A íntegra da entrevista com Eduardo Jorge

Confira a entrevista exclusiva do presidenciável do PV ao Congresso em Foco

Sylvio Costa: Eu queria que o senhor, em poucas palavras, no máximo dois minutos, o senhor dissesse quem é Eduardo Jorge e qual é a sua mensagem fundamental como candidato à presidente da República.

Eduardo Jorge: Eu sou um baiano que morou a infância na Paraíba, estudou no Rio de Janeiro, terminou Medicina em São Paulo. Fiz concurso em Saúde Pública, eu e minha mulher, que também é médica, e fomos trabalhar na periferia por uma opção política e profissional, de luta pela democracia. Desde 17 anos sou socialista, lutei contra a ditadura. Depois, junto com os movimentos populares de São Paulo, participei da fundação do Partido dos Trabalhadores. Fui 20 anos da direção do Partido dos Trabalhadores, 20 anos deputado estadual, federal, Constituinte, secretário de Saúde pelo PT, em São Paulo, duas vezes, com minha querida [Luiza] Erundina, depois com a Marta [Suplicy]. Depois que são do PT, por divergências com a cúpula do PT – divergi dos métodos e propostas políticas deles, porque continuo tendo muitos amigos, muito bons, no PT, na base do PT. Fui para o PV, fui também secretário do Meio Ambiente, duas vezes, em São Paulo, já na gestão José Serra e, depois, na continuidade com Gilberto Kassab. E hoje, se pudesse me definir, sou um socialista libertário, não autoritário – fui da época da Ditadura do Proletariado, sim, durante muito tempo. Mas, agora, sou socialista, democrático e preocupado com a questão do meio ambiente, porque acho que, hoje, a política mais importante é você equilibrar a economia, a busca da justiça social, e respeitar os limites da natureza em um ambiente de democracia, em um ambiente de cultura de paz, em um ambiente que deve pensar o mundo como um todo na direção de uma fraternidade de nações, e não mais como uma luta insana de nacionalistas, de nacionalismos, de imperialismos que conduziu o mundo a tantas guerras e desgraças. Então, sou uma pessoa que continua sendo bastante utopista, né? Mas que pisa no chão, porque eu sei que a gente tem que ter utopia, tem que ter o horizonte, mas tem que mudar e melhorar a vida do povo, da nossa família, dos nossos filhos agora. A gente que juntar as duas coisas: a capacidade de mudar agora e a capacidade de continuar vendo um futuro melhor bem na frente.

Sylvio Costa: A eleição anterior, de 2010...

Eduardo Jorge: Foi [a apresentação] em dois minutos e 20 segundos, hein? [risos]

Sylvio Costa: Muito bom! A eleição presidencial passada deixou a impressão de que o Partido Verde, finalmente, havia alcançado uma marca mais importante com aquela votação que a Marina teve de quase 20 milhões de votos. No entanto, logo em seguida, houve um divórcio entre Marina e o partido e, agora, pelo que demonstram as pesquisas, o PV se vê, novamente, com um candidato-alternativa em que muitas pessoas reconhecem grandes méritos...

Eduardo Jorge: Mas não conhecem, né?

Sylvio Costa: Mas com grandes dificuldades de chegar à maioria da população. Então, eu queria que o senhor falasse dessa dificuldade do discurso “verde” no Brasil e o que aconteceu em relação a Marina. Por que o PV não foi capaz de conviver com uma política que demonstrou grande aceitação popular?

Eduardo Jorge: O Sylvio colocou, pelo menos, uns três ou quatro assuntos aí, né? Vou tentar respondê-los. Primeiro, a dificuldade da questão das ideias de vanguarda – e até revolucionárias – do Partido Verde no Brasil, é fato; é uma ideia que não só do Brasil, mas internacional. O PV é uma corrente internacional que tem partidos na Austrália, Nova Zelândia, Alemanha, Canadá. E no Brasil. E muito nova, porque surgiu com aqueles movimentos jovens da década de 60 – eu tinha 17, 18 anos naquela época –, que trouxe tantas inovações e contribuições pelo mundo todo – o feminismo, a luta pela democracia, a juventude e, também, essa preocupação com a ecologia. Nasceu lá, naquela época. Qual é a ideia? É de que o capitalismo e o socialismo não se atentavam para os limites da natureza, os dois, é muito importante dizer que, nesse ponto, eles são irmãos siameses, porque se preocupam com a economia, com o equilíbrio social – uns mais e outros, menos – mas nunca se preocuparam, e nem achavam que precisavam se preocupar, com os limites da natureza. O pensamento era que a natureza é infinita, à nossa disposição. Esse é um conceito até bíblico, né?, judaico-cristão. Não estou querendo aqui crucificar o capitalismo e o socialismo por causa disso, mas, efetivamente, eles não tinham essa preocupação. E esse desprezo pelos limites da natureza, que se revelou finita em muitos de seus recursos à nossa disposição, começou a trazer uma crise cada vez maior à nossa sociedade. Quem viu primeiro isso? Foi o PV, lá nos idos de 1960, 70, do século passado, no mundo e no Brasil. E quem trouxe isso para o Brasil? Vários jovens que tinham se exilado por causa da luta contra a ditadura. Gente como [Fernando] Gabeira, [Alfredo] Sirkis, [José Luiz] Penna, Herbert Daniel, e outros, que encontraram gente aqui como a Lucélia [Santos], uma artista importantíssima, sensível a esses dados. Eles trouxeram essas ideias para o Brasil há quase 30 anos, em um país difícil como o Brasil, ainda, com tantas injustiças, com a talvez maior desigualdade de todas, em que se digladiavam os partidos de origem capitalista e socialista. Então, essa ideia novíssima, quando veio aqui há 25, 30 anos, foi ridicularizada, espezinhada. Pela esquerda e pela direita. Aos poucos, com a consciência ambiental crescendo no mundo inteiro, o Brasil também, claro, não ficou fora disso. E, com o encontro da ONU [ECO-92], no Rio de Janeiro, em 1992 – que foi um marco, talvez um dos maiores encontros sobre políticas púbicas que a ONU já promoveu no mundo, a ONU referendou essa ideia do PV. A ONU disse: o desenvolvimento deve ser sustentável. E o que é o desenvolvimento sustentável da ONU? É exatamente aquilo que o PV dizia: equilibrar a economia, a justiça social e os limites da natureza. Então começou a crescer, com mais força, essa ideia também no Brasil. Mesmo assim a luta política colocava isso em segundo plano. E muita gente mais esclarecida que reconhece essa ideia tem dificuldade de mudar a forma de viver. Elas querem ser “verde”, mas, para ser verde, têm de mudar alguns hábitos, e mudar hábito é sempre difícil. Então, eu fui secretário de Meio Ambiente por oito anos em São Paulo, e conversava com empresários, sindicalistas, donas de casa que diziam “nós queremos ser verdes”, mas não queriam ficar no primeiro lugar da fila. “Não dá para ficar no segundo lugar da fila?” Essa é a dificuldade que o PV tem ainda – no Brasil e no mundo todo – em ter ideias tão revolucionárias para mudar o capitalismo e o socialismo e se efetivar como uma força política real, organizativa, capaz já de mudar a composição no Parlamento, de ser governo em pontos importantes do país. Essa é a história em relação ao PV.

Agora... Por que houve aquela diferença [programática entre Marina e o partido] em 2010? Porque em 2010 o PV recebeu uma personalidade mundial no meio ambiente – Marina não é uma personalidade nacional, ela é mundial, por sua história linda. A própria vida dela é uma legenda. Ela, saindo do PT, que foi um partido que não mostrou sensibilidade com o meio ambiente no governo, a tratou muito mal... Ela teve de sair do PT, embora seja uma das pessoas, como eu, fundadoras desse partido. Conversando com o PV, surgiu essa oportunidade de, em 2010, a gente ter uma candidatura dela, vinda pro PV, que defendesse essa questão do desenvolvimento sustentável. O que aconteceu, Sylvio, foi uma espécie de coligação, porque Marina tem algumas outras ideias na área social e de costumes que não são iguais ao pensamento nacional e internacional do PV. Mas nós fizemos uma espécie de coligação “programática”, como ela gosta de dizer – e diz muito bem –, entre o PV e a Marina. Foi uma coligação. A gente respeitou algumas ideias mais conservadoras e religiosas dela, que não são as mesmas do PV em relação aos direitos sociais de grupos, porque a gente achava importante que, com a história e com a sua capacidade, o Brasil tivesse uma candidatura que falasse de desenvolvimento sustentável. E foi uma coisa fantástica, foi uma campanha linda, ajudei na coordenação o tempo todo. E fomos muito bem, embora a votação de 20 milhões seja uma votação muito episódica e complexa, ninguém até hoje definiu direito que votação foi aquela.

