Brasil deve investir mais na Nicarágua, diz Valter Pomar

Lúcio Lambranho, enviado especial

Manágua (Nicarágua) – Embora a Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN) tivesse a expectativa de reunir 1 milhão de pessoas na festa dos 30 anos da vitória sandinista, os 300 mil simpatizantes do governo de Daniel Ortega que estiveram no último domingo (19) na Praça da Revolução representam 15% do eleitorado nicaraguense.


O apoio popular à FSLN chamou a atenção do secretário de Relações Internacionais do PT, Valter Pomar, que esteve à frente da delegação brasileira que participou em Manágua da reunião do Foro de São Paulo, encontro bianual de partidos políticos e organizações sociais de esquerda da América Latina e do Caribe. O encontro aconteceu entre os dias 17 e 20 de julho para homenagear os 30 anos da Revolução Sandinista.
 
Nesta entrevista exclusiva ao Congresso em Foco, parte da série Nicarágua 30 anos, Pomar diz que os esforços para estreitar as relações com a Nicarágua têm importância estratégica para o Brasil. “Interessa ao Brasil ampliar sua presença na América Central, para reduzir a influência dos Estados Unidos e da Europa, não para reduzir a influência da Venezuela, que joga um papel positivo na Nicarágua”, afirma Pomar.


Leia abaixo a entrevista completa com o Valter Pomar :
 
Congresso em Foco - Que semelhanças e diferenças existem entre os governo de Daniel Ortega e o de Lula, considerando que ambos sofrem críticas com relação às suas alianças para tentar ter a governabilidade no Congresso?
 
Valter Pomar - Para vencer a eleição presidencial e para ter maioria parlamentar, o PT e a FSLN fizeram alianças com partidos de centro e de direita. No Brasil como na Nicarágua, a oposição conservadora não tem a menor condição de fazer este tipo de crítica.
 
O que de mais chamou sua atenção durante os discursos dos 30 anos da revolução sandinista?
 
O apoio popular à FSLN.


O que foi discutido de mais importante na reunião do foro de São Paulo e que pode ter relação direta com os dois países?
 
A necessidade de acelerar o processo de integração.
 
Como o Brasil deveria ajudar a Nicarágua nessa área? Qual é a sua avaliação sobre a diplomacia entre os dois países neste momento?
 
Não apenas no caso da Nicarágua, mas em geral, o Brasil deve criar condições institucionais e legais para ampliar os investimentos a fundo perdido. Que, na verdade, não são a fundo perdido, pois uma vizinhança em boas condições econômicas é algo que interessa ao Brasil. A diplomacia política vai bem.
 
O presidente Daniel Ortega tentará mudar a Constituição para renovar seu mandato. Uma tentativa semelhante foi usada como desculpa para um golpe em Honduras. Há algum risco de que a ordem constitucional possa tomar o mesmo rumo na Nicarágua?
 
Como você disse, no caso de Honduras, se usou como desculpa mentirosa esta história da reeleição. O que estava em jogo era outra coisa. No caso da Nicarágua, não há base política nem militar para uma tentativa de golpe. 
 
Como o PT e os movimentos sociais de esquerda analisam a intenção de Ortega de se perpetuar no mandado considerando que o seu projeto abre a possibilidade de reeleição indefinida?
 
Não falo pelos movimentos. O PT não debateu o tema e, portanto, não tem posição oficial. Minha opinião pessoal, baseado em casos similares, é considerar que isto é um assunto interno da Nicarágua.
 
O Congresso da Nicarágua aprovou uma lei ambiental para permitir a construção de uma hidrelétrica por uma empresa brasileira. Você acha que a entrada do Brasil como investidor e parceiro da Nicarágua pode inverter o discurso que Ortega e os países da Alba fizeram contra os biocombustiveis?


A crítica foi feita por causa dos biocombustíveis baseados no milho, pois fazem subir o preço dos alimentos.
 
Na sua avaliação, os biocombustiveis e a ajuda brasileira nesta área poderiam servir para melhorar as condições sociais da Nicarágua?
 
Não se trata de ajuda, mas de investimento. A depender da orientação do governo, os investimentos ajudam a melhorar as condições sociais. No caso do governo sandinista, os investimentos colaborarão na eficácia das políticas sociais.
 
Quais são os principais interesses envolvidos nesse discurso da Alba contra os biocombustíveis, especificamente no da Nicarágua?
 
O interesse fundamental é impedir que subam os preços dos alimentos.

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