis se identificar. “Isso é um absurdo. É como se eles reconhecessem os perigos que o K-07 oferece às pessoas.”

IPTU: faltam recursos, sobra corrupção
Ministério Público investiga 84 empresas suspeitas de integrar um esquema bilionário de cobrança de propina para zerar dívidas do IPTU de São Paulo. Com o fim das fraudes, aumentos abusivos do imposto não seriam mais necessários

No fim do ano passado, o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, chegou a anunciar um aumento exorbitante do IPTU, alegando necessidade de recursos para financiar a saúde e a educação. O reajuste só não passou a vigorar em 2014 porque foi suspenso pela Justiça Estadual e pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ). Agora se sabe que as verbas existem e estariam disponíveis, se não fossem desviadas pelos dutos da corrupção.
O Ministério Público de São Paulo e a Controladoria-Geral do Município (CGM) investigam 84 empresas suspeitas de integrar um esquema de cobrança de propina para zerar dívidas milionárias do IPTU, ocultação de reformas de grandes empreendimentos para reduzir o cálculo do tributo e até rebaixamento do padrão de construções de luxo para diminuir o valor venal do imóvel. Esse esquema beneficiou shoppings, igrejas e até universidades e era coordenado pela mesma quadrilha de fiscais da prefeitura que desviou mais de R$ 500 milhões do Imposto Sobre Serviços (ISS). Segundo a denúncia, em alguns casos o recolhimento do tributo caiu pela metade. “Não é possível estimar ainda o prejuízo aos cofres públicos. A investigação está só no início, mas dá para ter a ideia de que são muitos milhões de reais desviados”, diz o promotor Marcelo Mendroni, do Grupo de Atuação Especial de Combate aos Delitos Econômicos.

Rota para Miami
Cubanos que vêm trabalhar no Mais Médicos usam o Brasil como escala para seguir para os EUA, onde a entrada de profissionais de saúde é facilitada pelo governo americano

Era 24 de janeiro, uma sexta-feira, quando o médico cubano Ortelio Jaime Guerra encerrou seu expediente em uma unidade básica de saúde da cidade de Pariquera-Açu, no interior de São Paulo. Integrante do programa Mais Médicos, Guerra chegara ao País em 20 de dezembro. Tinha bom convívio com pacientes e funcionários e sua adaptação no Brasil era tranquila, apesar de algumas derrapadas no português. Mesmo com todos os indícios de que tudo corria bem, ele não voltou ao seu posto na semana seguinte. Funcionários da Unidade Básica de Saúde perguntaram aos dois colegas cubanos do médico que também trabalham na cidade o que havia acontecido. “Ele foi embora”, disseram, sem saber mais detalhes. No dia 9 de fevereiro, a resposta veio pelo Facebook: Guerra escrevera uma mensagem admitindo ter deixado o País e viajado para os Estados Unidos. Cerca de três mil pessoas ficarão sem assistência até outro médico assumir seu lugar. À lista dos desistentes, somam-se outros 111 profissionais que abandonaram seus postos por diferentes motivos. A maior tensão, porém, pende para o lado dos cubanos que, como Guerra, veem no Mais Médicos uma oportunidade de conseguir o visto para morar e trabalhar nos EUA.

Já deixaram o programa 27 cubanos, segundo o Ministério da Saúde. O governo sabe do paradeiro de 24: além de Ortelio Guerra, 22 voltaram para Cuba (17 por problemas de saúde próprios ou de familiares) e uma ainda está no Brasil – Ramona Matos Rodriguez, cuja maior reclamação é receber US$ 400 frente aos R$ 10 mil pagos aos profissionais de outras nacionalidades. O Ministério da Saúde afirma que o valor pago a todos os profissionais é o mesmo, de R$ 10 mil, mas que, no caso dos cubanos, é o governo de Cuba que se responsabiliza pelo pagamento dos médicos conforme contrato preestabelecido. Dos outros três não se tem notícia. Não aparecem no trabalho nem comunicaram seu afastamento. ISTOÉ conseguiu localizar um deles, José Armando Corzo Gomez, que trabalhava em Timbiras, no Maranhão, e mora atualmente na Flórida. Gomez confirmou que saiu do Brasil no dia 25 de janeiro. O visto para os EUA foi tirado quando ele ainda estava aqui. No país, encontrou a família da esposa. Ela mora em Cuba, mas sua mudança está em processo de tramitação. “Não quero falar mais sobre isso para não comprometer a vinda da minha mulher”, disse. Gomez confirmou que viajou diretamente do Brasil e que não teve nenhum problema na saída. “Tinha visto e licença para trabalhar, estava tudo ok”, afirmou ele.

