Comando da CPI contesta perda de tempo em depoimento

Para Vital do Rêgo e Odair Cunha, presidente e relator do colegiado, depoimento de delegado da PF contribuiu para a "solidez" da investigação

O primeiro depoimento da CPI do Cachoeira, que por quase sete horas registrou esclarecimentos do delegado da Polícia Federal Raul Marquez Sousa, não foi perda de tempo. A opinião é compartilhada pelo presidente e pelo relator do colegiado, respectivamente o senador Vital do Rêgo (PMDB-PB) e o deputado Odair Cunha (PT-MG), que falaram à imprensa depois do encerramento da longa – e secreta – audiência com o responsável pela Operação Vegas. Munida dos autos do inquérito da Vegas e da operação subsequente, a Monte Carlo, a comissão parlamentar mista de inquérito investiga as relações do contraventor Carlinhos Cachoeira com agentes públicos e privados, entre eles o senador Demóstenes Torres (sem partido-GO) e os governadores Marconi Perillo (GO) e Agnelo Queiroz (DF).

Outros destaques de hoje no Congresso em Foco

“Sete horas de depoimento serviram para mostrar um inquérito que começou com diversas mini-operações sequenciadas. Trocou-se de delegado algumas vezes, apurou-se uma rede de jogo [ilegal] e corrupção instalada essencialmente no Estado de Goiás, e basicamente em duas cidades. E que, em determinado momento, por força de foro privilegiado, teve a sua interrupção”, declarou o senador, questionado pelo Congresso em Foco sobre as críticas de alguns parlamentares ao teor do depoimento, e referindo-se à prerrogativa de Demóstenes Torres, que só pode ser processado no Supremo Tribunal Federal (STF).

Leia mais: Delegado nada acrescentou à CPI, dizem parlamentares

“É o início de um processo de apuração. A Polícia Federal fez um excelente trabalho na Operação Vegas”, acrescentou Vital, recusando comentar a possibilidade de depoimento também do procurador-geral da República, Roberto Gurgel, que já recusou convite para falar à CPI. É cada vez maior a pressão para que Gurgel preste esclarecimentos sobre sua atuação no caso. Em procedimento até hoje não esclarecido, Gurgel recebeu em 2009 as denúncias sobre o esquema criminoso operado por Carlinhos Cachoeira, preso desde fevereiro, mas só encaminhou neste ano pedido de inquérito ao STF depois que o caso veio à tona na imprensa, e mesmo assim só depois de pressionado por parlamentares. O inquérito foi aberto em 29 de março naquela corte.

Tanto Vital quanto Odair reforçaram, em discurso ensaiado, o que já tem sido diariamente noticiado desde que o caso começou a ser explorado na imprensa, há cerca de dois meses. “O delegado Raul Alexandre trouxe evidências claras desta organização criminosa, de seus tentáculos nas mais diversas esferas de governo”, declarou Odair Cunha, lembrando que policiais federais também estão envolvidos na esquema criminoso operado por Cachoeira. “Precisamos aprofundar as investigações, e ele [o delegado Raul] contribuiu muito hoje, fez um depoimento extremamente técnico.”

A próxima reunião da CPI será na manhã da próxima quinta-feira (10), com a oitiva do delegado da PF Matheus Mella Rodrigues e os procuradores da República Daniel de Rezende Salgado e Lea Batista de Oliveira, responsáveis pela Operação Monte Carlo. Na ocasião, os membros do colegiado vão confrontar com os inquéritos em curso no STF com o material arquivado em uma “sala secreta” filmada em tempo integral, para evitar vazamentos. “Queremos fazer essa checagem. Ela é importante para dar continuidade à nossa investigação. Essas documentações vão passando por crivos e por filtros. E é possível que, em algum momento, algum filtro ou crivo de determinada autoridade tenha deixado algo de fora”, concluiu.

Sigilo contestado

Quanto à polêmica em torno do vazamento de informações sigilosas, que envolve a incompletude do material à disposição da CPI e a manipulação de conteúdo divulgado, Odair preferiu se ater ao que vem dos meios oficiais. “Eu me pautarei – e a CPI precisa se pautar – pelos autos e pelas provas que a Polícia Federal já produziu. A disposição da Polícia Federal de vir à CPI e trazer as informações nos dá solidez na investigação. O que nós queremos é pautar a nossa investigação de maneira sólida”, emendou o deputado, fazendo menção aos próximos passos do colegiado, segundo o plano de trabalho apresentado em 2 de maio, com o depoimento dos responsáveis pela Monte Carlo.

A pressão de parlamentares contra o que consideram excesso de restrições de acesso começou a dar resultado. Alguns chegaram a ridicularizar o zelo extremado sobre o sigilo, uma vez que as informações já foram levadas a público por diversos órgãos de imprensa. Segundo Vital, agora não só parlamentares poderão consultar os autos dos inquéritos. “Cada parlamentar deve apresentar o nome de um assessor de sua confiança para se credenciar junto à CPI e assinar os documentos de confidencialidade”, disse o peemedebista, que ainda espera receber do ministro Ricardo Lewandowski, relator dos inquéritos no Supremo, o restante dos autos (apenas conteúdo central das investigações foi remetido ao Congresso).

Segundo o cronograma de trabalho da comissão, Carlinhos Cachoeira será ouvido na próxima terça-feira (15). No entanto, uma visita feita ontem (segunda, 7) pelo seu advogado, o ex-ministro da Justiça Márcio Thomaz Bastos, ao comando da CPI, essa data pode ser alterada. A defesa de Cachoeira alega que não teve tempo de estudar os autos dos inquéritos, e disse ainda que a imprensa está mais bem informada a respeito das investigações do que os próprios advogados do contraventor. Demóstenes Torres, que responde a processo por quebra de decoro parlamentar no Conselho de Ética do Senado, deve depor em 31 deste mês.

Conheça o Congresso em Foco (2 minutos em vídeo)

Continuar lendo

Assine e obtenha atualizações em tempo real em seu dispositivo!