Matarazzo se desfilia do PSDB e diz que Dória comprou votos

Vereador diz em carta, a dois dias das prévias tucanas que escolherão indicação para a Prefeitura de São Paulo, que adversário apoiado por Alckmin cometeu atos “ilegais, imorais e indecentes”

O vereador de São Paulo Andrea Matarazzo anunciou nesta sexta-feira (18) sua desfiliação do partido em razão de atritos durante prévias para a escolha do candidato tucano à Prefeitura de São Paulo. A decisão é tomada por Matarazzo dois dias antes do segundo turno da disputa com o empresário João Dória Jr., o candidato mais votado no primeiro turno. Em carta em que vocifera contra Dória, que tem o apoio do governado de São Paulo, Geraldo Alckmin, Andrea acusa a chapa que lidera a corrida partidária de comprar votos e praticar atos “ilegais, imorais e indecentes”.

“Acabo de anunciar, com muita tristeza, minha desfiliação do PSDB. Diante dos acontecimentos nas prévias, não me resta outra alternativa do que me desfiliar do partido, depois de 25 anos”, registra o vereador em trecho da carta.

Matarazzo diz ter visto, no dia do sufrágio em primeiro turno, “o intensivo uso da máquina do governo do estado, bem como o ilegal abuso do poder econômico”. “Assim, ao me deparar com as barbáries ocorridas ao longo do processo das prévias percebi que ele se transformou na negação do que, desde a sua origem, o PSDB pregou. É a isto que não me subordino”, reclamou, acrescentando que “a pior das afrontas” foi a compra de votos.

Dória negou ter ocorrido qualquer tipo de irregularidade durante as prévias do partido. Em declaração ao portal G1, ele rebateu a acusação de ter feito qualquer tipo de declaração lançando suspeitas sobre a disputa. “O vereador Andrea Matarazzo está desestabilizado emocionalmente por conta da primeira derrota que sofreu nas prévias e pela iminência de ser derrotado pela segunda vez no segundo turno das prévias. Sair atirando não é um gesto correto de alguém que se diz democrata”, afirmou.

Confira a íntegra da carta:

“Prezados,

Venho por meio desta reiterar minha indignação diante do descalabro ocorrido nas prévias para escolha do candidato do PSDB à Prefeitura de São Paulo.

Faço isso em respeito aos paulistanos, aos mais de 117 mil votos que obtive nas últimas eleições; em respeito aos meus pares, os vereadores do PSDB, representantes populares aguerridos, que fazem a justa oposição ao PT na cidade, e que me confiaram a liderança da maior bancada na Câmara Municipal; em respeito aos membros da Comissão Executiva Municipal do PSDB, da qual faço parte; e em respeito aos milhares de militantes do PSDB em nossa cidade.

Como líder da bancada de vereadores e representante da Executiva Municipal tenho o dever de multiplicar esforços para fortalecer a sigla – algo que sempre fiz e faço com dedicação e empenho – e a responsabilidade de denunciar procedimentos que denigrem o partido.

Como pré-candidato a prefeito de São Paulo, cidade onde nasci, cresci e me formei politicamente, dentro dos preceitos da ética e da transparência, tenho a obrigação de exigir lisura nos procedimentos de escolha, que, longe de consagrar a democracia partidária, avilta não só os filiados, mas a própria democracia.

Aprendi com Mario Covas o significado da luta e do trabalho pela Social Democracia. Segui trilhando esse caminho ao lado de lideranças como Fernando Henrique Cardoso, Alberto Goldman, José Serra, Aloysio Nunes, Arnaldo Madeira, José Gregori e tantos outros.

São essas as raízes do PSDB. São essas as minhas raízes, que se frutificaram em mais de 25 anos de militância.

O PSDB veio à luz para oxigenar a vida política nacional. Para combater formas ossificadas de se fazer política, para dar vez e voz a militantes sufocados pelo caciquismo, pela subordinação da política a projetos pessoais e mandonistas. Para fazer frente aos que utilizavam a máquina do Estado para obter maioria, sufocando qualquer possibilidade de democracia interna.