Época

Somos todos Santiago
O rojão que matou o cinegrafista Santiago Andrade atingiu cada um de nós. É preciso dar um “basta!” à escalada da intolerância e da violência nas manifestações de rua

Jornalistas são os olhos, ouvidos e vozes de uma nação. Olhos, ouvidos e vozes que trabalham para todos. É por meio dos olhos das câmeras que vemos o que acontece em locais distantes. Por meio dos ouvidos dos microfones que escutamos o que os outros têm a nos dizer. Por meio das vozes que narram as histórias que tentamos entender o mundo, compreender nosso tempo, alcançar um conhecimento modesto sobre o pouco que cabe a cada um de nós saber nesta vida. Sem olhos, sem ouvidos, sem vozes, restam apenas ignorância, escuridão, silêncio.

Qualquer ataque à imprensa é um ataque a esses olhos, ouvidos e vozes. Quem ataca a imprensa ataca olhos, ouvidos e vozes que trabalham para si próprio, que estendem sua própria visão, sua própria audição e sua própria voz. Quem ataca a imprensa não quer apenas cegar o outro – quer também ficar cego. Não quer apenas ensurdecer o outro – quer também ficar surdo. Não quer apenas calar o outro – quer também ficar mudo.

Ser os olhos de todos nós era o trabalho do jornalista e cinegrafista Santiago Andrade, da Rede Bandeirantes de Televisão. Santiago foi atingido com um rojão na cabeça, enquanto trabalhava na cobertura de protestos contra o reajuste da tarifa de ônibus, no Rio de Janeiro na quinta-feira, dia 6 de fevereiro. Sua morte na última segunda-feira, dia 10, fez dele a primeira vítima a morrer num conflito provocado pela espiral de manifestações que tomaram o país desde as jornadas de junho do ano passado, quando milhões de brasileiros foram às ruas protestar inicialmente contra reajustes nas tarifas de ônibus, depois contra carências de toda sorte.

Desde então, as manifestações minguaram em participação e passaram a ser monopolizadas por grupos de ativistas violentos – entre os quais praticantes da tática anarquista conhecida como black bloc. Eles transformaram em meta o vandalismo contra governo, polícia, imprensa, bancos, estabelecimentos comerciais, monumentos – e tudo aquilo que possa estar associado às instituições democráticas. Não é uma atitude desprovida de racionalidade, como lembra o cientista político Fernando Luís Schüler, em artigo na edição de ÉPOCA desta semana. Trata-se de uma ideologia antiga e tosca, inaceitável num Estado democrático de direito. Ela procura justificar a violência como reação à “violência do Estado” e inspira a ação dos ativistas, recrutados entre jovens com amplo acesso à internet, formação intelectual de menos – e irresponsabilidade de mais.

José Eduardo Cardozo: "Chega. É hora de dar um basta"
O ministro da Justiça recebeu da presidente Dilma Rousseff a incumbência de acabar com a violência nas manifestações. E diz: “Temos de ser rápidos e precisos”

O ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, é o bombeiro-geral da República. À frente da Pasta há três anos, desde o começo do governo, Cardozo é o homem convocado pela presidente Dilma Rousseff quando uma encrenca aparece em Brasília. Da caça a fugitivos da Justiça, como o petista Henrique Pizzolato, a investigações sobre cartel de trens. Recentemente, Cardozo recebeu de Dilma o que talvez seja sua mais difícil encrenca até agora: liderar Brasília e os governos estaduais num esforço para pôr fim à violência que define os protestos em curso no país – e com urgência. Nesta entrevista exclusiva a ÉPOCA, ele adianta as medidas que são preparadas para os próximos dias.

ÉPOCA – Qual a reação do senhor ao saber da morte do cinegrafista Santiago Andrade?
José Eduardo Cardozo – Fiquei bastante chocado, como acho que todos os brasileiros ficaram. Conquistamos a democracia e a liberdade de expressão no Brasil a duras penas. Muitas pessoas lutaram por isso. Foram presas, perderam suas vidas. Esse é um valor muito caro para quem viveu o período da ditadura militar. De repente, pessoas usam a liberdade de manifestação de maneira injustificada, para depredar, atingir outras pessoas – e, para completar, até para matar. É difícil não ficar revoltado. É por isso que, nesta hora, devemos refletir com muito cuidado – e com muita racionalidade – para que a emoção não nos leve a tomar medidas indesejáveis, que não resolvam o problema, ou até que o piorem. Como governante e ministro da Justiça, tenho de buscar a melhor alternativa, seja do ponto de vista de ações políticas, legislativas ou administrativas, para impedir que episódios assim se repitam. E que protestos com episódios de violência, seja da polícia ou dos manifestantes, continuem ocorrendo. Chega. É hora de dar um basta.