Sylvio Costa: Foi algo circunstancial...

Eduardo Jorge: É. Uma votação em que praticamente existia um embate entre Corinthians e Palmeiras, não tinha muita opção. Nós éramos opção entre PT e PSB, a única opção, praticamente. Voto de protesto, portanto, voto dos ambientalistas, voto dos evangélicos, que votaram em peso na Marina. Eu vi gente do Ceará dizendo: “Olha, agente está tendo campanha lá no sertão dos Inhamuns”. Mas o PV nunca existiu lá... Mas lá tem pastor! Então o voto evangélico teve muito importante nessa questão. Foi uma votação muito complexa, uma campanha muito bonita, acho que o saldo foi positivo.

Fábio Góis: Mas será que o PV não cedeu justamente nesse ponto? Porque, se de um lado muitos evangélicos aderiram a Marina, por outro lado o se o PV não tivesse aberto tanto...

Eduardo Jorge: Não teria tido campanha.

Fábio Góis: Ela não teria aceitado...

Eduardo Jorge: Claro que não. Você não pode ser intolerante com a filosofia, a religião de uma pessoa. É uma questão de fé, de dogma, ela é assim. Eu não poderia tê-la candidata se a obrigasse, por exemplo, a acabar com essa ideia de que as mulheres que interrompem a gravidez são criminosas. Tem uma lei no Brasil que diz que as mulheres que interrompem a gravidez, por algum motivo que deve ser muito importante para elas, são criminosas. É um dogma de fé.

Fábio Góis: Então o partido vai ter de assumir o risco de perder muitos votos. Até porque o senhor, ao contrário de Marina Silva, não é uma figura internacional.

Eduardo Jorge: Não sou mesmo. Eu sou uma figura, no máximo, baiana e paraibana, e com muito orgulho. [risos] Nem todo mundo tem esse privilégio de ser baiano, paraibano e paulista ao mesmo tempo. Mas, realmente, nunca me chamaram para carregar a bandeira das Olimpíadas, nem vão me chamar. [risos]

Fábio Góis: Mas é um eleitorado a ser atingido...

Eduardo Jorge: Mas isso é outra coisa. Vamos concluir o raciocínio da campanha da Marina, porque ele [Sylvio Costa] falou de outras coisas – falou de divórcios, essas coisas, assim, muito duras, e eu quero falar também. Então foi uma campanha linda, Marina e o PV se saíram muito bem, acho que foi uma coisa que pode ajudar o Brasil naquela hora. Bom. Acabou a campanha, e aí você falou que houve o divórcio. Não é que houve divórcio; a gente não tinha casado! O noivo e a noiva estavam somente namorando na campanha. Na hora de dizer que ia para o casamento, mesmo, o noivo e a noiva não quiseram. E aí é importante: são o noivo e a noiva, porque tanto a direção do PV como a Marina não tiveram, vamos dizer assim, a sabedoria de superar algumas diferenças e continuarem juntos. Então, não se podia levar o noivo e a noiva para casar na polícia, isso não pode, né? Então, se separaram antes de casar. E ela partiu para a opção de ter um partido à sua imagem e semelhança. Eu acho... É um direito dela, mas é um erro, e eu digo erro dos dois lados – do noivo e da noiva. É um direito dela criar um partido à imagem e semelhança dela? É. É bom isso? Eu não acho. O bom seria – eu continuo pensando assim, e vou continuar pensando depois da campanha, voltando ao primeiro ponto –, com essa fraqueza política do movimento ambientalista brasileiro, que nós tivéssemos unidos, unidos, e inclusive buscando mais gente diferente de mim, dela, do Penna, da Aspásia [Camargo], que está na universidade, no sindicato, na periferia, é a dona de casa... Porque o Brasil é um país continental, e o PV vai ser um partido plural. Não vai ser um partido diverso, homogêneo. Acho que teve isso tudo: nós ganhamos, depois perdemos. E agora temos de recomeçar, mantendo a tradição do PV. A gente recomeça! Como você [Fábio] falou, pode ser que tenhamos menos votos. Sim. Pode ser. Mas isso pode ser importante do ponto de vista estratégico, para relançar, para reativar algumas brasas que estavam um pouco apagadas. Agora, quantos por cento isso vai dar eu não sei.

Fábio Góis: Foi um erro atrás do outro, por parte dela, ao se aliar ao PSB? O senhor já declarou que sim.

Eduardo Jorge: Não, não. Toda vez que eu falo disso vocês [imprensa] falam “Eduardo criticou a Marina”. Aí lá vai Marina ficar mais chateada comigo, de novo. Eu disse bem aqui, com clareza, que a campanha foi linda, ótima, que ela é uma pessoa maravilhosa, só que o noivado não deu certo. E, quando o noivado não dá certo, é problema do noivo e da noiva. Isso está bem claro.

Fábio Góis: E o senhor disse que ela ficou neutra [no segundo turno das eleições de 2010], e o senhor não gostou disso, de ela ter ficado neutra...

Eduardo Jorge: Isso é outro assunto, outra história.

Fábio Góis: Que ela deveria apontar um caminho para o eleitor...

Eduardo Jorge: É a história do segundo turno. Novamente, foi uma coisa errada dela, mas do PV também. Porque não foi a Marina que disse que ficaríamos neutros. Foi a Marina e a direção do PV. Eu estava na reunião – que eu classifico de soviética, que era para consagrar essa posição 100%. Tipo votação na União Soviética, 100%. E eu, que estava na primeira fila, votei contra. Os chefes que estavam à mesa me olharam e disseram: “O que é que esse insistente, esse irritante está levantando a mão”? Eu fui contra. Mas isso aí, novamente, eu não quero atribuir só ao fato de, no segundo turno, a gente ter se abstido de uma decisão tão importante para o Brasil, que era se ficava Dilma ou se ficava Serra. Não quer dizer que ia ser por A ou por B. Eu dizia o seguinte: um partido que teve 20 milhões de votos, numa eleição de segundo turno, cuja característica do segundo turno era você tentar se aproximar do candidato mais próximo a você, e você pegar a bola e dizer: “Não quero jogar mais, não. Vou-me embora para casa, e vocês se virem”? É errado, isso realmente foi um erro. Mas insisto, pelo amor de Deus, não digam que eu estou dizendo que a responsabilidade foi só dela...

Sylvio Costa: A gente não precisa dizer nada, a entrevista é o senhor que está dando... [risos]

Eduardo Jorge: Foi do PV e foi dela. Mas não é? Eu acho um erro, e continuo achando um erro.

Fábio Góis: A gente não altera conteúdo, pode ficar tranquilo.

Eduardo Jorge: O problema são as manchetes, é o editor. [risos]

Sylvio Costa: Mas essa entrevista a gente não edita.

Eduardo Jorge: Mas a questão do erro do segundo turno, realmente foi uma coisa errada. Era da natureza daquele segundo turno você tentar indicar, já que você não era um dos finalistas, indicar para o povo que votou em você no primeiro turno qual o que está mais perto de suas ideias.

Sylvio Costa: Deputado... O senhor não é deputado há bastante tempo, mas quem foi rei não perde a majestade. Queria perguntar ao senhor, deputado, o seguinte: em relação a essas as bandeiras, na área de costumes, que, como o senhor colocou, representava uma diferença entre a candidata anterior e uma pregação do PV que não é apenas no Brasil, mas internacional. Quais são exatamente essas bandeiras, na área de costumes, que o partido defende? E por que defende?

Eduardo Jorge: Outra coisa aí, Sylvio, eu faço um parêntese também: eu defendo, e o PV defende, e eu vou defender. Não vou fugir de nenhum [assunto]. Eu só insisto nisso, para os eleitores, para os cidadãos, para os seus eleitores, que nós do PV falamos de todos os assuntos. Agora há outro estigma do PV, o de que o PV é o partido da floresta, do mar, do rio. Nós somos, sim. Somos os campeões da defesa dos biomas, está na origem, na nossa genética. Mas também somos o partido que se preocupa também com a cidade, com o lugar onde 85% do povo do Brasil vivem. Com a economia, com a reforma tributária, com a reforma previdenciária, com a política internacional. Isso tudo está nesse documento que estou deixando aqui com o Sylvio, que a gente está divulgando desde março. Primeiro, eu quero sair desses dois estigmas – o de que somos só da floresta, e o de que somos só dessas pautas que são consideradas “órfãs”. Não. O PV é um partido que acha que a sustentabilidade tem de dialogar com todas as políticas públicas, a gente fala nisso aqui. Agora, entrando no assunto que você falou. Todas essas pautas que estou chamando aqui de órfãs – porque os outros partidos não querem assumi-las ou defende-las; fogem delas, porque pesquisas mostram que, eventualmente, conjunturalmente, existem uma maioria da população que não é favorável às suas implementações. Falo conjunturalmente porque tenho uma fé democrática de que, se eu tenho os dados, as razões, os motivos e os explico para o povo, eu tenho chance de que minhas ideias sejam acolhidas, ou não, pelo povo. Mas uma liderança política, se acha que tem ideias, mesmo quando o povo não lhe dá maioria, ela tem obrigação de defende-las, para tentar dialogar com o povo. É isso o que estou tentando fazer. E os outros não o fazem por quê? Porque estão muito interessados na milimetragem, na cronometragem dos percentuais eleitorais.

