Terça, 24 de Janeiro de 2017

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Vento, ventania, fatos e versões

Mirisola questiona por que impeachment passou de “festa da democracia”, em 92, a “golpe”, em 2016. “Enquanto a democracia continuar como balcão de negócios, haverá apenas acomodação de interesses, acordos-calheiros & conchavos”

Lembro muito bem de 1992, eu morava em Porto Belo SC. Lembro que a filha de Glória Perez foi assassinada no final daquele ano, e que Collor renunciou e, mesmo assim, foi impichado e seus direitos políticos foram suspensos por oito anos. Lembro que, na ocasião, bradava-se aos quatro ventos que a recém-inaugurada democracia brasileira havia passado por um teste de força e saía amadurecida da crise, que o nosso país iria servir de exemplo não só para a América Latina como para o resto do planeta.

Havíamos afastado o primeiro presidente eleito pelo voto popular depois de quase três décadas de eleições indiretas e sem recorrer a força, à época países do mundo todo nos prestaram solidariedade e nós vivíamos aquilo que os meios de comunicação batizaram de “Festa da Democracia”, pesquisem, leiam os arquivos dos jornais.

Era a versão oficial.

Lembro que repudiei ferozmente esse lero-lero e que, também jovem, avaliava os caras-pintadas um blefe. Acreditava que Collor, apesar do lamaçal que envolveu seu nome, havia sido impichado por um Congresso Nacional tão podre ou até mais podre e viciado do que ele e toda a república das Alagoas, PC Farias & Renan Calheiros a reboque.

Sempre bom lembrar que o STF inocentou Collor. Não lembro, depois de Collor afastado, que Itamar Franco tenha sido defenestrado como golpista, não lembro de ouvir brados de “Itamar golpista! Fora Itamar!”. A versão comprada e, até agora, não desmentida, é a de que Itamar desceu de uma nuvem ungido por Nosso Senhor, e em momento algum conspirou para a queda de Collor.

O problema é que hoje existem duas versões.

A versão oficial, que repete o mesmo discurso que colou há 24 anos. E a versão do golpe.

O que vai prevalecer é uma dessas versões (ou talvez um amalgama podre das duas) diante dos fatos: que viraram matéria de ficção e se imiscuíram com as duas versões, a oficial e a “impichada”. Vale dizer: o que sempre prevalece é a mentira.

Há 24 anos, o partido da ex-presidente chamava essa mentira (ou lambança) de “Festa da Democracia”. Eu lembro. Era a versão que convinha.

O que me ocorre, hoje, é fazer a mesma coisa que fiz naquela época: repudiar qualquer versão. E, na medida da verossimilhança,,me ater ao fato.

E o fato é que tanto um lado como o outro (leia-se versões) são nuvens, mudam de lugar de acordo com o vento, não passam de armadilhas e simulacros. O fato, coitado do fato… mas enfim, o fato é que enquanto a democracia no Brasil continuar sendo servida no balcão de negócios, haverá apenas acomodação de interesses, acordos-calheiros & conchavos e algumas nuvens às vezes negras e ameaçadoras, mas nuvens, vento, ventania, a população sempre manipulada, e versões.

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Sobre o autor

Marcelo Mirisola

Marcelo Mirisola

* Uma das grandes revelações da literatura brasileira dos anos 1990, formou-se em Direito, mas jamais exerceu a profissão. É conhecido pelo estilo inovador e pela ousadia, e em muitos casos virulência, com que se insurge contra as panelinhas do mundo cultural. É autor de Proibidão (Editora Demônio Negro), O herói devolvido, Bangalô e O azul do filho morto (os três pela Ed. 34) e Joana a contragosto (Record), entre outros.

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