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Mateus

Colocado diante de um problema gerado por outrem e desejando ficar de fora​,​ é comum a pessoa reagir dizendo: “quem pariu Mateus que o embale”. Mateus, todos sabem, foi um dos discípulos de Jesus Cristo e autor de um dos Evangelhos do Novo Testamento.

Antes de ser discípulo de Jesus, Mateus era um publicano, ou seja, um (cobrador) coletor de impostos, do Império Romano. ​Os coletores de impostos não eram bem vistos, muitos deles eram corruptos e cobravam mais do que o devido e se apropriava​m​ da diferença. Também não eram bem vistos pelos sonegadores da época. Sonegadores existiram em todas as épocas e existem hoje​. N​o caso espec​í​fico do Brasil, são muitos.

Mateus​,​ por ser um publicano não era aceito, por alguns, como discípulo de Cristo, ou seja, tornou-se um “problema” para Cristo e como foi ele quem pariu o (Mateus) seguidor, deveria embalá-lo. Dizem que esta é a origem da frase “quem pariu Mateus que o embale”. De qualquer maneira​,​ a moral é a seguinte: se alguém cria algum problema, deve ser responsável ​por solucioná-lo.

Mateus Coutinho de Sá Oliveira foi parido, embalado e educado para ser um cidadão honesto e trabalhador​,​ e assim era considerado até que os justiceiros da operação lava jato​,​ em uma de suas espetaculosas e midiáticas fases​, o​ prenderam. Preso​,​ foi julgado pelo juiz Sérgio Moro​, que​ o condenou a 11 anos de cadeia. Tudo feito muito rápido e sem provas.

Na ​ú​ltima semana​,​ Mateus Coutinho de Sá Oliveira e Fernando Augusto Stremel Andrade (condenado a quatro anos em regime aberto), ambos ex-executivos da OAS, foram absolvidos pelo Tribunal Regional Federal da 4ª Região. Ambos absolvidos, diga-se de passagem, por decisão unânime, por falta de provas.

Se quem pariu Mateus deve embalá-lo, pergunto: q​uem o condenou não deve indenizá-lo por todos os danos causados?

A Constituição estabelece, no art. 5º, ​inciso ​LXXV, que “o Estado indenizará o condenado por erro judiciário, assim como o que ficar preso além do tempo fixado na sentença, garantindo a tal dever caráter de direito fundamental”. Com este disposto constitucional é muito fácil para os juízes condenarem sem provas inocentes. Não serão eles que indenizarão a vitima, será o Estado, ou seja, seremos nós​,​ os pagadores de impostos​,​ e não os sonegadores e os transgressores da lei.

Caro leitor, cara leitora, entende agora por que muitos delegados, juízes e procuradores estão contra uma lei que puna o abuso de autoridade?

Como a Lava Jato, em conluio com a mídia, age de maneira rápida e​,​ muitas vezes, irresponsável​,​ expondo pessoas e cometendo injustiças​,​ dá para imaginar o que deve vir por aí: uma avalanche de pedidos de reparação por danos morais, pois são muitas as que estão sendo destruídas.

Poderia escrever sobre outros casos​,​ como a da senhora Marice Corrêa de Lima, cunhada de João Vaccari, que foi presa por engano. Quando presa​,​ o juiz Sérgio Moro declarou não ter “margem para dúvidas” sobre a prisão dela. Dias depois​,​ constatou-se o engano. E os danos morais​,​ quem paga?

Mas fico com o caso do Mateus, que parece, como ​o de outros, história da época da ditadura. Foi levado de casa pela Polícia Federal, em novembro de 2014​,​ na Operação Juízo Final. Como outros, foi preso, sob os holofotes da mídia, principalmente da Rede Globo.

Na cadeia​,​ dizia aos colegas de cela que sairia rápido, pois seu advogados provariam sua inocência. Pediu para a esposa não levar a filha para visitá-lo. Não queria que ela assistisse ​à tristeza da visita coletiva a uma cadeia. Não queria que ela levasse a imagem do pai preso.

Como a liberdade passou a ser cada dia mais distante, diz reportagem da Folha de S.Paulo que Mateus “passou a estudar a possibilidade de receber a filha numa visita, mas queria preservá-la dos dissabores de uma cadeia. Fez um acordo com a direção da carceragem e a menina foi vê-lo num dia sem visitas de outros presos”.

Segundo a matéria​,​ a “sala destinada às visitas fica longe das celas. Mesmo assim os presos ouviram a menina gritar “pai” quando o viu”. Informa o texto que todos se emocionaram.

Mateus perdeu o emprego, teve o passaporte retido, seu casamento naufragou e sua reputação não precisa dizer onde foi parar.

Quem pariu este sofrimento psicológico e moral a Mateus deve repará-lo.

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Sobre o autor

Dr. Rosinha

Dr. Rosinha

* Médico, com especialização em Pediatria, Saúde Pública e Medicina do Trabalho, destacou-se como líder sindical antes de se eleger vereador, deputado estadual e deputado federal. Também foi presidente do Parlamento do Mercosul (Parlasul). Exerce o quarto mandato na Câmara dos Deputados, pelo PT do Paraná.

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