Sexta, 24 de Março de 2017

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Como o ciberativismo ainda vai mudar o mundo

“O ciberespaço é lido como um oceano de informações que nos submerge e que nunca cessará, de maneira que ‘devemos aceitá-lo como nossa nova condição’, diz Pierre Levy, um dos grandes filósofos dessa nova era digital”

Clique abaixo para ouvir o comentário de Beth Veloso veiculado originalmente no programa “Com a palavra”, apresentado por Mariana Monteiro e Márcio Salema na Rádio Câmara:

O que o Brasil, o Egito e a Líbia têm em comum? Muito pouco, diríamos, a não ser pelo poder mobilizador da mais nova ferramenta política: o ciberativismo. Esse neologismo associa uma coisa muito nova em nossas vidas, a internet, com algo que já exista nos tempos de Aristóteles e Platão: o exercício da política.

Partindo da Câmara dos Deputados, falar sobre política faz parte do nosso negócio. Mas o que as pessoas não percebem é que o outro nome da política é a arte de negociar, de conciliar vontades, de tomar decisões compartilhadas. Ou seja, fazemos política todos em dias em nossas casas, com nossos filhos, com novas famílias e colegas de trabalho.

O ciberativismo deu uma nova dimensão para essa luta pela negociação diária em busca da sobrevivência de uma maneira civilizada: saímos da esfera micro para uma escala que nunca antes imaginávamos. Assim, a insatisfação de alguns deu lugar a uma multidão que protestava e derrubava governos e construiu, da noite para o dia, a chamada primavera árabe. Quem não se lembra dos protestos na Praça Tahrir, na cidade do Cairo, no Egito, que levaram o ditador Mubarak à medida radical de derrubar a internet em seu país, no dia 28 de janeiro de 2011, desconectando o Egito do resto do mundo?

Mubarak fez aquilo que chamamos, no jargão da tecnologia, de “matar o mensageiro”. Contra o poder conferido às massas para protestar e até derrubar governos, o ditador egípcio foi cartesiano: tirou do ar as redes sociais usadas para reunir multidão em questão de horas, mas não contou com os estragos provocados pela suspensão das transações bancárias, das transações comerciais, o silêncio desastroso nas bolsas de valores, e a dura realidade de que é impossível deter a circulação de informações num mundo altamente conectado.

Qualquer participante dos protestos no Brasil consegue perceber que o ativista político, seja qual o lado por que optar, não é mais apenas uma testemunha ocular da história do país e um protagonista da própria história. Trata-se de um produtor, ele mesmo, de um conteúdo e gerador de uma notícia que alcance uma audiência agregadora e segmentada, mas que dá uma nova envergadura para a chamada esfera pública.

As redes das operadoras simplesmente não dão conta à enormidade de selfies, fotos-documentário e vídeos produzidos pelos militantes políticos, e a mesma mídia de massa precisa recorrer ao conteúdo produzido e postado a cada segundo nas mídias sociais.

Antigamente, assassinava-se o mensageiro que levaria a carta ao rei no seu bonito cavalo branco, alertando sobre a chegada da tropa inimiga. Hoje, o duelo se dá no terreno das ideias, em que vale divergir, vale segregar e vale até bloquear o adversário político. Mas o que antes os sociológicos chamavam de esfera pública tornou-se, definitivamente, uma esfera virtual e de consequências imprevisíveis.

Tomemos agora o Brasil como melhor exemplo. Dois anos após a primavera egípcia, a Avenida Paulista foi palco do maior protesto espontâneo, cujo embrião foi a insatisfação pelo aumento das passagens de ônibus em São Paulo. O ano foi 2013 e o dia foi 20 de julho, quando mais de 1,2 milhão de pessoas participavam do maior protesto do século 21 no país, numa insatisfação que começou tímida com o Movimento Passe Livre. Nascia ali o #vemprarua e #ogiganteacordou, slogans mais tarde rebatidos com o #naovaitergolpe, que indexam as correntes e unem os semelhantes.

As armas digitais da informação servem para unir e, especialmente, para desunir, mas o fato é que não são desprezadas por qualquer político em sã consciência. Poderíamos arriscar o bordão, tão usado nos cursos de Comunicação, de que o que não está na telinha, não está no mundo – neste ciberespaço que muitos teóricos chamam, também, de cultura da convergência, em que se analisa ou se perde a dimensão da multiplicidade de abordagens existentes em torno da mesma categoria.

É claro que nós, simples mortais, ficamos exaustos da luta política implacável no admirável mundo das redes sociais, em que o dilúvio informacional, outro conceito dos teóricos, não consegue abarcar a complexidade desse universo. Mas o fato é que o ciberespaço é lido como um oceano de informações que nos submerge e que nunca cessará, de maneira que “devemos aceitá-lo como nossa nova condição”, diz Pierre Levy, um dos grandes filósofos dessa nova era digital.

Levy nos transmite, então, o seguinte recado:

  1. não adianta matar o mensageiro, porque as possibilidades são infinitas nesse ambiente virtual;
  2. em meio à chuva, não adianta fazer a sua arca de Noé e abarcar uma espécime semelhante, se você julga que pode mudar o mundo ao seu redor;
  3. aproprie-se do ciberativismo como um estandarte das minorias, mas se acostume com a presença dos grandes gladiadores; o mundo virtual também é dos impérios clássicos e, por fim, quando tudo parecer perdido ou desanimador. Repasse aquela mensagem para dois amigos seus, e corra para a sua trincheira, que logo ela estará repleta de iguais. E o mundo ficará mais aconchegante, até a próxima batalha.

Mande suas dúvidas e sugestões para papodefuturo@camara.leg.br

Coluna produzida originalmente para o programa Papo de Futuro, da Rádio Câmara. Pode haver diferença entre o áudio e o texto.

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Sobre o autor

Beth Veloso

Beth Veloso

* Jornalista e consultora legislativa da Câmara dos Deputados nas áreas de comunicações, ciência e tecnologia. Apresenta a coluna "Papo de Futuro" todas as terças-feiras, às 9h, no programa Com a Palavra, da Rádio Câmara FM.

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