Nas revistas: Dirceu arma seu bunker

Ex-ministro da Casa Civil contratou jornalistas e advogados e tem investido na articulação de apoios, informa Istoé. Já a revista Época mostra as diferenças do PT de Lula e de Dilma

Istoé

Dirceu arma seu bunker

Desde maio, o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu prepara um arsenal pesado para atravessar o que chama de “um dos momentos mais críticos” de sua trajetória política. Para não ser condenado a até 12 anos de prisão, e acabar alijado definitivamente da vida pública, o homem que um dia presidiu o PT e foi o principal ministro do governo Lula montou um bunker de assessores e advogados, investiu na contratação de uma empresa especializada em redes sociais, passou a articular manifestações de apoio com sindicalistas, intelectuais e artistas e se reaproximou de organizações estudantis.

Quem comanda a defesa de Dirceu é José Luiz Oliveira Lima, dono de um escritório com 11 advogados, localizado no 32º andar do prestigiado Edifício 50, na Avenida São Luiz, em São Paulo. Aos 45 anos, Juca, como gosta de ser chamado, especializou-se em Direito Penal, especialmente em delitos tributários. Já defendeu o banqueiro Daniel Dantas, acusado de lavagem de dinheiro e crime financeiro. Também teve entre seus clientes famosos o ex-banqueiro italiano Salvatore Cacciola. Embora esteja ao lado de Dirceu desde 2005, Juca pretende, com a iminência do julgamento, intensificar seu trabalho.

Para espalhar essas ideias da defesa pelo País, José Dirceu age em várias frentes. A frente de comunicação foi reforçada com a contratação do jornalista Luiz Fernando Rila, que se licenciou da empresa FSB para assessorar exclusivamente o ex-ministro durante o julgamento do mensalão. Desde o fim do último mês, Rila tem feito a “ponte” de José Dirceu com a imprensa. Ao seu lado, trabalha Edmilson Machado, afastado da empresa Máquina da Notícia para dedicar-se a Dirceu. Os dois unem-se a Aristeu Moreira, responsável há dois anos pelo blog do ex-ministro.

Os fantasmas de Dutra

O deputado federal Domingos Dutra, do PT do Maranhão, é uma dessas vozes que costumam se erguer para apontar erros de outros políticos. Mas agora Dutra está do outro lado. Membro da Comissão de Direitos Humanos, o parlamentar é acusado de contratar funcionários fantasmas, fornecer assessores para o escritório de advocacia de sua mulher, Núbia Dutra Feitosa, de cobrar a devolução de parte dos salários desses funcionários e até doações de campanha. O caso foi primeiro denunciado à Polícia Civil maranhense pela auxiliar de escritório Regiane Abreu dos Anjos. Em boletim de ocorrência, datado de 25 de abril do ano passado, a mulher relata que trabalhou para Núbia por três meses e, após ser demitida, tomou conhecimento de que era funcionária da Câmara dos Deputados. Dutra a manteve na folha de pagamento até aquele mês.

O caso de Regiane Abreu se soma a vários outros, segundo relato de Márcia Rabelo, ex-chefe-de-gabinete de Dutra. Em entrevista à ISTOÉ, ela confirmou que a mulher do deputado usa assessores parlamentares para atividades particulares. “Eu servi de capacho dela muitas vezes e tinha funcionária do gabinete que passava três dias redigindo petição para ela”, diz Márcia, que também revela que foi obrigada por Núbia a devolver parte do salário. “Depositei na conta de uma menina que trabalhava com ela. Tenho o recibo.” Ao analisar cópias de folhas de frequência dos funcionários de Dutra, de outubro de 2009 a julho de 2011, a ex-chefe-de-gabinete identifica 16 funcionários que ela julga serem fantasmas. “Nunca ouvi falar dessas pessoas, nem em Brasília nem em São Luís.”

PMDB sem energia

Especialista no setor, a presidenta Dilma Rousseff está decidida a controlar de perto a área energética do País e para isso deve afastar o PMDB de cargos importantes do governo. Desde que trocou o Ministério de Minas e Energia pela Casa Civil em 2005, Dilma nunca deixou de acompanhar o setor, embora tivesse dificuldades para interferir nas gestões controladas por peemedebistas. Ao assumir a Presidência, no entanto, ela começou a pôr em prática sua estratégia de deixar o setor cada vez mais perto de si, com a troca dos comandos da Eletrobras e de Furnas, e a nomeação de Graça Foster para a presidência da Petrobras.