Sylvio Costa: Mas que pautas são?

Eduardo Jorge: As pautas são pelo menos três. A primeira delas é a questão da livre orientação sexual, que já avançou no Brasil. O Brasil é um país muito mais liberal do que era antigamente, mas continua tendo preconceitos e perseguição contra essas pessoas que querem somente ter a sua livre orientação sexual respeitada. O que isso atrapalha a mim, a você, a ele? Não atrapalha em nada! É puro preconceito, puro resíduo de ideias antigas. Aqui no Brasil fica uma discussão incrível sobre se é possível que um rapaz possa ir a um cartório e casar com outro rapaz. O que isso pode atrapalhar na minha vida? Eles estão lá cuidando da vida deles, não estão agredindo ninguém, incomodando ninguém! Essa é a primeira questão: nós somos a favor de que as pessoas tenham sua livre orientação sexual totalmente respeitada, e que a legislação seja consequente com isso em todos os aspectos. Casamento é civil, e não religioso. Se eu sou um pastor, um padre, na minha igreja, na minha congregação ele não casa. Mas em um cartório? O Estado é laico. Então, esse é o primeiro ponto, muito importante, porque afeta a vida de muita gente no Brasil, e causa sofrimento para eles, porque eles terminam se sentindo – e são, realmente – alvo de preconceito.

A segunda questão, que tem um impacto, sim, muito maior nas políticas públicas, é a questão da convenção de 1961, da ONU, sobre a repressão às drogas, que o Brasil assinou, em Nova Iorque, junto com mais 70 países, que prometia que ia erradicar totalmente, no mundo, o plantio, o tráfico e o consumo de todas as drogas psicoativas ilegais. Isso é de 1961, uma convenção da ONU que, inclusive, obrigava que os países a serem consequentes com essa política, sob pena de sofrer sanções da ONU. Eu sou um fã ardoroso da ONU, porque, como eu defendo, no futuro, uma confederação democrática mundial de nações, ela vai ser construída com os alicerces da ONU. E também porque acompanho as políticas, as pautas, as propostas da ONU – políticas de saúde, em relação a mulheres, em relação a planejamento familiar, a direitos humanos –, que são as mais progressistas que Humanidade já construiu.  Mas, nesse caso, a ONU errou, fracassou. São 50 anos de bilhões de dólares – alguns chegam a dizer trilhões – jogados em uma política policialesca, militar, penitenciária, e que fracassou de A a Z. O maior fracasso de política pública internacional é essa da convenção da guerra das drogas, de 1961. Piorou tudo: aumentou o poder dos criminosos, que viraram uma corporação riquíssima, com exércitos que, inclusive, dominam territórios aqui no Brasil, em Salvador, no Rio de Janeiro, em São Paulo, territórios liberados, na Colômbia e assim por diante. Piorou a situação dos usuários, porque aumentou o número de usuários; aumentou a gravidade das drogas, porque cada vez eles [criminosos] inventam uma droga mais poderosa e, como já está com um mercado estruturado, vão introduzindo as drogas mais pesadas e, portanto, com o sofrimento maior, com repercussões na saúde muito maior para a população. Isso impacta todo o ambiente de criminalidade, de violência no país – porque, com seus exércitos e com a sua matriz, a sua coluna vertebral do tráfico de drogas, eles começam a ter ramos em todos os departamentos criminosos possíveis, mas a coluna vertebral é o tráfico de drogas. Isso os coloca em condição de enfrentar, militarmente, a polícia militar em alguns locais. Então, é um fracasso completo. Aí alguns países começaram se desligando...

Sylvio Costa: O que senhor defende, em contraposição a essa situação?

Eduardo Jorge: Alguns países começaram vendo que essa solução não era boa e propondo uma outra solução, mais inteligente, para diminuir o sofrimento que as drogas psicoativas causam nos dependentes. Porque elas causam – eu sou médico, sei que uma droga psicoativa causa problemas, mesmo quando é legal, como o álcool e o cigarro. Elas causam. Espanha, Holanda, Portugal, vários estados americanos, agora o Uruguai, estão propondo políticas mais inteligentes e mais humanas para você reduzir essa força da criminalidade e esse prejuízo à saúde das pessoas. Que é, em síntese, um roteiro diferente da convenção de 1961, de você legalizar o acesso às drogas psicoativas, mas regular o acesso, cuidadosamente, pelo sistema de educação e saúde do país. Essa, em síntese, é a nova política, que tem vários países já começando, e que o Brasil está muito atrasado. Isso vai ter um impacto, como estou dizendo, em todas as políticas públicas – a primeiras delas, a segurança, a violência, a criminalidade, que é um dos elementos que mais preocupam, hoje, a família brasileira. Duas coisas que mais preocupam, hoje, quando a gente conversa com povo: saúde e segurança. Saúde e segurança, seja pobre, classe média ou rico. Seja Rio de Janeiro ou seja João Pessoa. Então, a repercussão, na questão da segurança e da violência, de uma legalização regulada de uma droga como a maconha, cannabis, por exemplo, é incrivelmente positiva. Primeiro, vou primeiro começar a diminuir a pressão sobre o sistema penitenciário brasileiro, que hoje é o terceiro do mundo em quantidade de presos. A indústria do crime recruta, na periferia do Rio de Janeiro, de São Paulo, de Salvador, de Recife, de Fortaleza, jovens pobres e os põe no tráfico. Vai para a cadeia. Recruta outro. Vai para a cadeia. Recruta outro. Recruta e o rapaz vai mofar na cadeia, com 18, 19, 20, 21 anos. Hoje, no Brasil, nesse dia, nós estamos com quase 600 mil presos, dos quais pelo menos um terço é ligado ao tráfico de drogas; dos quais a maioria é jovem recrutado para servir de soldado, de pião, do tráfico de drogas, e que está lá sofrendo, mofando na prisão. E, desses 600 mil, 170 mil vão dormir no chão, hoje. No chão. Então, com essa política nova, nossa, vamos começar a diminuir essa pressão violenta sobre a penitenciária, e os presos que estão lá por outros motivos vão poder ser tratados de forma mais humana. Ter uma chance melhor de se capacitarem para o trabalho. Hoje está uma Babel aquilo ali! Então vai haver um impacto altamente positivo em esvaziar as penitenciárias, tornar o trabalho de acolhimento lá mais humano e aumentar a recuperação. Portanto, repercussão positiva na questão das penitenciárias. Repercussão positiva na criminalidade, na violência e na polícia – a polícia, em vez de ficar neste trabalho de enxugar gelo eterno, e que não adianta nada... “Ah!, conseguiu capturar um caminhão de maconha.” E daí? O chefão diz: “Então aumenta o preço, para recuperar meu prejuízo”. Então, a polícia vai agora se preocupar com outros problemas muito mais sérios. Você sabe que, dos homicídios brasileiros hoje, que são 50 mil por ano – uma Guerra do Vietnã por ano aqui no Brasil–, quantos a nossa polícia consegue detectar quem foi o criminoso?

Sylvio Costa: Não, não sei.

Eduardo Jorge: Eu vou dizer para você, para você ficar chocado como eu fiquei: oito por cento. Em oito por cento dos 50 mil brasileiros e brasileiras que foram mortos em 2013, a polícia brasileira, a investigação brasileira conseguiu detectar quem foi o assassino. Então, a polícia vai ficar liberada para atuar de forma muito mais eficiente em outras áreas que são, realmente, muito graves da violência e da criminalidade. Ou seja, nós vamos atacar o coração do poder econômico do crime, porque a maconha, embora seja uma droga mais leve – mais até do que o álcool, e até por isso venda muito mais, e tem hoje no Brasil uns cinco ou seis milhões de usuários – é uma fonte de dinheiro importantíssima para o tráfico, que eu vou quebrar o poder econômico. Totalmente, não, porque nós vamos continuar discutindo outros assuntos com eles, tentando quebrar o poder todo deles, até quebrar o poder todo deles, se for possível. Mas é um golpe muito forte na economia do crime. E esse dinheirão que eu gasto de forma ineficiente com a polícia, na penitenciária, eu vou transferir, progressivamente, para onde? Para a educação e para a saúde. Para quê?

