Antes das urnas, disputa eleitoral nos computadores

Fábio Góis


Depois do fenômeno Barack Obama nos Estados Unidos, não foram poucos os analistas que diagnosticaram que, num país mais pobre como o Brasil, o fenômeno da eleição via rede mundial de computadores levaria bem mais tempo para acontecer. A julgar, porém, pelo que já é possível encontrar na internet, essa previsão mostrou-se incorreta. Com uma legislação que encurta a pouquíssimas semanas a campanha eleitoral, os partidos armaram-se para dominar o território livre da rede de informática. Vídeos, músicas e um atento exército de eleitores prontos para reagir a qualquer ataque contra seus candidatos nos espaços de comentários de qualquer site ou blog transformaram a internet em campo de batalha da disputa eleitoral. Ali, a campanha já começou há tempo.


Se os pré-candidatos ao pleito de outubro, bem como suas coligações partidárias, estão proibidos pela Lei 9.504 de fazer propaganda política na internet antes da data estipulada pela Justiça Eleitoral (6 de julho), internautas incendeiam o debate por meio de sites, blogs e, de maneira cada vez mais intensa, em comunidades e microblogs como Twitter, Orkut e Facebook.


Também na rede, a disputa está polarizada entre Dilma Rousseff (PT) e José Serra (PSDB), que têm liderado as intenções de voto em todas as pesquisas. Serra, que atravessa as madrugadas “twittando”, saiu na frente: por volta das 23h da última sexta-feira (21), tinha mais de 236.300 mil seguidores no Twitter, por exemplo, enquanto Dilma, com menos de um mês de atividade no microblog, tem perto de 64 mil seguidores.



Depois da divulgação da mais recente pesquisa do instituto Vox Populi, encomendada pela Rede Bandeirantes, este site percebeu como foi intensificada a manifestação das preferências eleitorais por meio da internet. Na primeira vez em que Dilma apareceu com percentual maior do que Serra (confira), com 38% das intenções de voto contra 35% do tucano, comentários de leitores de todos os cantos do país encheram os diversos canais de interação do site – seja no Twitter, no Facebook, no Espaço do Leitor ou nos espaços reservados ao final de cada reportagem.


“Com três anos de propaganda ilegal apoiada pelo presidente e usando dinheiro público nessa propaganda, ficar um pouquinho na frente não é de se vangloriar. Quando começar o período de propaganda permitido por lei, o povo vai poder comparar os currículos, a experiência de cada candidato”, ponderou o leitor identificado como “Ademar”, que recebeu pronta resposta do internauta “Vermelhão”, cuja alcunha auto-explicativa acompanha em ironia seu comentário.


“Ademar,chora! Chora bastante e diga que as uvas estão verdes! As esquerdas vão faturar as urnas mais uma vez! Viva Dilma!”, rebateu o petista.


Outro leitor trouxe à tona o passado recente – e nada saudoso – da política nacional, e fez menção aos “anos de chumbo” da ditadura militar. “Será que os militares, na hipótese de Dilma ganhar, vão deixar ela [sic] tomar posse? A ex-guerrilheira será a comandante-em-chefe das Forças Armadas brasileiras? Será que essa piada vai ocorrer?”, provocou, para ser confrontado em seguida.


“Política é questão de cidadania e de direitos humanos, civis, trabalhistas, sociais, culturais, de gênero, liberdades democráticas etc. Não é torcida de futebol que chora ou grita por fanatismos lúdicos. Quem não quer votar no Lula e na Dilma tem seus motivos, dos quais discordo, mas que respeito. Espero que estes também tenham a dignidade de respeitar os direitos dos outros, sem jogar recriminações aleatórias. O importante é acabar com a direitona [sic] golpista, que acusa a esquerda de ‘comer criancinhas’. Amadureçam politicamente conversando e dialogando em lugar de brigar de papos furados”, divergiu “Paganelli”.


Interação via Facebook


A batalha virtual seguiu em outras plataformas, e na esteira dos temas quentes do Congresso – como o projeto ficha limpa, aprovado pelo Senado na última quarta-feira (19), foco das atenções do noticiário na semana que passou. E, no Facebook, acabou sobrando para Serra. Autor de uma emenda no Senado que, dependendo da interpretação da Justiça, pode desfigurar o projeto, o senador Francisco Dornelles (PP-RJ) é um dos nomes cotados para ser vice de Serra.


“[Dornelles] tomou as dores do Maluf [PP-SP]! Quanto será que ele ganhou? Se for o vice do Serra e caso ele vá pro segundo turno, eu voto nulo! Aliás, poderíamos fazer uma campanha contra ele ser o candidato a vice do Serra!”, disse um leitor.