Natan Donadon: um simples presidiário

Por oito meses, ele foi deputado, enquanto vivia numa cadeia. Finalmente cassado pela Câmara, terá de viver agora sem liberdade nem mandato

Há duas semanas, numa caminhonete da Polícia Legislativa a caminho da penitenciária da Papuda, em Brasília, dois funcionários da Câmara dos Deputados estavam em dúvida sobre como tratar um detento. “Chamo ele de deputado?”, disse um deles. “Não sei. Acho que não. Ele não é mais deputado”, disse o outro. “É, sim. Ele não foi cassado. Ele ainda é deputado”, disse. “Mas hoje ele é detento”, disse o outro. Sua Excelência, o deputado federal Natan Donadon – ou detento Donadon –, foi levado à presença dos dois funcionários da Câmara para ser formalmente notificado de que passaria por mais um processo de cassação. Chegou como presidiário. Vestia roupa branca e mantinha os braços para trás. Quando soube do que se tratava, logo mostrou os modos de deputado: “Vocês são da Câmara? Cassação de novo? De novo essa palhaçada? Já fui inocentado! Por que me julgarão de novo? Isso é vadiagem!”. Os funcionários ouviram tudo em silêncio. “O senhor, por favor, assine aqui”, disse um deles, apresentando a notificação. Em nenhum momento o chamaram de “deputado”.

Donadon perdeu o mandato de deputado pelo PMDB de Rondônia na semana passada, mas há oito meses não o exercia. Condenado a 13 anos de detenção por causa de um desvio de R$ 8 milhões da Assembleia Legislativa do Estado, em junho passado tornou-se o primeiro deputado a ir para a cadeia no exercício do cargo. Em agosto, a Câmara apreciou  um pedido de cassação de Donadon – em votação secreta. Naquele dia, Donadon saiu da cela, foi à Câmara e transformou a tribuna num púlpito. Evangélico, operou um desses milagres da política. Seus pares, comovidos com as duras provações de Donadon, o absolveram. Natan voltou para a cadeia de camburão, mas com mandato. A péssima repercussão obrigou a Câmara a buscar uma saída. O PSB fez uma representação para cassar o mandato de Donadon por quebra de decoro. Como se estar preso por corrupção não fosse suficiente para um político perder o mandato no Brasil, o PSB argumentou que Donadon quebrara o decoro parlamentar ao ser fotografado com algemas – e por ter votado em favor de si mesmo em agosto. Entrementes, a Câmara acabou com o voto secreto nas cassações de mandato.

Na manhã da última quarta-feira, Donadon deixou a cela que ocupa com três colegas para ir ao parlatório conversar com seu advogado, Michel Saliba. Separado por um vidro, ele deu ao advogado, usando um telefone, argumentos para sua defesa no plenário da Câmara. Donadon não queria ir à sessão daquela noite. No final da tarde, mudou de ideia. Foi levado por policiais numa caminhonete. Vestia a roupinha branca de detento. Foi recebido na Câmara pelo deputado Cláudio Cajado (DEM-BA). Era cumprimentado por colegas enquanto esperava a sessão. De vários, ouviu: “Natan, votarei por sua cassação. Sou obrigado, porque é voto aberto”. Estava claro: sem a máscara do voto secreto, os deputados não agiriam mais como black blocs do Parlamento.

Rosângela, mulher de Donadon, levou ao marido um terno cinza, uma camisa e uma gravata azul. Ele transmutou-se de presidiário em deputado. Queria discursar. O advogado Saliba tentava desencorajá-lo. “Não adiantará nada, mas vai de sua consciência”, disse Cajado, preparado para ministrar a extrema-unção política ao colega. No plenário, como sempre ocorre em cassações, os deputados estavam incomodados. Perto do cafezinho e da TV, um grupinho, liderado por Chiquinho Escórcio (PMDB-MA), queria ir logo embora de Brasília. “Vota! Vota!”, pediam à Mesa. Sandro Mabel (PMDB-GO) evitou o constrangimento maior: “Natan, a situação é muito delicada. Ouça seu advogado, ele está sentindo o plenário”. Donadon desistiu do discurso e  apenas ouviu a fala do advogado.

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Carta Capital

O Brasil de Sheherazade a D. Yvonne
Olho por olho vs cidadania. Ódio vs solidariedade. Privilégio vs. igualdade.

Editorial (Mino Carta)
Pasta Brasil, emoliente
Vem à memória uma conversa de 34 anos atrás com Claudio Abramo, descrente e desalentado

Os antigos romanos definiam bárbaros os povos que viviam fora das fronteiras do seu império, das estepes russas à Escócia. O bárbaro não poderia dizer civis romanus sum e tal era sua barbárie. Ouço e leio esta palavra pronunciada com frequência e muita ênfase em relação a situações do Brasil dos dias de hoje. Agora vejamos: de fato, o que significa barbárie por aqui?

