Battisti em carta: nunca provoquei ferimento ou morte

Fábio Góis

O senador Eduardo Suplicy (PT-SP) foi um dos primeiros a subir à tribuna do plenário para discursar após a escolha dos suplentes da Mesa Diretora, nesta quinta-feira (3). Mas, ao contrário de Francisco Dornelles (PP-RJ) e Mário Couto (PSDB-PA), que o antecederam no parlatório, o petista não trataria de assuntos parlamentares: observado pela ex-mulher, Marta Suplicy (PT-SP), que presidia a sessão na condição de 1ª vice-presidenta, ele leu uma carta escrita à mão pelo ex-ativista italiano Cesare Battisti (confira abaixo a íntegra da missiva), condenado à prisão perpétua na Itália, sob acusação de assassinato.

“Ele avaliou que seria importante”, disse Suplicy, que esteve pela manhã com Battisti na Papuda, como é conhecido o complexo penitenciário no qual o italiano está preso, em Brasília. Suplicy leu ainda uma fundamentação teórica de juristas renomados que sustentaram a decisão do então presidente Lula, no último dia de seu mandato, em favor de Battisti. Em seu último ato oficial, Lula avalizou a permanência do ex- ativista no Brasil – ao impedir a extradição, como quer o governo italiano, Lula gerou um mal-estar diplomático e foi publicamente criticado por autoridades italianas.

“É fato que, nos anos 70, eu, como milhares de italianos, diante de tantas injustiças que caracterizavam a vida em nosso país, também participei de inúmeras ações de protesto – e, como tal, participei dos Proletários Armados pelo Comunismo. Nessas ações, quero lhes assegurar, nunca provoquei ferimentos ou a morte de qualquer ser humano”, diz trecho da carta de Battisti, que reclama não ter tido oportunidade de se defender adequadamente das acusações. “Até agora, nunca qualquer autoridade policial ou qualquer juiz me perguntou se eu cometi um assassinato.”

Depois da intervenção de Suplicy, seguiram-se em plenário discursos de apoio e contestação – sob o olhar de Marta Suplicy que, no comando da terceira sessão preparatória da legislatura, demonstrava certa impaciência. “Eu, agora, preciso obedecer à senhora presidenta”, resignou-se Suplicy, diante de senadores que pediam aparte. Em vão: Marta não flexibilizou o regimento e a ordem de discursos. “Acabou o tempo. A palavra está com o senador Inácio Arruda [CE], pela Liderança do PCdoB.”

Caso Battisti

Battisti foi condenado na Itália por quatro assassinatos que teria cometido entre 1977 e 1979, quando integrava o grupo Proletários Armados pelo Comunismo (PAC). Battisti fugiu de uma prisão italiana em 1981. Em 1993, no momento de seu julgamento na Itália, Battisti se encontrava na França, onde tinha obtido o status de refugiado político. Mas fugiu em 2004, quando o governo francês se dispôs a revogar essa condição para entregá-lo à Itália.

Battisti se declara inocente das acusações e diz que é perseguido pelo atual governo da Itália, de perfil conservador. Depois de circular por países como França e México depois das acusações, o italiano está preso no Brasil desde 2007. Em março daquele ano, foi detido no Rio de Janeiro, onde, segundo fontes policiais, foi localizado durante uma operação conjunta realizada por agentes de Brasil, Itália e França. Desde então, Battisti permanece detido na penitenciária da Papuda, em Brasília. Nos próximos dias, o Supremo Tribunal Federal.

Confira a carta de Battisti:

"Aos senhores e às senhoras senadoras e senadores, deputados e deputadas federais e ao povo brasileiro,

De forma humilde, desejo transmitir aos representantes do povo brasileiro no Congresso Nacional um apelo para que possam me compreender à luz dos fatos que aconteceram na Itália desde os anos 70, nos quais eu estive envolvido.

É fato que nos anos 70 eu, como milhares de italianos, diante de tantas injustiças que caracterizavam a vida em nosso país, também participei de inúmeras ações de protesto e, como tal, participei dos Proletórios Armados pelo Comunismo. Nestas ações, quero lhes assegurar que nunca provoquei ferimentos ou a morte de qualquer ser humano. Até agora, nunca qualquer autoridade policial ou qualquer juiz me perguntou se eu cometi um assassinato. Durante a instrução do processo e o julgamento onde fui condenado à prisão perpétua, eu me encontrava exilado no México e não tive a oportunidade de me defender.

Durante os últimos 30 anos, no México, na França e no Brasil, dediquei-me a escrever livros e as atividades de solidariedade às comunidades carentes com quais convivi.

Os quase 20 livros e documentários que produzi são todos relacionados a como melhorar a vida das pessoas carentes, e como realizar justiça social, sempre enfatizando que, o uso da violência compromete os propósitos maiores que precisamos atingir. Desejo muito colaborar com estes objetivos de construção de uma sociedade justa, no Brasil, por meios pacíficos, durante o resto de minha vida.

Cesare Battisti
Papuda, 03/02/11"

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