Fábio Góis: Não precisa da criação de um Ministério da Segurança Pública, como está sendo proposto por um candidato à Presidência... O senhor fala em 14 ministérios.

Eduardo Jorge: Precisamos é que o Ministério da Justiça tenha uma secretaria da área de segurança pública, e bem entrosada com os estados e municípios, e faça uma reforma da polícia brasileira. Refunde a polícia brasileira, que continua militarizada, reserva do Exército brasileiro. Precisamos é de outras coisas. Que funcione direito. E que meu querido amigo e companheiro de sempre, [ministro da Justiça] José Eduardo – espero que ainda tenha um pouquinho de governo, né? –, agite mais o trabalho lá no Ministério da Justiça. Então, eu transfiro o dinheiro para saúde e educação. Aí vejam o que vou fazer, Sylvio, na saúde e educação: vou investir no esclarecimento, como eu faço com o álcool e como eu faço com o tabaco, de por que aquela droga psicoativa, que era ilegal, mas que agora é legal, pode trazer prejuízos para sua saúde. Vou dizer três coisas para o povo, nos sistemas de saúde, o SUS, e de educação – para os jovens e para os velhos, também, porque tem alguns velhos que também gostam. Primeiro: essa droga psicoativa, a maconha, como o álcool e como o tabaco, pode causar problemas à sua saúde. Então, de preferência, não use. O Ministério da Saúde, por isso, por isso, por isso, acha que você não deve usar. É uma decisão sua, mas você não deve usar, a gente não recomenda. Dois: se você usar – eu não recomendo; eu, sistema de saúde, eu, sistema de educação do Brasil –, que use muito moderadamente, para isso não atrapalhar sua vida de trabalho, de amizade, sua família etc. Use muito moderadamente. E três: se você começar a ter sintomas de dependência – porque, no caso da maconha, 10% das pessoas que usam têm dependência; 90% não chega a ter dependência nenhuma, mas 10% têm alguma dependência, pelas estatísticas da Organização Mundial de Saúde internacional –, eu quero te ajudar logo. Porque hoje, quando o sistema de saúde procura ajudar o dependente...

Fábio Góis: Já é tarde demais...

Eduardo Jorge: Não é tarde demais, porque nunca... Mas o trabalho é tremendo, porque o usuário já está no fundo do poço. Ele se esconde, fica naquele lusco-fusco, num lugar que ele não sabe se é legal ou ilegal, beijando a mão do traficante o tempo todo para poder... Passa a ter contato com outras drogas mais pesadas. Então eu quero te ajudar logo! Então é: 1 – de preferência, não use; 2 – se usar, use muito pouco por isso, por isso, por isso; 3º – se tiver sintoma de dependência, eu quero te ajudar. Então, veja que é uma questão racional, o PV não está estimulando o uso de droga psicoativa nenhuma. O que ele quer, de uma forma inteligente – que também não somos nós que estamos inventando, porque que vários países já estão fazendo isso –, diminuir o sofrimento que essa atual política, fracassada, de guerra às drogas está causando aos jovens pobres, que estão na cadeia, e os jovens de classe média e rica, que estão como usuários, sem as informações necessárias para não se prejudicar. Eu acho uma coisa muito racional. Se as pessoas vão entender ou não, Sylvio, não sei. Como é que vou falar esse discurso todo em 30 segundos, um minuto? Mas é uma coisa que alguém, no Brasil, tem que começar a falar.

E o terceiro ponto de sua pergunta, que é o mais difícil, é o problema da interrupção da gravidez, o aborto. Esse é o mais difícil de todos, eu reconheço. Nós somos de uma formação católica. O Brasil, antes de ser Brasil, era a Terra da Santa Cruz. Em tudo o que aconteceu aqui no Brasil, em nossa história a Igreja Católica teve sempre um papel sempre importantíssimo. [Padres] Anchieta, Antônio Vieira, nomes gigantes da Igreja, tiveram a felicidade, para o Brasil, de morarem aqui no Brasil. A gente sabe como é rica e importante a presença da Igreja Católica. E agora, mais recentemente, com a vinda desses grupos evangélicos dos Estados Unidos, também os evangélicos cresceram muito no Brasil, a gente sabe disso. E você sabe que isso [rejeição ao aborto] é um dogma de fé, e que você tem que respeitar. O que não pode é um dogma de fé de uma religião, por mais importante que seja, por mais que a gente respeite e goste, virar uma lei de um Estado laico. Se não, nós viramos um país teocrático, e nós não somos um país teocrático, não somos um Irã. Aqui não é Irã, aqui é Brasil, é um país laico. Portanto, um país laico não pode importar um dogma de fé e torná-la lei, e criminalizar aquele que não obedece a um dogma de fé.

É como já disse para vocês, aqui: eu sou autor da lei de planejamento familiar, e a minha posição de médico, e a do PV, é que a solução para diminuir o número de abortos o Brasil é você expandir o planejamento familiar mais e mais e mais. É você tratar o problema da educação sexual, principalmente no ensino médio, para evitar epidemia de gravidez precoce de meninas, que é uma coisa terrível para elas. Eu sei disso, o PV defende isso: para diminuir o número de abortos, você tem que expandir o planejamento familiar, você tem que ter uma educação sexual no ensino médio, para evitar a epidemia de gravidez de meninas. Mas enquanto isso não acontece, porque isso é um processo, eu tenho 800 mil mulheres por ano – mais ou menos, o Ministério da Saúde não sabe direito, porque isso é clandestino – que estão fazendo a interrupção da gravidez em condições precárias. Por ano. Por ano! E a lei brasileira diz que essas 800 mil mulheres – que são católicas, que são evangélicas, que são de religião afrodescendentes – são criminosas. O que acontece com essas mulheres, por essa lei que diz que elas são criminosas? Elas morrem, vão engrossar as estatísticas de mortalidade materna no Brasil, que ainda é alta; têm sequelas físicas permanentes, porque fazem [o aborto] em condições precárias, infecções, e têm problemas físicos, às vezes, permanentes; e têm problemas psíquicos, porque elas são sancionadas pela fé religiosa delas, que dizem que elas pecaram, e são sancionadas pelo Estado, que diz que elas são criminosas. Então, veja... É humano? É uma atitude de compaixão você continuar classificando 800 mil, 700 mil, 900 mil mulheres brasileiras, que fizeram, por algum motivo – e sempre algum motivo muito grave –, uma interrupção de gravidez por ano como criminosas? É desumano, isso. É desumano! E ainda tem uma questão, naquela estratégia minha de diminuir o número de abortos: se eu descriminalizo e acolho essa mulher, no Sistema Único de Saúde, que quer fazer a interrupção de gravidez por algum motivo – social, afetivo, não sei; algum motivo grave é, eu sei –, mas se eu a acolho no Sistema Único de Saúde, e a trato bem, evito que ela tenha uma infecção, evito que ela tenha uma morte, eu posso orientá-la para que não se repita isso. Você tem essa chance de planejamento familiar, e aborto não é planejamento familiar. Planejamento familiar são esses, esses, esses, esses, e eu vou garantir para você, no centro de saúde mais perto de sua casa. É uma oportunidade em que eu vou, aos poucos, reduzindo o máximo possível esse tipos de episódio de aborto no Brasil. Essa é uma ideia humana, defensável, responsável que uma pessoa como eu, que fui médico – eu e minha mulher, que fomos responsáveis por uma região imensa de saúde pública, vimos esse drama de mulheres –, a gente não pode deixar de defender. E vêm me perguntar: “Ah, mas isso vai te dar voto, ou vai tirar votos”? Eu não estou nem aí pra isso. É uma questão de compromisso com a verdade. E é uma necessidade em relação ao drama de muitas famílias. Você sabe o que significa 800 mil mulheres, 700 mil mulheres, 600 mil mulheres por ano com um problema desse, Brasil afora? O sofrimento que isso espalha nas famílias? E aí você pode perguntar: mas porque outros candidatos não falam nisso? Eu acho que os outros candidatos são pessoas preparadas, alguns até bem viajados, e eles, no fundo, no fundo, não têm uma posição diferente dessa minha. O problema é, novamente, a contagem dos votos. A contagem dos votos. Você veja o caso da Itália, da Espanha. São catolicíssimos, né? No entanto, depois de muita discussão, de muita conversa, eles admitiram. Continua a Igreja Católica não apoiando, na Itália e na Espanha, mas o Estado espanhol e o Estado italiano, garantem que a mulher, se ela tomar essa decisão, ela não vai correr risco de vida e não vai ser chamada de criminosa. São duas coisas diferentes.