Atento ao noticiário, outro amigo do site no Facebook mostra que tem outras pretensões eleitorais e põe tanto Dilma e Serra na berlinda por suas andanças eleitorais. “Da série ‘reflexões na praia’ – 1. Serra com Padre Cícero no Ceará. 2. Dilma com Ratinho em São Paulo. Agora me digam: aonde eu vou amarrar a minha égua?”, brincou, lembrando as visitas feitas pelo tucano e pela petista, respectivamente, ao símbolo religioso do Nordeste e ao apresentador popular do do canal de TV SBT.


Território livre


Tanto no PT como no PSDB, a novidade da interação com os eleitores na internet é vista com atenção e com preocupação, pela capacidade que a rede tem de multiplicação da informação, seja ela verdadeira ou falsa.


“As informações vão circular cada vez mais livremente. Caberá às pessoas dividir o que é fofoca, o que é calúnia, e o que é informação de verdade”, disse ao Congresso em Foco o presidente nacional do PT, José Eduardo Dutra, um dos coordenadores da campanha de Dilma Rousseff. “


Em referência velada aos ataques adversários, o dirigente disse que caberá ao internauta fazer bom uso do material disponível na rede. “A internet é um novo meio, e mais rápido, de divulgação da fofoca. Eu gostaria que não acontecesse, mas é o tipo de ação que é impossível controlar. A fofoca tem espaço garantido na web”, disse o petista, para quem o crescente percentual de brasileiros conectados será positivo para o debate político.


“[Com o acesso à internet ampliado] o monopólio da informação vai estar sepultado. A própria população vai conseguir separar o que deve considerar e o que é baixaria”, conclui José Eduardo, acrescentando que a veiculação de fatos deturpados – os “efeitos colaterais” da informação democratizada – pode ser comparada ao que se ouve em “conversas de botequim”, porém com um efeito muito mais ampliado.


Um dos principais nomes do PSDB mineiro, o senador Eduardo Azeredo (MG) disse à reportagem que a profusão de discussões via internet é inerente à liberdade por ela propiciada. “Não vejo nenhum problema, as pessoas estão manifestando opiniões. Isso está dentro da liberdade da internet”, declarou o parlamentar, lembrando que apresentou no ano passado, durante as discussões da minirreforma eleitoral, uma emenda liberando a campanha eleitoral na internet em qualquer época (leia mais).


Azeredo, porém, queria limitar a ação na rede de computadores. Ele acusa a base governista no Congresso de impedir o que, na sua opinião, seriam avanços na legislação de internet.


“A parte ofensiva [das páginas da web], de falsificações, de difamação e calúnia, poderíamos impedir com a aprovação do projeto 89, que versa sobre a questão dos crimes e dos abusos na internet. Mas ele está paralisado na Câmara por causa do PT e do governo, que insistiram em ficar com uma versão deturpada do projeto e começar do zero”, criticou, referindo-se ao Projeto de Lei da Câmara 89/2003, que relatou em 2006 na Comissão de Constituição e Justiça do Senado.


O texto procurava tipificar como crimes de internet as violações técnicas de informática. Tais crimes poderiam ter pena de reclusão ou detenção de um a quatro anos. Entre os delitos, o projeto mencionava “difusão maliciosa de código” e “dano por difusão de vírus eletrônico ou digital”.


O senador considera que, além dos crimes operacionais, os “eventuais excesssos” também devem ser combatidos – excessos que, segundo ele, não preocupam o PSDB por estarem localizados em um percentual reduzido da sociedade, considerando-se os cerca de 190 milhões de brasileiros. “A internet será um dos meios de debate da eleição, mas não o mais importante”, acredita Azeredo.


Verdades e mentiras


Se os internautas já estão em cena no teatro virtual de operações eleitorais, as duas principais legendas da corrida ao Planalto não ficam a dever. Mas os caminhos diferem: enquanto o presidente Lula já foi multado pela quarta vez (leia) pela Justiça eleitoral, abarcando caciques petistas nas multas (Dilma entre eles), correligionários de Serra lançaram o site Gente que mente, por meio do qual os aliados de Serra fazem ataques à pré-candidata e aos demais articuladores da campanha petista.


Em um registro feito em 24 de julho de 2009, a página tucana acusa Dilma de mentir sobre a suposta alteração do próprio histórico acadêmico-profissional, com direito a um vídeo (confira). Enxergando “baixaria e jogo sujo na internet”, o PT acionou, em vão, a Justiça contra o site anti-Dilma: no último dia 18, o ministro do Tribunal Superior Eleitoral Joelson Dias alegou “crítica política (...) sem conotação eleitoral” para arquivar a ação.


