Governistas apontam conciliação, enquanto oposição critica Dilma

Em meio à ressaca da disputa pela Presidência da Câmara, que deixou sequelas entre lideranças de PT e PMDB, mensagem de Dilma Rousseff soou de maneiras distintas no Congresso

A mensagem presidencial lida nesta segunda-feira (2) pelo primeiro secretário da Câmara, Beto Mansur (PRB-SP), na sessão de inauguração da legislatura (2015-2016), não parece ter sido a mesma para parlamentares de governo e oposição ouvidos pelo Congresso em Foco. Em meio à ressaca da disputa pela Presidência da Casa no seio da base aliada, que deixou sequelas entre as lideranças de PT e PMDB, a retórica da presidenta Dilma Rousseff parece ter sido feita sob encomenda para a audição governista, sob a égide do diálogo, mas totalmente despropositada para membros da oposição – que, na esteira da primeira derrota do Planalto em 2015, já apontam o enfraquecimento do PT no Congresso.

“Não tem muitas surpresas, porque ela reafirmou aquilo que disse publicamente, e quando esteve aqui na sua posse. Definindo como prioridade o tema do combate à corrupção, o tema da reforma política como algo essencial para criação de mecanismos que previnam as ações de corrupção. Além do debate sobre a reforma tributária, que é outra exigência que o país tem, e o compromisso com o ajuste fiscal, que não prejudique os trabalhadores, mas devolva a política econômica do governo à sua credibilidade”, disse à reportagem o líder do PT no Senado, Humberto Costa (PE).

Para o petista, o ano não começa tão desfavorável para o PT com a vitória do rebelde Eduardo Cunha (PMDB-RJ) contra o candidato do Planalto, Arlindo Chinaglia (PT-SP). Até porque o senador Renan Calheiros (PMDB-AL) permanece, com o apoio do governo, lembra Humberto, no comando da Casa.

“No Senado, tivemos um bom resultado, que mostrou uma harmonia entre os partidos que compõem a base do governo. Aqui na Câmara, é preciso analisar quais foram as circunstâncias que levaram a esse resultado. Pode ser que seja algo que não tenha tanto a ver com o governo. É preciso que os próprios deputados façam essa avaliação e vejam um caminho para superar [o racha na base]”, acrescentou Humberto Costa.

Ex-líder do DEM na Câmara, Ronaldo Caiado (GO) discorda do agora colega de Casa legislativa. Escolhido para liderar também a bancada do partido no Senado, ele acredita que o PT está isolado no Congresso e sem capacidade de diálogo. “Você vê algo interessante nesse momento. Esse clima anti-PT que existia nas ruas chegou ao Congresso. O PT é, hoje, um partido quase que totalmente ilhado na Câmara e no Senado, sem capacidade de interlocução diante de todo esse desastre que aconteceu nos últimos meses”, disse o líder do DEM no Senado, Ronaldo Caiado (GO).

Reconduzido à liderança do DEM na Câmara, Mendonça Filho (PE) fez coro a Caiado. “Foi um discurso enfadonho, que reafirma tudo aquilo que a presidente prometeu em campanha era só discurso. Ela pratica justamente o inverso. Temos de mostrar à sociedade que isso é apenas estelionato eleitoral”, declarou o deputado, para quem a gestão Cunha dará, de fato, independência à Casa.

Mudanças à vista

Já o senador Garibaldi Alves Filho (PMDB-RN) manifestou otimismo em relação ao início de legislatura, a qual define como “alvissareira”. “[A legislatura] começa de forma alvissareira, porque vamos ter um papel importante, o Congresso vai discutir essas mudanças que estão sendo introduzidas na legislação, inclusive na previdenciária”, disse Garibaldi à reportagem.

Ex-ministro da Previdência no primeiro mandato de Dilma, o peemedebista acredita que o ano será rico em termos de pauta legislativa. Para ele, as recentes decisões da área econômica, de aumento de impostos e contenção de gastos, darão resultado. “Essas medidas são altamente necessárias, mas devem passar pelo bom debate aqui no Congresso”, acrescentou.

Luiza Erundina (PSB-SP) não demonstrou à reportagem o mesmo entusiasmo de Garibaldi em relação à mensagem presidencial. “Nenhuma novidade”, sintetizou a ex-petista, cofundadora do partido em São Paulo. “Estava dentro do esperado. É mais uma celebração da vitória [ainda referente às eleições] e, ao mesmo tempo, a reafirmação de que haverá harmonia, equilíbrio entre os Poderes, que estará a serviço dos interesses do país. Enfim, um tom conciliador.”

Ao contrário do colega do PMDB, Erundina manifestou preocupação com o clima de ressaca na base. Para ela, o momento é de cicatrizar as feridas depois da eleição da Câmara. “Temos de recriar a dinâmica e as relações na Casa. Ficam sequelas que vão criar mais dificuldades no relacionamento interno. É um momento delicado, especial da vida do país, do ponto de vista de estarmos à altura de resgatar a dignidade da política, a confiança da sociedade nas instituições”, completou.

Outro novo líder de bancada também disse não ter sido seduzido pela mensagem de Dilma. Para Cássio Cunha Lima (PSDB-PB), Dilma terá pela frente uma oposição ainda mais “combativa, aguerrida, altiva e forte”. “E que não vai se limitar à fiscalização e à crítica. Nós vamos propor, também”, avisou o tucano, manifestando preocupação com a crise hídrica “gravíssima” no país. Ele garantiu que sua bancada terá entre suas prioridades propor o estímulo fiscal para a reutilização de água. “O governo até agora não tomou uma única providência.”

Caldeirão de temas

Na mensagem presidencial, considerada demasiadamente extensa por alguns parlamentares, Dilma abordou temas como combate à corrupção, reforma política e intensificação dos investimentos na agricultura. Defendeu a necessidade das medidas de ajuste fiscal e mencionou as iniciativas de ampliação de fontes energéticas alternativas. A presidenta explanou ainda sobre parcerias público-privadas, universalização da banda larga e projetos referentes à terceira fase do Minha Casa, Minha Vida, à segunda fase do Pronatec e ao reforço do alcance do programa Mais Médicos, entre outros assuntos.

“Com o apoio do Congresso, o Brasil vai superar todos os desafios”, exortou a mensagem presidencial.

Compareceram à sessão solene no plenário da Câmara, além de Eduardo Cunha e Renan Calheiros, que presidiu a sessão do Congresso, ministros como Aloizio Mercadante (Casa Civil), portador da mensagem presidencial, Pepe Vargas (Relações Institucionais) e Ideli Salvatti (Direitos Humanos), além do presidente do Supremo Tribunal Federal, Ricardo Lewandowski, representando o Judiciário. A nova legislatura teve renovação parlamentar de 43% na Câmara e de 33% no Senado.

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