Sylvio Costa: Deputado, eu queria tentar... Assim, até como uma crítica – como o senhor estava falando, fazendo uma crítica de que, às vezes, a imprensa retrata o senhor como um candidato monotemático, ou insiste muito nessa questão do PV com Marina, e tal –, então até para dar uma amplitude maior de assuntos, e tentar colocar isso em um formato de vídeo em que mais pessoas conheçam o pensamento do senhor, queria combinar assim, apresentar umas sete questões e pedindo ao senhor para ser o mais breve possível nas respostas, para a gente poder colocar isso para um número maior de pessoas. O senhor disse que o PT não demonstrou sensibilidade com essa questão do meio ambiente. Por quê?

Eduardo Jorge: Porque é da genética do capitalismo e do socialismo se comportar dessa forma. É da genética deles, e é por isso que o PV existe, por isso que o PV vem. O PV vem para ajudar os partidos da família socialista e da capitalista para mudar esse comportamento e passarem a achar que a economia, a justiça social e o equilíbrio ambiental são três coisas de mesma dimensão, de mesma importância. O PT não é exceção, mas está se comportando como regra em relação aos partidos socialistas e capitalistas do mundo.

Sylvio Costa: O senhor acha que foi um erro o PT, por exemplo, fazer essas desonerações fiscais que encheram as ruas com automóveis?

Eduardo Jorge: Totalmente errado. Isso é um absurdo! Uma coisa inacreditável que um partido, em alguns aspectos tão moderno, não leia que o mundo está sendo ameaçado pelo aquecimento global, a maior ameaça que a Humanidade já teve que enfrentar. Não é possível que a direção do PT não leia jornal, não assista às conferências da ONU que estão falando isso. Você apostar todas as fichas no petróleo e na indústria automobilística como os dois carros-chefes da economia nacional... Parece que isso está na genética do PT, né? Basta [a cidade paulista de] São Bernardo dar um espirro que correm três ministros lá com lencinhos, para socorrer: “O que é que está havendo com essa queridíssima, com essa preciosidade das indústrias automobilísticas multinacionais daqui”? Encontra-se petróleo e todo mundo se lambuza de petróleo, como se fosse a redenção. “O petróleo vai salvar o Brasil!” Monteiro Lobato, se vivo fosse hoje com sua capacidade e agudeza de espírito, ele não seria o campeão do petróleo; seria o campeão da energia solar, da energia eólica. Então, o PT, realmente, nesse ponto, é um partido do século 20. Petróleo, automóvel, ignorância de não dizer ao povo a gravidade... Com a liderança que o PT tem, seria importantíssimo que ele dissesse para o povo a gravidade que é o aquecimento global. E como desde a dona de casa da periferia de Goianazes até o doutor Antônio Ermírio de Moraes (morto no dia 24 de agosto) têm de ajudar. E ele não faz isso.

Fábio Góis: Deputado, quanto a esse discurso que senhor faz para a Petrobras deixar de ficar só em petróleo e ir para outras alternativas, mas agora tem o pré-sal. Ou seja, vai continuar...

Eduardo Jorge: O pré-sal, junto com o carvão da China, o carvão da Austrália e a areia betuminosa do Canadá são os quatro maiores projetos energéticos sujos do mundo! O Brasil, agora, está junto com a China e a Austrália, no carvão, e o Canadá, nas areias betuminosas. E agora, o nosso pré-sal, aqui. Então, o Brasil, agora, vai ser um dos quatro maiores emissores de gases de efeito estufa do mundo, portanto prejudicando a natureza e a vida da Humanidade de forma brutal. É claro que o petróleo, que comandou a economia durante mais de um século, você não pode desmontar a economia da noite para o dia. Mas tem que ter um direcionamento de ele, progressivamente, ir sendo substituído no uso da geração de energia elétrica e do transporte e ficar, inclusive, usando-o em petroquímica, em outras áreas – medicamentos e outras áreas muito mais nobres em que o petróleo pode ser usado. E você ir reduzindo o peso dele na geração de energia e no impulsionamento do transporte. Essa é a grande estratégia que o Brasil não está seguindo. E o caso da Petrobras é isso – é uma empresa fantástica, a maior que o Brasil já conseguiu construir, importantíssima, tem técnicos fantásticos, uma tecnologia moderna em várias áreas. Mas o governo atual a condenou a ficar enterrada até o fio dos cabelos no petróleo, nos próximos 50 anos. Até o etanol, a que a Petrobras começou a dar algum tipo de ajuda, a Petrobras agora abandonou, a empresa está estrangulando essa ideia fantástica de o Brasil ter o etanol como uma forma de substituir a gasolina nos carros, nas motos e nos ônibus. A Petrobras abandou, e não investe em nada, nem energia eólica, nem energia solar, e vai ficar para trás, vai ficar por fora. E daqui a dez anos... “Ah, essa história de energia solar é utopia.” Parece que eu ouvi uma autoridade falar, um tempinho aqui atrás, que a energia solar é energia de butique. A energia solar, daqui a dez anos, ela vai ser competitiva com qualquer outro tipo de energia para gerar eletricidade e gerar movimento. Daqui a dez anos! Ela vem numa velocidade incrível de pesquisas na China, na Alemanha. E, agora, os Estados Unidos, o Obama botou o pé no acelerador para entrar na energia solar, baixando seu preço, aperfeiçoando a tecnologia, a sua eficiência, a sua eficácia, e daqui a dez anos, pode escrever – nós estaremos vivos ainda –, ela vai estar competitiva com todas as outras. E o Brasil, o que fez? O Brasil, o mais abençoado de todos por Deus em energia solar não fez nada, não pesquisou nada.

Fábio Góis: Vai ter de comprar tecnologia.

Eduardo Jorge: Vai comprar! Vai comprar da China, da Alemanha, dos Estados Unidos. E a Petrobras, coitada, daqui a dez anos vai continuar sendo somente uma petroleira, exclusivamente uma petroleira. Estigmatizada, cada vez mais sob o risco de sair taxação de geração de gases de efeito estufa e CO² – e, portanto, o petróleo ficar como uma energia cada vez mais taxada e mais cara, essa é a tendência mundial. E a Petrobras se afundando e se afundando e se afundando...

Sylvio Costa: Deputado, e a questão da crise da água em são Paulo? Eu queria que o senhor analisasse o que aconteceu lá em são Paulo – um estado onde, afinal, o senhor construiu sua carreira política; foi, inclusive, secretário de Meio Ambiente. Aliás, o PV também ocupou a secretaria de Saneamento, quer dizer, tem uma responsabilidade direta na administração do problema. O que aconteceu ali, onde o Governo do Estado de São Paulo falhou e, portanto, onde o PV, que estava envolvido com esse assunto, falhou?

Eduardo Jorge: O Estado de São Paulo, se você analisar os indicadores, está na frente, está bem na frente, entre os três primeiros, de todos indicadores de saneamento básico do Brasil. Para a gente fazer a crítica, primeiro tem que fazer justiça – e saneamento incluindo água, esgoto e lixo, coleta de lixo. Mas, realmente, nesse caso, o governo estadual e a Sabesp – que é uma empresa importantíssima, talvez uma das maiores do mundo entre as empresas desse tipo – falharam na sua previsão. Eu vi e analisei o estudo e a tabeça: das 20 e tantas grandes bacias do Estado de São Paulo, o governo do estado, os municípios e a Sabesp têm mantido a coisa equilibrada em 18 das grandes bacias. É um estado de 45 milhões habitantes. Onde é que está tendo problema? Só em duas bacias, as duas bacias que abastecem a região metropolitana, exatamente – a do Alto Tietê e a Capivari. Nas outras 18 eles têm conseguido manter o equilíbrio. Houve, realmente, uma estiagem excepcional, mas que isso já faz parte, vamos dizer assim, da...

Sylvio Costa: Já é um efeito das mudanças climáticas.

