Terça, 17 de Janeiro de 2017

Colunistas

Feliz ano novo. Mas é possível?

“O Brasil vive uma profunda crise de representatividade, econômica, política, institucional, moral e humanitária. Diga-se de passagem, crise construída e que agora será de difícil recuperação”

​A t​odo final e​ ​in​í​cio de ano, independe​ntemente​ da conjuntura ou da situação pessoal, por convicção ou por educação, o cidadão ou cidadã deseja a interlocutor​es​ um ​”​feliz ano novo​”​. No Brasil, creio que são poucos os imunes a isso, inclusive eu​,​ por educação​,​ sempre desejo ​”feliz ano novo​”​.

Hoje, momento ​em ​que escrevo este artigo, última semana do ano, parei para pensar e não por pessimismo, mas pelo ano de 2016 e pela realidade presente, me perguntei: como vou desejar a alguém um ​”​feliz ano novo​”​?

Vivemos ​em ​um país onde a aplicação da lei nunca foi regra​. Mas agora, com a fase de preparação do golpe de Estado e ​a ​fase​ seg​uin​te, ​de​ s​u​a​​​​ consolidação, piorou. A lei sempre foi aplicada​,​ e com rigidez – isso não é novidade – contra os pobres, as pu​​tas e os pretos.

Agora, além de valer contra esses três ​’​P​​​s’​, acrescentou-se outro, o do Partido dos Trabalhadores. A es​​​s​​e som​aram-se os militantes em favor das causas sociais, como​,​ por exemplo​,​ saúde, educação pública de qualidade, direitos humanos, liberdade e democracia​. De uma maneira geral​,​ outros Ps, principalmente o​s​ do PSDB, estão imunes. Os crimes que cometem, em geral, são invisíveis, perante alguns proc​​uradores, policiais e juízes.

O Brasil vive uma profunda crise de representatividade, econômica, política, institucional, moral e humanitária. Diga-se de passagem, crise construída e que agora será de difícil recuperação.

Nos dois anos finais do primeiro mandato da presidenta Dilma​,​ os partidos de oposição (PSDB, DEM, PPS, Solidariedade, PSD e seus anexos), junto com a Rede Globo​,​ começaram a se opor, não ​​​à​s políticas do PT e de Dilma, mas à ​construção de um Brasil mais justo e igualitário. Com a reeleição da Dilma, ​a​ esses setores se agregaram alguns juízes, policiais federais e procuradores, principalmente os da Operação Lava Jato​,​ ​​que​ passaram a trabalhar com afinco na destruição do Brasil.

Durante a campanha golpista​,​ prometeram uma “ponte para o futuro”. Basta​ria​ derrubar a Dilma e tudo seria melhor. Derrubada Dilma, a ponte virou, de acordo com Fernando Henrique Cardoso, um dos organizadores do golpe, uma pinguela.

Terminamos mal 2016 e começamos 2017 só com perspectivas negativas. Não entrarei em números, mas o que se desenha é diminuição das vendas no comércio; redução da produção industrial; retração da oferta de serviços e como consequência desses três fatores o aumento do desemprego (dezembro de 2014 o desemprego era de 4,8%, hoje é de 11,9%); para os ​​que continuarem no emprego, não há perspectiva de aumento real do salário.

Mais, Temer e os golpistas querem uma reforma da Previdência que obrigará uma pessoa a trabalhar no mínimo 40 anos para começar a sonhar em ​se​aposentar; alteração da CLT, colocando o negociado sobre a lei, ou seja, o patrão dirá com todas as letras “ou aceita o que te ofereço ou vai pra rua”; o Sistema Único de Saúde destruído: perda da qualidade da educação pública e diminuição do número de vagas; programa de moradia, como o Minha Casa Minha Vida, desmontado; ​​Petrobr​a​s sendo entregue ​​​​​à​s grandes petroleiras.

Terminamos 2016 e entramos em 2017 com um governo de machos para machos. Todas as polí​ticas públicas em favor da mulher foram destruídas. Cresce o fascismo e aumenta a violência contra a mulher, negros e homossexuais. Pode-se dizer com todas as letras: em sete meses e pouco do governo Temer​,​ o Brasil retroagiu ​​​​à​​ década de 1990.

Neste Brasil de profunda crise política, econômica, institucional, moral e de representatividade,​ o senador Wilder Morais​,​ do PP, um dos partidos mais corruptos, quer colocar na cadeia as crianças que colam nas provas. Escreveu Lauro Jardim que o senador (s minúsculo mesmo) quer tornar crime, punível com reclusão de um a quatro anos​,​ quem colar em provas de escolas públicas.

Só os pobres estudam em escolas públicas​. ​​Portanto​,​ cadeia para eles. Os ricos podem colar ​​à​​​​ vontade​,​ e depois se eleger senador.

Enquanto isso​,​ o golpista Temer queria iniciar 2017 gastando R$ 1,75 milhão na compra de 10.120 almoços e jantares para consumir a bordo do avião da Presidência. Entre estas despesas estava a compra de sorvetes Häagen-Dazs. Ele chupando sorvete e​ o​ povo​,​ o dedo.

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Sobre o autor

Dr. Rosinha

Dr. Rosinha

* Médico, com especialização em Pediatria, Saúde Pública e Medicina do Trabalho, destacou-se como líder sindical antes de se eleger vereador, deputado estadual e deputado federal. Também foi presidente do Parlamento do Mercosul (Parlasul). Exerce o quarto mandato na Câmara dos Deputados, pelo PT do Paraná.

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