Assim, ao me deparar com as barbáries ocorridas ao longo do processo das prévias percebi que ele se transformou na negação do que, desde a sua origem, o PSDB pregou.

É a isto que não me subordino.

Contra o que vi, acompanhado de valorosos companheiros, no dia do sufrágio: o intensivo uso da máquina do governo do Estado, bem como o ilegal abuso do poder econômico.

Ao longo do fatídico dia 28 de fevereiro assistimos perplexos a ostensiva e irregular publicidade eleitoral; a prática escancarada de boca de urna (definida como crime eleitoral); o transporte massivo de eleitores; a oferta de alimentação; a realização de festas com oferecimento de bebida alcoólica; a violência nos locais de votação; o impedimento dos fiscais exercerem suas funções; a afronta ao exercício do voto secreto; a intimidação física e moral de eleitores.

E a pior das afrontas: a compra de votos.

Tudo, absolutamente tudo, registrado por meio de fotos, vídeos, depoimentos e pela grande imprensa, que tornou público à sociedade aquilo que o PSDB mais condena em seus oponentes: o vale tudo eleitoral.

O processo, completamente contaminado pelo arranjo do pré-candidato João Dória Jr., foi definitivamente colocado sob suspeição a partir das próprias declarações do postulante, confessando à imprensa que faz pagamentos mensais a militantes tucanos para obter apoio nas prévias.

Isso é ilegal, imoral e indecente.

Destaca-se ainda o flagrante uso da máquina estatal para auxiliar em favor de uma candidatura. Mais grave: antecipando a campanha presidencial de 2018, com um cabo eleitoral passando ao largo dos interesses locais, das demandas e da vida do cidadão paulistano. Nada disse é irrelevante ou ridículo, como foi afirmado.

Estamos todos em risco. Dada a passividade com a qual o processo está sendo tratado, fundamentado em abuso de poder econômico e na falta de conduta moral de uma das candidaturas, todos nós seremos coniventes com o erro, com o ‘tudo pode’, com a ilegalidade.

Nem mesmo a apuração das gravíssimas denúncias encaminhadas por iminentes representantes do nosso partido, no dia do pleito, recebeu tratamento adequado. Primeiro, a relatoria ficou a cargo de um aliado confesso do pré-candidato denunciado, que protelou a análise, permitindo – e até incentivando - que os mesmos métodos inaceitáveis se repetissem no segundo turno.

Não bastasse, a Executiva do Diretório Estadual interveio no Diretório Municipal e, com mãos de ferro, cassou a decisão de adiamento da data do turno final, o que permitiria a apuração de denúncias e evitaria a consagração da ilegitimidade da disputa.

Jamais considerei a hipótese de ser submetido a tamanha ignomínia.

Nunca pude me imaginar em uma agremiação em que parte de seus membros são capazes de chancelar a compra de votos, o uso da máquina, o crime eleitoral. Jamais imaginei que um grupo no partido que ajudei a construir, que apoiei em vitórias e derrotas, decidisse rifar o futuro da maior cidade do país. E que viesse dar aval a um processo viciado e ilícito.

O PSDB ainda é um partido formado por uma parcela de pessoas dignas, militantes dedicados e batalhadores, lideranças inquestionáveis, mas que também foram atropeladas por essa forma arcaica, atrasada de se fazer política. Sou profundamente grato a essa militância tucana que não se dobrou à pressão e exerceu seu direito de votar livremente na disputa interna. Ela sempre terá o meu respeito.

Mas o caminho que a legenda tomou nessas prévias é inaceitável. Além de beneficiar uma candidatura, atropelou o princípio da isonomia na disputa interna e desconsiderou o mais importante: o destino dos milhões de paulistanos.

Diante de tudo isso, depois de 25 anos de dedicação e lealdade, não tenho mais condições de me manter no PSDB.

Tomo tal atitude depois de muito refletir, com dor no coração. Mas é o único caminho que me resta.

Pelo exposto, solicito minha desfiliação do Partido da Social Democracia Brasileira

Andrea Matarazzo”

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