Eduardo Jorge: Já é um efeito das mudanças climáticas. Não que não tenham secas antigamente – Noé, por exemplo, é um desastre climático bíblico. [risos] A diferença é que esses desastres e esses eventos vão ficar mais amiúdes, mais frequentes, mais intensos. Então, realmente houve uma falha de previsão, de você acordar e buscar uma segurança hídrica maior para a região metropolitana de São Paulo, de o estado estar conseguindo se manter equilibrado, e isso é falha do governo estadual. E você falou que o PV participou do governo do Alckmin, é verdade, ele também foi responsável. Não tem dúvida, falhou também. Isso aí é evidente. Qualquer pessoa que negue isso quer tapar o sol com a peneira. Agora, isso também é resultado de decisões antigas erradas? É. E que não podem ser revertidas da noite para o dia? É. Mas eu precisava ter um pouquinho mais de previsibilidade. Você sabe que, na região metropolitana de São Paulo, tem duas gigantescas represas, na mesma região metropolitana que hoje está com [o sistema] Cantareira em uma situação deprimente de seca, tem duas gigantescas represas dentro da região metropolitana: Guarapiranga e Biles. A imprevidência de dezenas de anos de governos reduziu a capacidade dessas grandes represas em entregarem água para a região metropolitana. A gente ainda usa bem a Guarapiranga, que está mais preservada, e ela é responsável pelos 20 e poucos por cento da água metropolitana. Mas a Biles, que é maior ainda que a Guarapiranga, está praticamente imprestável, salvo um pequeno ramo que se desvia e se trata e se joga na Guarapiranga, para reforçar a Guarapiranga. A gente tem uma empresa gigantesca como aquela, e praticamente não pode usar para o consumo humano. Por causa de quê? Por causa da irresponsabilidade com os planos habitacionais, que empurrou populações pobres, sem opção de moradia, para aquelas regiões, que jogam esgotos e tem palafitas jogando esgoto diretamente nas empresas. Isso é coisa dessa estiagem, mas é coisa, também, muito antiga que a gente está colhendo.

Sylvio Costa: O senhor presidente da República. Digamos que o senhor se eleja, é empossado. Qual o seu primeiro ato como presidente? Qual é a primeira grande preocupação?

Eduardo Jorge: A primeira grande preocupação?

Sylvio Costa: A primeira providência que o senhor toma. Qual é a mais premente a ser resolvida no país?

Eduardo Jorge: Coerente com essa visão de que o aquecimento global é o problema mais sério que a Humanidade vai enfrentar nos próximos... Hoje, já, mas principalmente para os seus filhos, para os seus netos e para os seus bisnetos – e, como a gente gosta dos netos, às vezes, até mais do que dos filhos, eu fico pensando nisso o tempo todo –, eu pensaria em alguma atitude simbólica para mostrar para o povo brasileiro como o aquecimento é uma coisa gravíssima, e como o Brasil tem que se ajudar a si próprio e ajudar a Humanidade. E aí o aquecimento global tem duas faces, é aqueles discos de vinil que têm o lado “A” e o lado “B”. O lado “A” é você diminuir as emissões. Diminuir uso do petróleo, diminuir o uso do carvão etc. Diminuir as emissões. Mas o lado “B” é você cuidar da adaptação para evitar que coisas como essa que aconteceu, agora, na Cantareira, façam sofrer as pessoas e, principalmente, para evitar que desastres climáticos levem à morte de pessoas. E essa é uma coisa muito importante, e nisso não se fala, né? E aqui no Brasil os desastres climáticos estão matando pessoas. Então, a primeira coisa que eu faria era uma reunião com os governadores...

Sylvio Costa: Matando por quê? Não entendi...

Eduardo Jorge: Matando, por causa de enchentes, deslizamento de encostas. As populações pobres, novamente, empurradas para cima das áreas de preservação permanente (APPs), ocupando os rios, as margens dos rios, que Deus criou para poder abrigar a água e ela escoar lentamente para o rio e ir embora. A falta de política educacional, a imprevidência urbanística empurra o povo – principalmente o povo pobre – para cima dos rios. E isso acontece em Recife, mas acontece em Blumenau. Acontece com o Nordeste e acontece com as cidades germânicas. Então, isso é no Brasil inteiro. Encostas de morros. No Rio de Janeiro teve aquele desastre lá na serra – Teresópolis, Nova Friburgo, Petrópolis –, morreram mil e cem pessoas. Mil e cem pessoas – foi colocado como o décimo maior desastre climático do mundo, da história. O que aconteceu no ano seguinte? Morreram mais cem no mesmo lugar. Se fosse um país sério teria tido um impeachment do governador. Um impeachment! “Ah, porque não tratou naquele.” Mas no outro no ano morreram mais cem! Então – respondendo, né? – eu me reuniria com os governadores... “Olhem, vamos ter um plano aqui para, imediatamente, mapear toda a população que está em área de risco em nossos estados. E vão trabalhar com seus prefeitos, mapear uma por uma as famílias pobres que estão em áreas de risco, seja em beira de córregos, seja em encostas perigosas, e vamos dar prioridade máxima, número um, zero, aos programas habitacionais para garantir uma habitação segura para esse povo pobre. E não deixar mais ninguém entrar em área de risco.” Porque é assim, né? Às vezes tira um, e entra dois. Então, você tem que mapear, primeiro; tirar [a pessoa da área de risco], dando opção para ela; e depois não deixar mais ninguém invadir área de APP e área de encosta de morros. Por quê? Porque vai continuar tendo deslizamento, vai continuar tendo enchente, mas eu não quero que morra gente por causa de desastre climático no Brasil. “E vamos botar uma faixa aqui no Palácio do Planalto, e peço que ponham nos palácios dos senhores governadores, dizendo quantas pessoas morreram, por ano, por desastres climáticos no seu estado e no Brasil.” Para toda vez que o governador entrar, olhar. Toda vez que o presidente entrar, olhar. Eu acho que essa, do ponto de vista climático, é a urgência número um: não deixar o povo pobre morrer por causa de desastres climáticos no país. Isso aí não pode. Ter enchente, ter desabamento, isso aí acontece. Agora, deixar, sabendo que existe gente morando em local inseguro, e eu deixar lá uma pessoa morrer por causa disso? Isso, não. Isso não pode.

Fábio Góis: E o tamanho da máquina [pública]? O senhor falou em 14 ministérios e a união entre Câmara e Senado [para reduzir custos]...

Eduardo Jorge: Ele [Sylvio Costa] falou o que é que eu achava mais importante [risos]. Eu acho mais importante não deixar o povo pobre morrer em área de risco. Claro, isso aí [enxugar a máquina] já é a reforma que a gente quer fazer, porque é uma visão bastante severa, por um lado, do PV, mas de bastante fé na democracia. A gente quer fortalecer a democracia representativa e a gente quer inverter esta macrocefalia de Brasília, que é cada vez mais centralizadora, e colocar cada vez mais os recursos e as políticas públicas sob controle das prefeituras, porque assim é que é nos países com democracia mais consolidada: a maioria das políticas públicas e a maioria dos recursos são administradas pelos governos locais, que estão perto do povo. Eu, se eu quero recamar do secretário de Saúde lá em Araripina, ou em Ouricuri, eu vou lá e reclamo. Se ele não me atender, vou ao prefeito. Agora, se eu for reclamar lá em Recife, do governador, ou pior ainda, aqui [em Brasília], da presidenta, em Brasília... Não. A política pública tem que, cada vez mais, ser feita nos municípios, próximo do povo, para inclusive dar margem a observar a diversidade, a diferença que existe das condições do Acre e do Rio Grande do Sul. Somos um país continental. Então, nós vamos, sim, cortar aqui em Brasília, enxugar os gastos aqui em Brasília, mas não é nada de Estado mínimo. É para aumentar o tamanho do Estado lá onde ele deve ser grande, nos municípios.

Sylvio Costa: Mas o objetivo são 14 ministérios?

Eduardo Jorge: Entre outras coisas. Esses cortes, vários eu estou defendendo aqui em Brasília – e não é nada contra Brasília. Estou falando de Esplanada dos Ministérios. Não estou falando de Ceilândia, de Taguatinga nem do Plano Piloto. Estou falando da Esplanada. Nós temos que diminuir, sim, os recursos que estão imobilizados aqui em Brasília para poder termos mais recursos para saúde e para educação lá nos municípios, na defesa do meio ambiente...

Fábio Góis: Há quem fale em nove ministérios...

