Agnelo não respondeu tudo, mas teve desempenho elogiado

Antes do depoimento, aliados temiam que governador do DF se enrolasse. Ao final das dez horas de oitiva, porém, mesmo adversários admitiam que ele foi melhor que o esperado

Em determinado momento do depoimento do governador de Goiás, Marconi Perillo, na terça-feira (12), o relator da CPI do Cachoeira, deputado Odair Cunha (PT-MG), perguntou a ele se abriria mão de seu sigilo telefônico. Antes mesmo que Odair conseguisse incluir também na pergunta os sigilos bancário e fiscal, parlamentares do PSDB insurgiram-se dizendo que a proposta era absurda, uma vez que Marconi estava ali na condição de testemunha. Um dia depois, o governador do Distrito Federal, Agnelo Queiroz, compareceu à CPI e, sem que ninguém pedisse, abriu mão dos seus sigilos. Como tal disposição precisa ser formalizada, Odair Cunha apresentou um requerimento. E tratou de incluir também o pedido de quebra de sigilo de Marconi. Acuado, o governador goiano não teve alternativa senão imitar Agnelo.

Nenhum petista admite que a pergunta de Odair a Marconi e a declaração de Agnelo no dia seguinte tenham sido um jogo combinado. Mas não há ninguém no Congresso que acredite numa mera coincidência. Depois do drible de Agnelo, o senador Cassio Cunha Lima (PSDB-PB) assim resumia a performance dos dois governadores: “Terminou um a um”.

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Inicialmente, Agnelo não queria comparecer à CPI. Ao contrário de Marconi, que foi pessoalmente ao Congresso pedir para depor, o governador do DF tentou evitar a todo custo a sua oitiva. Até então, era Marconi quem ia levando vantagem. Quando Agnelo viu que seu depoimento era inevitável, foi convencido por seus assessores a mudar de tática. Acertou-se que ele responderia sobre tudo o que lhe fosse perguntado, mesmo que não dissesse respeito ao caso Cachoeira.

De 30 de maio até ontem (13), foram intensificadas as reuniões dos assessores com o governador. Uma especialista em media training foi contratada para que Agnelo se mostrasse mais à vontade na CPI.

Perguntas

A segunda parte da estratégia que permitiu um bom desempenho de Agnelo teve a participação de Odair Cunha. Durante aproximadamente uma hora, ele questionou o governador do Distrito Federal sobre as suspeitas de beneficiamento a Cachoeira na capital do país. Questionou sobre a indicação de pessoas ligadas à organização chefiada pelo contraventor. E pediu informações sobre os contratos celebrados com a Delta.

No fim do depoimento, Cunha disse que “as atividades do grupo são infinitamente superiores em Goiás do que no Distrito Federal”. Ao tomar a iniciativa de questionar sobre revelações da Operação Monte Carlo, Cunha deixou aos oposicionistas duas possibilidades. Uma era fazer as mesmas perguntas, que propiciaria ao governador repetir as respostas.

A outra era fugir do tema e pressionar Agnelo sobre as diferentes versões da compra de uma casa no Lago Sul, área nobre do Distrito Federal. O petista disse que pagou R$ 400 mil, em 2007, pelo imóvel. O valor, para oposicionistas, é incompatível com a renda dele. Foi o ponto em que Agnelo demonstrou maior fragilidade. Não ficou clara a forma de pagamento da casa, nem de que forma ela foi declarada à Receita. Além disso, o valor pago é bastante inferior ao valor de mercado dos imóveis em Brasília – R$ 400 mil é menos que o que se costuma pagar por um apartamento de três quartos no Plano Piloto. Mas a compra da casa não tem qualquer relação com o esquema do bicheiro Carlinhos Cachoeira, o foco da CPI. “Isso é algo que deve ser apurado pela Justiça, não é objeto da CPI”, afirmou Cunha.

“Agnelo deu um show que eu não esperava. Ele saiu fortalecido hoje”, disse o deputado Cândido Vaccarezza (PT-SP). Até terça-feira (12), especialmente após o depoimento do governador de Goiás, Marconi Perillo (PSDB), aliados e até petistas tinham receio sobre o desempenho dele. Acreditavam que a falta de traquejo nos microfones poderia prejudicar a imagem do governador.

Aliados têm medo que Agnelo se enrole

Como debate na TV

Aliados lembram que, numa comissão de inquérito, a avaliação do desempenho é feita como em um debate na televisão: quem melhor se expressa leva a melhor. Antes dos depoimentos, parlamentares acreditavam que Perillo, por ter conhecimento do Senado – foi senador até 2010 – e mais jogo de cintura, levaria a melhor.

“Este jogo ficou um a um”, resumiu o senador Cássio Cunha Lima (PSDB-PB). Voz destoante entre os tucanos, o paraibano entende que, primeiro, a CPI não poderia ter convocado Agnelo nem Perillo. Na visão dele, os depoimentos foram irregulares, já que a comissão não teria poder para convocar os chefes de Executivo locais.

Para o tucano, crítico da disputa entre base e oposição na comissão, até agora pouco foi produzido pelo colegiado. Existem 230 requerimentos em pauta. São basicamente convocações e quebra de sigilos de pessoas supostamente envolvidas com o bicheiro Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira. “Agora a CPI têm que entrar nos eixos, investigar Cachoeira e a Delta. Perdemos tempo”, resumiu.

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