Internautas usam bigode em campanha contra Sarney

Fábio Góis

Marca registrada do protagonista da crise instalada há meses no Senado, o farto bigode do presidente da Casa, José Sarney (PMDB-AP), ganhou as páginas jornalísticas da Inglaterra. Intitulado “The great Brazilian moustache revolution” (algo como “a grande revolução brasileira do bigode”), um artigo veiculado no último dia 23 no jornal britânico The Guardian trata da “greve do bigode” que, lançada no Brasil por internautas antenados com as questões do país, manifesta o descontamento de eleitores com o comportamento dos políticos.
 
“Eles (os bigodes) já foram símbolos de poder e sofisticação. De Hulk Hogan [astro da luta livre e ator norte-americano] a Adolf Hitler, Albert Einstein e Edward Elgar [compositor britânico], o bigode estava em todo lugar“, diz a introdução do artigo, que estampa a foto de uma brasileira com um bigode preto obviamente falso. Pelas regras, só mulheres e crianças podem participar do manifesto virtual com bigodes falsos, segundo o blog responsável pelo movimento do bigode .
 
A página reúne milhares de adesões em todo o mundo e está conectada ao Twitter, novo fenômeno de comunicação da grande rede. O recado é claro: “Greve do bigode – Só tiro o meu quando o Senado tirar o dele”, diz o cabeçalho do blog. Logo abaixo, uma fotomontagem em que Sarney se esquiva, com olhar assustado, de uma ameaçadora navalha empunhada por uma mão envolta em luva de couro.
 
Os manifestantes virtuais atuam com irreverência e criatividade, sempre com algum tipo de bigode. A jovem Jamile Massahud, por exemplo, sobrepôs à boca um croissant que até lembra o bigode do cacique peemedebista. “Um legítimo bigode francês”, registra Jamile. Mateus Vilela, mostrando estar por dentro dos fatos, dosa irreverência e seriedade ao posar com um chapéu de bobo da corte e um exemplar do jornal O Estado de S. Paulo, cuja manchete do dia 15 de julho diz que “Governo controla apuração sobre Petrobras e Sarney”. Outros bigodudos utilizam a mesma capa de jornal.
 
Fotos e imagens com distorções; bigodes forjados em longos cabelos femininos, chantili, gravata ou caneta Bic; documentos de bigodudos familiares ancestrais; e até um bebê com seu biquinho devidamente enfeitado compõem o mosaico de recursos dos bem-humorados manifestantes. Todas as fotos registram a data em que cada internauta iniciou a “greve”. Inclusive os Beatles aderem à mobilização, em foto de capa de disco inteligentemente postada com o lembrete: “Em greve desde 1966 – quando o bigode do mal assumiu o governo do Maranhão”. A foto já tem um voto garantido, do internauta “Nery17”.
 
Tanto os participantes quanto os demais internautas podem escolher o melhor bigode. Para votar – um voto para rapaz e garota por endereço de e-mail –, “mande um e-mail com o nome do dono do bigode no campo Assunto da mensagem”, explica o blog.
 
Os melhores bigodes vão ganhar uma camiseta na qual o Charlie Brown, personagem do desenho animado Snoopy, empunha um revólver e ostenta um bigode que remete a outro personagem – este, do cinema: “Todo Charlie Brown tem seu dia de Charlie Bronson. E vice-versa”, explica a frase-legenda. “É uma camiseta com uma mensagem de coragem pra lembrar do que somos capazes”, explica o blogueiro.
 
Borat
 
O organizador da campanha, Ricardo Silveira, 30 anos, explica que, para participar de maneira efetiva, basta estampar um bigode (“bigodes falsos, somente as garotas”, ele lembra), enviar uma foto “preferencialmente com jornal do dia”, trocar o avatar (figura de identificação) em páginas eletrônicas como Orkut, Facebook e MSN, e bigodudo permanecer “até o Sarney cair”. “É uma maneira de mobilizar pessoas que pensam que [o assunto] política é tedioso e que normalmente não se envolvem com o assunto”, explicou Silveira ao The Guardian
 
Assinado por Tom Phillips, o artigo do The Guardian diz que os tais eleitores reagem às seguidas denúncias envolvendo Sarney, “um poderoso suporte da base governista”, recorrendo a uma “bizarra forma de protesto on-line” com suas versões de bigode. “Os bigodes são uma referência a José Sarney, presidente do Senado brasileiro, recorrentemente atingido por acusações de nepotismo e apropriação indevida, e famoso por sua espessa moita de cabelo que adorna seu lábio superior”, descreve o jornalista londrino.
 
Com doses do conhecido humor inglês, o artigo considera que a “greve do bigode”, cujo êxito ainda não estaria claro, pode trazer efeitos negativos para os próprios manifestantes. Segundo Tom, a “aparentemente furiosa” namorada de outro cabeça do movimento, Viton Araújo, disse que tem tentado cortar o bigode de seu amado enquanto ele dorme. Já Ricardo Silveira virou “alvo” de gaiatos nas cercanias de seu escritório, que o chamam de Borat, o bigodudo personagem criado pelo humorista britânico Sacha Baron Cohen. 
 

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