Eduardo Jorge: Então, uma das coisas que a gente está propondo, uma das, é essa: dos 23 ministérios e mais secretarias com status ministerial, que dá um total de 39, a gente aqui [na cartilha de campanha] colocou – e foi o primeiro [partido] que colocou, o nome [das pastas], inclusive, porque a gente estudou, para não prejudicar os programas que estão em andamento, ninguém quer prejudicar nenhum programa, de uma forma racional – em 14 ministérios. Vão ser ministérios mais fortes, os gastos vão ser mais racionalizados. Você vai economizar cada dinheirinho, cada moeda, a gente pode economizar com isso, para aumentar o gasto com educação e saúde. Então, nós estamos propondo14. A gente acha que 14, em vez de 39, dão conta, sim [da condução do país]. Não prejudica – pelo contrário, melhora o desempenho das políticas públicas, e vamos ter ministérios mais fortes. E, para não ser corporativista, inclusive, eu estou colocando – eu que sou da Saúde – o Ministério da Seguridade Social, juntando a Saúde com a Previdência. Que é uma coisa, inclusive, que a gente tinha previsto na Constituição, e que não se configurou.

Sylvio Costa: Era assim no passado.

Eduardo Jorge: É, mas porque também o sistema era muito restrito só a quem tinha a carteira assinada, né? Ainda era porque, no passado, antes da Constituição nossa, eles só cuidavam de um terço do povo do Brasil. Dois terços eram considerados indigentes. Então, com 14, dá, e aqui [na cartilha de campanha] tem os nomes. Eu falei dos outros candidatos, que andaram, também, falando... E não fui eu que inventei isso, isso é uma coisa óbvia, né? Mas a presidenta Dilma tem feito uma brincadeira com eles: “Diga quais são os [ministérios] que vocês vão cortar”. E eles não falam. Eu digo: “Presidenta, pergunta pra mim. Eu digo! Aliás, já disse, está escrito aqui”. [risos]

Sylvio Costa: Na sua primeira prestação de contas da sua candidatura, divulgada agora dia 6 de agosto, aparecem as transferências do diretório nacional do PV, mas sem a indicação dos doadores. Uma das pregações que o senhor fez ao longo da vida pública sempre foi de transparência. O senhor não acha mais correto indicar, com clareza, a origem dos recursos?

Eduardo Jorge: A origem está lá. É o tesouro, é fundo partidário. A discussão que eu tive com a direção do partido é que, em nossa campanha presidencial, embora a lei permita a doação de empresas, a gente decidiu que não vai receber doação de empresas e vai trabalhar com o fundo partidário, que é um dinheiro público que o nosso partido recebe mensalmente, e com doações de pessoas físicas. Aquela primeira rodada de prestação de contas, que é dinheiro para pagar programa de TV, assessoria jurídica etc, é todo ele vindo do fundo público. Não tem nenhum dinheiro de... Fomos nós mesmos, do povo, que pagamos. E agora começamos, nesta semana, estamos começando a arrecadar de pessoas físicas, com boletos. As pessoas vão ter um nome e vai ser publicado nome por nome.

Sylvio Costa: A lista dos nomes.

Eduardo Jorge: Nome por nome, claro. E numa coisa eu insisto: não vamos receber de empresas. Não que seja, digamos assim, uma recaída de hostilidade socialista, as empresas, mas eu acho que não tem sido boa a experiência, no Brasil, essa entrada das empresas no financiamento das campanas. Não têm sido boas. E é difícil você, inclusive, triar [os repasses]. Eu me lembro da campanha anterior, em 2010, quando estávamos discutindo isso: “Não, nós não vamos querer dinheiro da indústria do fumo, da indústria de armas, do agronegócio que usa muito agrotóxico”. Aí, um inconveniente perguntou lá: “E dos bancos”? Não, dos bancos, pode. “Mas não sãos os bancos que financiam eles?” [risos] A economia é muito imbricada, não há uma diferença entre um banco e uma empresa produtora de armas ou de fumo, né? É tudo imbricado. Então é melhor, eu acho, é mais correto, é mais saudável – que, aliás, a OAB [Ordem dos Advogados do Brasil] está propondo, e até o TSE [Tribunal Superior Eleitoral] está analisando – que não tenha doação de pessoa jurídica, e a gente se fixe no fundo partidário, que é dinheiro público, e a nossa primeira prestação é toda do fundo partidário, portanto é tudo público, foi todo o povo que pagou, na verdade, nós mesmos que pagamos, através de impostos, e pessoa física. Isso vai diminuir nossa capacidade de arrecadação? Vai. Mas também é coerente com o que eu estou dizendo no nosso programa, que as campanhas têm de ser mais austeras, mais simples e mais baratas, para libertar, hoje, uma escravidão que está existindo em Brasília – aqui em Brasília, em Salvador, em Fortaleza, em São Paulo – que é a escravidão dos parlamentares pelos lobistas que financiaram suas campanhas. Ontem [9 de agosto] eu estava em Minas Gerais, é um estado com 850 municípios, um país gigantesco. Você imagina o que é um sujeito ser candidato a deputado federal em um estado como esse, em uma campanha cada vez mais milionária. Então, o sujeito é eleito e depois, antes de pensar em Juiz de Fora, antes de pensar em Montes Claros, ele pensa em quem o financiou. Então, hoje, os parlamentares brasileiros, e também os Executivos, eles estão, de certa forma, escravizados pelo lobby das empresas financiadoras das campanhas. A gente quer, junto com a OAB, concordando com a OAB e, espero, concordando com o TSE, mostrar...

Sylvio Costa: No Supremo, na verdade, a maioria dos ministros já se manifestou [contra o financiamento de campanhas por empresas privadas].

Eduardo Jorge: Já se manifestou. E eu mandei uma carta, porque eu pedi, também, o redimensionamento do teto de nossa campanha, que tinha o pessoal da convenção que mandou o teto da mesma campanha anterior, nossa campanha com a Marina, em 90 milhões. Eu disse: “Eu não concordo, a gente não vai gastar isso”. E como eu não vou...

Sylvio Costa: O senhor vai gastar quanto?

Eduardo Jorge: Como eu não vou receber dinheiro de empresa, né? Eu quero baixar. Eu queria baixar para uns nove [milhões], nove e pouco, porque esse negócio de televisão eu fiquei abismado como é caro. A assessoria jurídica é cara, também, e o pessoal do jurídico nosso falou o seguinte: “Olha, não baixe muito, não, porque se por acaso tiver um tostão a mais de doação e passar você leva uma multa tremenda”. Então, terminou a gente sugerindo para o ministro [do TSE] passar de 90 para 15 milhões. Mas eu quero baixar – eu, efetivamente, na campanha – muito menos que isso, mesmo. Só o estritamente necessário. E mandei também, nesse ofício que mandamos para o TSE, para o juiz analisar, dizendo isso, que nós vamos, voluntariamente, não receber doação de pessoas jurídicas. O juiz falou o seguinte: “Olha, eu não posso alterar uma decisão que já veio da convenção, mas você está moralmente comprometido com a carta que você me mandou”. Então tá bom.

Sylvio Costa: Para concluir. Naquela vez, em 2010, o senhor defendeu que o partido não ficasse neutro no segundo turno. O senhor defendeu que tivesse um candidato. Qual foi o seu candidato?

Eduardo Jorge: Primeiro, eu defendi que o PV se posicionasse. Se seria o candidato “A” ou “B”, a presidenta Dilma ou o candidato Serra, já era outra coisa, e secundária. Eu, na ocasião, defenderia que fosse o José Serra. E por quê? Vou explicar, também. Eu acho que o PT e o PSDB, que são partidos da família socialista... Mas por que brigam tanto? Porque briga de família é daquelas que fazem mais barulho. E a social-democracia é socialista também – [Karl] Marx e [Friedrich] Engels foram fundadores e militantes do partido social-democrata alemão, que era o mais poderoso do século 19. Então, esses dois familiares socialistas, briguentos, eles têm uma característica de ter uma política econômica parecida, na prática, têm uma política social com familiaridades, mas algumas diferenças, mas são compatíveis. Então, empate naquele tempo...

Sylvio Costa: Eu acho alguns integrantes do PSDB não gostariam muito de ser qualificados como socialistas, segundo o senhor está dizendo aí. Mas de qualquer maneira...

Eduardo Jorge: O Brasil é um país tropical, e antropofágico...

Sylvio Costa: É um socialismo moreno, né?...