Uma investigação honesta a respeito leva a conclusões penosas, além de óbvias, todas do inexorável conhecimento até do mundo mineral. A barbárie impõe-se no país que ocupa o quarto lugar na classificação dos mais desiguais do mundo. Ou seja, o Brasil extraordinariamente beneficiado pela natureza e que, entretanto, bate recordes em matéria de péssima distribuição da riqueza para manter a maioria da população em níveis de vida de muito a excepcionalmente baixos.

A barbárie triunfa quando a minoria se empenha em manter o monstruoso desequilíbrio social, e não hesita para tanto a recorrer à violência, como nos é dado verificar nas nossas plagas. E se fortalece quando a mídia nacional, salvo raríssimas exceções, doutrina a favor da desigualdade e de quem nada faz para combatê-la.

A barbárie resulta, como se dá entre nós, da ausência de partidos capazes de intermediar em proveito da nação em peso em vez de pretender uma democracia sem povo. Houve um partido que se atribuiu esta capacidade e aparentemente a tinha, o PT, e, no poder, portou-se como os demais, clubes recreativos de predadores, eméritos e nem tanto.

Dilma escolhe o adversário
Por ora, trata-se de Eduardo Campos. E se Marina Silva entrar no páreo?

Na festa de comemoração, no dia 10, dos 34 anos de vida, o Partido dos Trabalhadores parece ter tomado uma decisão importante quanto ao rumo da batalha presidencial pela reeleição da presidenta Dilma Rousseff. Os petistas indicam que farão do governador de Pernambuco, o presidenciável Eduardo Campos (PSB), o principal adversário nessa etapa inicial da corrida eleitoral.

Despida dos rituais da Presidência, Dilma discursou na festa petista com os recursos de um velho truque de palanque. Mandou chumbo na oposição. Mas entre os oposicionistas havia um alvo preciso, Eduardo Campos, ao qual se dirigiu sem dar o nome. Ela falou genericamente aos “pessimistas” descrentes do Brasil.

“Eles têm a cara de pau de dizer que o ciclo do PT acabou, que o nosso modelo se esgotou”, atacou a candidata. Quem primeiro desfraldou a bandeira foi Eduardo Campos. Ex-aliado e ex-ministro de Ciência e Tecnologia do governo Lula, inscreveu-se com esse prelúdio na lista de presidenciáveis. Na sequência apoiou-se em discursos a respeito de uma “nova política” e outras melodiosas aos ouvidos conservadores.

Fazer de Campos um adversário preferencial não nasce de revanchismo de petistas gerado pela troca de camisa nem é temor do enfrentamento com o tucano Aécio Neves. A razão é outra. Os petistas usam conhecida tática comum em certos momentos do jogo eleitoral. Ela permite ao candidato mais forte escolher o adversário de sua conveniência.

Tudo indica que essa possível opção por Campos tem uma lógica guiada principalmente pelos números das pesquisas. A mais recente, de meados de janeiro, circulou restritamente por não ter sido registrada no Tribunal Superior Eleitoral. Nela há somente uma variação. A pequena queda do tucano de 15% para 13%. O porcentual de Dilma gira em torno dos 43%, onde está empacada. Campos patina em torno de 8%.

Vai fundo no raso
E eis que o SBT revela essa fina flor denominada Rachel Sheherazade. Teve seus 15 minutos de fama. “Ela é um dos nossos”, festejam os nostálgicos da escravatura

Os franceses, com aquele sarcasmo difícil de copiar, dizem dos comentaristas de tevê que eles exercitam, com requinte, “la superficialité profonde”. Trata-se de uma arte que transita entre o kitsch e o pastiche. Arte, não – artimanha. Você faz cara de quem vai expor verdades estrepitosas, conceitos de extraordinária originalidade, e acaba entregando dois ou três clichês muito dos rastaqueras.

De todo modo, a consciência crítica exercida pelos comentaristas franceses, a pluralidade de opiniões geralmente expostas, a tradição de debate democrático que a Europa ainda cultiva, tudo isso estabelece uma distância quilométrica, transatlântica para com a indigência tosca, intolerante, partidária dos pundits da tevê americana abrigados na Fox News (Bill O’Reilly, Ann Coulter), na CNN (Farred Zakaria, Wolf Blitzer) e em programas como Meet The Press, da NBC (David Gregory, Mike Murphy). Aí campeia o espírito de arquibancada. A superficialidade profunda vira sectarismo rasteiro.

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