Uma das primeiras medidas de Foster, técnica de inteira confiança de Dilma, foi exonerar diretores indicados para a estatal por políticos ligados ao PMDB. Caíram Jorge Zelada, da Área Internacional, que tinha o apoio pelas bancadas de Minas Gerais e Rio de Janeiro, e Paulo Roberto Costa, de Abastecimento, que devia seu cargo a um consórcio formado por PMDB, PP e PT. Agora, a troca de comando deverá ocorrer na Transpetro, pilotada pelo ex-senador Sérgio Machado, indicado pelo PMDB na cota de Renan Calheiros (AL). Há alguns dias, a própria presidenta informou a Renan, líder do partido no Senado, que fará a substituição.

Se é assim, para que CPI?

Na última semana, deputados e senadores deixaram claro que a CPI do Cachoeira não vai investigar nada além do que já tenha sido descoberto pela Polícia Federal. Trata-se da primeira Comissão Parlamentar de Inquérito que se recusa a ouvir denúncias, se nega a convocar autoridades apontadas como partícipes dos esquemas montados pelo bicheiro e aplaude depoentes investigados pela Procuradoria-Geral da República. No salão da CPI, oposição e governistas protagonizam bate-bocas públicos. Longe dos holofotes, promovem acordos para livrar seus pares de quaisquer constrangimentos. Um dos blindados é o ex-governador paulista José Serra (PSDB).

No início de maio, reportagem de ISTOÉ mostrou que Serra foi o responsável pela entrada da Delta, a empreiteira ligada ao bicheiro, em São Paulo, tanto na prefeitura da capital como no governo estadual, e que contratos assinados pela construtora estavam sob investigação do Ministério Público, com indícios de superfaturamento e de conter aditivos irregulares. Há três semanas, o ex-diretor do DNIT – departamento do Ministério dos Transportes responsável pelas estradas – Luiz Antônio Pagot revelou à ISTOÉ que em 2010 foi procurado pelo governo de Serra para liberar aditivos irregulares a empreiteiras que participaram da construção do eixo sul do Rodoanel, entre elas a Delta. Ele afirmou que a pressão era exercida por Paulo Vieira de Souza, conhecido como Paulo Preto, então diretor da Dersa, a empresa paulista responsável pelas rodovias.

Época

Os dois PTs

Uma linha divide a estrela do PT. Seu nome: mensalão. De um lado, estão os acusados no maior escândalo de corrupção do governo de Luiz Inácio Lula da Silva, como José Dirceu e José Genoino. De outro, os integrantes do governo de Dilma Rousseff, que querem distância da banda enrolada do partido. Alguns membros do Partido dos Trabalhadores já levantam a tese dos “dois PTs”. O PT de Lula e o PT de Dilma. O primeiro lado é o defendido pelo ex-presidente, que, no afã de proteger seu legado, operou nos bastidores para adiar o julgamento do mensalão. Agora que foi marcado, ele tenta minimizar os prejuízos dos “réus companheiros”. Na outra ponta, a presidente Dilma e seu governo sabem que só têm a perder com o envolvimento com o “outro lado”. O PT de Lula, afinal, é o passado. O de Dilma é o futuro.

Há outros sinais da divisão no PT. A atitude da senadora Marta Suplicy na campanha eleitoral deste ano em São Paulo expôs as fragilidades do centralismo nas decisões petistas. Preterida em favor de Fernando Haddad, Marta decidiu enfrentar Lula. Assim, deixava claro a Dilma com qual dos dois PTs pretende ficar. Outro indício foi o desconforto de Lula com a atitude do governo federal, que deixou que a CPI do Cachoeira – incentivada por Lula contra os interesses da presidente da República – quebrasse os sigilos da empreiteira Delta. O PT, com isso, quase perdeu o controle da comissão. O cochilo, segundo ÉPOCA apurou, embute a estratégia de uma ala do governo: jogar aos leões a empreiteira líder em obras e negócios no Programa de Aceleração do Crescimento. Lula quase saiu do sério. Ele não chegou a reclamar diretamente com Dilma, mas externou seu desconforto a auxiliares e parlamentares de sua confiança. “A relação entre Lula e Dilma não chegou a azedar, mas deu uma esfriada”, afirmou um deles a ÉPOCA.

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