Eduardo Jorge: Antropofágico, canibalesco. [risos] É uma democracia mambembe que tem pouco apoio sindical, por exemplo. Mas o PT também, que, antigamente, era um partido com formação marxista-leninista muito influente, hoje é de um marxismo bem mambembe também, né? Então, até nesse ponto eles se parecem, na sua coerência. Bom, portanto se a economia e o social não são tão decisivos assim entre o PSDB e o PT, qual era a questão, na ocasião, e eu dizia, me levava a desempatar pelo José Serra? Porque o José Serra, e tinha provado na Prefeitura de São Paulo, tinha uma sensibilidade maior para as questões ambientais e de desenvolvimento sustentável. E eu tinha visto, eu vivi lá em São Paulo nesse período, a gente adotou uma postura de liderança mundial – fomos para a direção nacional do E-Clay, que é uma entidade de 1.500 cidades sustentáveis no mundo; fomos para a direção mundial do C-40, fomos fundadores do C-40, junto com Nova Iorque e Londres, por pôr propostas de combate ao aquecimento global. Por essa terceira dimensão, somente, eu preferiria que fosse o José Serra. Agora, isso nada quer dizer em relação a esta eleição agora, porque novamente, primeiro, eu espero que o PV ainda dê uma virada e chegue lá. Mas, se não chegar, nós teremos que analisar novamente o candidato “A” e o candidato “B”, como é que eles se comportaram nos últimos quatro anos, a trajetória... O “A” e o “B” são os finalistas da Copa do Mundo.

Sylvio Costa: Sejam quais forem.

Eduardo Jorge: Sejam quais forem. E aí você tem que, novamente, analisar e ver qual deles, realmente, tem mais abertura para a questão ambiental, e tomar uma posição. Se você me perguntar hoje, eu não diria nenhuma preferência.

Fábio Góis: Deputado, só mais uma questão. Eu acho que, inclusive nessa linha da diferenciação de qual é o socialismo de quem, nesse caso. O senhor, como médico sanitarista, com essa sua atuação na Secretaria de Saúde etc, o que acha do Mais Médicos? O Aécio falou um dia desse no Mais Médicos... Como seria o seu Mais Médicos?

Eduardo Jorge: O Mais Médicos, aqui [mostra a cartilha, novamente], tem um box só sobre o Mais Médicos. Eu dou tanta importância a isso que tem um boxezinho verdinho aqui só falando sobre isso.

Fábio Góis: O modelo [do programa] está errado, agora?

Eduardo Jorge: E, novamente, os nossos queridos candidatos de oposição leram isso aqui e estão falando quase a mesma coisa. Eu fico feliz que eles adotem essa posição. Que é a posição que eu adotei logo no começo. Olha, veja. O Mais Médicos, a importação de médicos, vamos analisar primeiro isso. Qualquer país que tenha um sistema organizado pode precisar importar médicos – a Inglaterra faz isso, o Canadá faz isso, a Austrália faz isso. Então, você importar trabalhadores de saúde – seja médico, seja enfermeira, seja fisioterapeuta ou dentista – não é nenhum demérito, não é nenhuma coisa de outro mundo. Não é nenhum desastre. O problema do Brasil e, nesse caso, do Mais Médicos, é que a gente teve, da Constituinte para cá, quase 25 anos, quase 30 anos para que o sistema de formação universitária brasileira – do Ministério da Educação e do Ministério da Saúde – formasse os médicos profissionais de que a gente precisa para o Sistema Único de Saúde. E é um profissional-chave para um sistema de saúde universal como o nosso funcionar, como a Inglaterra, por exemplo, mostra é um médico generalista muito bem formado, uma enfermeira generalista muito bem formada, e eles não fizeram. Zero. Zero. As universidades continuam trabalhando como se não houvesse Sistema Único de Saúde. Você chega a uma escola altamente importante federal, com um filósofo grego com uma lanterna procurando: “Pelo amor de Deus, tem algum médico generalista, algum médico de família bem formado aqui, dos 200 que vocês estão entregando? Eu não acho um...”. Então, o que acontece? Eu estou no governo há 12 anos. Eu faço uma pesquisa e mostro que 80% do povo brasileiro está insatisfeito com a saúde. 80% do povo brasileiro falam mal de saúde e falam da insegurança, da violência e do crime. Então eu fico, no governo, totalmente rendido. Então, tiram um coelho da cartola. Não importa, aí, cinco mil, seis mil médicos de última hora, faz-se um contrato de emergência e manda. Porque, se eu decido agora começar a mudar o sistema de formação para ter um médico generalista... Porque um médico generalista, um médico de saúde da família não é um subespecialista, não é um médico de segunda classe. Ele é o superespecialista, é aquele que vê você como um todo – porque o especialista, às vezes, vê você como... Pulmão, fígado, orelha, ponta de nariz, né? O médico generalista tem a condição...

Fábio Góis: Holística, né?

Eduardo Jorge: ...de te ver como um homem, como mulher, com histórico. É o superespecialista, é o contrário do que o Brasil pensa. Eu, se eu quiser mudar, agora, o sistema de formação brasileira dos médicos, vou levar seis, oito, nove anos para começar a colher os frutos da minha imprevidência. E eu, que fui governo, do PSDB, fui governo do PT, cada um deles, dez, 12 anos, e não fizeram. Então, é uma importação de última hora, é uma coisa eleitoreira. É claro, se eu não tenho um médico lá em Brejo do Cruz, no sertão da Paraíba, e coloco um médico, claro que eu vou ter um retorno eleitoral – e aí eu tenho um benefício imediato para a população que estava sem médicos. Mas é uma coisa insustentável, isso não vai resolver o problema. É uma coisa, claramente, uma manobra eleitoreira para tapar um erro, um fracasso do próprio governo.

Agora, tem uma coisa mais grave: que fosse uma manobra eleitoreira, mesmo assim dando algum resultado para o povo de Brejo de Cruz – bom, pelo menos três anos ele vai estar lá atendendo o povo, né? Tudo bem, já é um benefício para o povo de Brejo do Cruz. Agora, o que é insustentável, e que é o que eu digo aí [na cartilha], é você, no século 21, concordar com uma invenção de um novo tipo de mais valia em que nem Marx pensou: você fazer um acordo com um regime autoritário e ditatorial e importar milhares de trabalhadores, e tirar do salário deles, da condição do trabalho deles, deixar ele com três e mandar sete para o governo deles. Isso aí é uma humilhação para o Brasil. O Brasil assinar um acordo com um regime que trata seus trabalhadores dessa forma? Isso é semiescravidão! “Ah, porque não tinha jeito.” Eu ouvi algumas autoridades da saúde: “Não tinha outro jeito. Se não for assim”... É a mesma coisa que falavam os fazendeiros paulistas e do Rio de Janeiro quando nosso querido imperador, Dom Pedro II, ajudado pelos seus diletos amigos Joaquim Nabuco e André Rebouças, o maior engenheiro negro do Brasil, que lutavam pela abolição da escravatura, eles [fazendeiros] diziam: “Se esse imperador e esses subversivos aí fizerem isso, o Brasil vai quebrar, a economia toda vai parar, as fazendas todas de café vão deixar de funcionar”. Paralelamente, o governo está repetindo o que os fazendeiros de São Paulo e do Rio de Janeiro falavam da decisão de Dom Pedro, da sua filha [Princesa Isabel], de Joaquim Nabuco, de André Rebouças de, progressivamente, acabar com a escravidão no Brasil. Isso está escrito aqui, está escrito aqui. “Ah, e o que é que se faz?” Eu pago, pego os dez mil e entrego na mão do médico cubano, da médica cubana, e eles fazem o que quiserem – eles não são diferentes dos argentinos, dos bolivianos, dos espanhóis e dos portugueses que estão aqui... Se eles quiserem mandar os sete mil para o país dele, por uma questão, sei lá, política, ou porque têm medo do que aconteça com a família deles lá, aí é problema deles. Agora, o Brasil sujar as mãos e assinar um contrato escravagista com um país que trata seus trabalhadores dessa forma humilhante, isso aí é indefensável.

ENCERRAMENTO

Sylvio Costa: Vamos fazer aí um outro laboratoriozinho de síntese, aí. Algo como uma despedida final. Um minuto em uma mensagem...

Eduardo Jorge: Eu não obedeci você, não foi? Estou muito rebelde.

Sylvio Costa: Não, não foi muito... [risos] Vai dar trabalho para o pessoal do...

Eduardo Jorge: Da TV, né?

Sylvio Costa: O senhor tem sido chamado para debates? Como é que tem sido?

Eduardo Jorge: Tem nove programados. Nove debates, fora as entrevistas, sabatinas...

Sylvio Costa: Em debate, quando mais se tem, melhor, porque as pessoas estão tão desinteressadas por política que...

Eduardo Jorge: Eu não acho melhor, Sylvio, porque esse formato eu acho até autoritário.

Sylvio Costa: Do debate?

Eduardo Jorge: Do debate, porque você tem complexas e de múltiplas determinações para reduzir numa frase, numa tirada, numa pegadinha. Não gosto disso, não. Mas regra é regra, né? Eu vou fazer isso, vou ter que cumprir.

Sylvio Costa: Então vamos lá, mais uma última mensagem...

Veja ainda: Eduardo Jorge: PT faz política do século passado

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