“É a única coisa que a gente pode fazer [acionar a Justiça]. A interação na web a gente não deve e não pode controlar”, resignou-se José Eduardo Dutra, acrescentando que “uns dez tucanos” o seguem no Twitter para lançar impropérios. “Só sai baixaria. É uma realidade com a qual temos que conviver.”


Segundo José Eduardo, o PT não tem e nem vai elaborar uma página na internet nos moldes do site tucano. Os ataques vêm no próprio blog oficial do partido. Ali, há um registro feito em 10 de maio com o seguinte título: “Serra diz que é candidato de esquerda... Até Serra quer ser candidato de Lula” (confira).


“As pesquisas mostram que o presidente Lula está transferindo votos para a pré-candidata do PT à Presidência da República (...). O tucano José Serra já percebeu isso há muito tempo e não é por outras razões que não bate de frente com Lula, manda seus capangas bater”, diz trecho do material.


Universo Youtube


Em meio aos milhões de vídeos registrados no Youtube, maior site de veiculação voluntária de filmes e congêneres, a guerra eleitoral continua. O Congresso em Foco escolheu alguns exemplares que traduzem a forma como a campanha à Presidência chegou ali.


Primeiro, hackers eleitores de Serra invadiram o site oficial do PT. Em resposta a isso, um vídeo produzido pelo grupo “Mobiliza PSDB” censurou oficialmente tal postura propondo a realização de uma “campanha limpa”. No vídeo, porém, o grupo tucano inclui também material ofensivo a José Serra.


Veja o vídeo do PSDB:






O vídeo do PSDB faz parte de uma série disponível no Youtube que mostra a importância que se dá à rede como ferramenta eleitoral. Ao final, aparece o mapa do Brasil formado por logotipos de redes sociais como Flick e MySpace, além dos já citados Facebook, Orkut e Twitter.


Como troco, os petistas fizeram um vídeo em que criticam integrantes do DEM e do PP (o primeiro partido é o principal parceiro do PSDB na campanha de Serra, e o segundo, embora faça parte da base do governo, tem políticos que deverão optar pelo palanque tucano) que espalharam pela internet uma espécie de dossiê, fortemente carregado de opiniões, sobre o passado de Dilma Rousseff como integrante de uma organização de esquerda que optou pela luta armada como tentativa de combater a ditadura militar. No vídeo, os petistas perguntam: “Cadê a campanha limpa?”.


Veja o video do PT:






O vídeo, que menciona o passado de “guerrilheira” de Dilma é este:






Polarização e sistema binário


Para o sociólogo Marcello Cavalcanti Barra, um dos pesquisadores do grupo de pesquisa Ciência, Tecnologia e Educação na Contemporaneidade, da Universidade de Brasília (UnB), as discussões na grande rede são uma evolução do fazer político no país. “No aspecto de longa duração, a política de hoje, totalmente ligada ao verbo, à palavra, é um avanço em relação à política que se praticava com as armas. E essa política é a aceitação da existência do outro, a superação da guerra”, observa.


Marcello celebra a inclusão digital, mesmo ainda sob a diferenciação das classes sociais, como núcleos de legitimação da democracia. “As lutas políticas e democráticas vão se dar nessas pequenas esferas. A gente não pode falar de democracia se não há a inclusão social e política dos 190 milhões de brasileiros.” No entanto, o cientista considera que, em um processo “civilizatório”, em que há mobilização cada vez maior de membros da sociedade, o uso de palavras de baixo calão e comportamentos excessivamente ofensivos reforça uma tendência “desqualificadora da política”.


O pesquisador vê relações entre o sistema binário da internet e o fenômeno da polarização Dilma-Serra na corrida à Presidência da República – e enfatiza a importância do debate político na transposição de limites “técnicos”.


“A digitalização levou a um código binário. Existe uma certa tendência – e isso vem da informática – de polarização. A base da informática é técnica, só que foram introduzidas camadas de discussão políticas que levaram a muito mais que a simplicidade da técnica. A política faz com que a polarização não seja a única via. Se essa polarização – que não representa a diversidade da sociedade brasileira – se mostra problemática, abre possibilidade para o surgimento de outras candidaturas”, explica Marcello. Ele lembra como a internet foi determinante para a vitória de Obama nos Estados Unidos.


“Em 2006, Obama não era um candidato favorito. Mas, lá, eles realizam as eleições primárias partidárias [em que os partidos fazem uma pré-eleição com dois nomes de destaque], e aí você consegue introduzir um outro nome. No Brasil, que não realiza as primárias, isso nunca houve”, emenda o estudioso, acrescentando que a concentração do debate virtual nas classes média e alta não reflete a discussão de toda a sociedade brasileira. “Mas isso tem um impacto, porque [internautas] são formadores de opinião. Essas discussões acabam transpostas para os meios de comunicação de massa.”

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