Temer: povo pensa que FHC roubou dos pobres em favor dos ricos

Em sua conta no Twitter, o Wikileaks classificou Temer como um "informante" dos Estados Unidos

O Wikileaks divulgou dois telegramas sobre conversas mantidas entre o presidente interino Michel Temer e funcionários da Embaixada dos Estados Unidos no Brasil, nos dias 11 de janeiro e 21 de junho de 2006. Os documentos revelam uma leitura bastante própria que o então deputado federal – e presidente nacional do PMDB – fazia, dez anos atrás, sobre dois personagens que até hoje mantêm grande influência na política brasileira, os ex-presidentes Lula e Fernando Henrique Cardoso. O primeiro tornou-se recentemente um dos maiores adversários e o segundo, um dos grandes aliados do recém-iniciado governo Temer.

De acordo com um dos despachos, muitas pessoas pobres no Brasil, “na visão de Temer, acreditam que FHC roubou dos pobres para dar aos ricos, enquanto Lula rouba do rico para dar ao pobre”. Temer, acrescentam as mensagens, apresentou o principal adversário de Lula nas eleições de 2016, o governador paulista Geraldo Alckmin (PSDB), como alguém sem carisma e que teria grandes dificuldades para vencer o petista, que terminou ganhando a disputa. À época, dizia Temer, o PMDB estava dividido quase igualmente entre os grupos pró e anti-Lula.

Conhecido mundialmente por seu trabalho para dar transparência a dados de interesse público, o Wikileaks divulgou os links em sua conta no Twitter nos seguintes termos: “#Dilma, do Brasil, deposta em golpe parlamentar; novo presidente é o informante da embaixada dos EUA Michel Temer”. Foi o suficiente para petistas e ativistas digitais contrariados com a saída de Dilma Rousseff do governo começarem a disseminar que Temer seria espião da embaixada norte-americana no Brasil. Não está clara a exata natureza das relações que Temer manteve com autoridades dos Estados Unidos, mas relatar o que se passa no país onde atua é parte importante do ofício dos diplomatas, que cumprem esse papel em encontros com políticos, jornalistas, líderes sociais e outras pessoas.

Em geral, tais encontros são absolutamente legais e permitem ao observador estrangeiro ter uma visão mais rica dos acontecimentos nacionais, por intermédio de alguns dos seus autores – enriquecendo as análises feitas a partir do monitoramento da mídia, por exemplo. Os dois documentos vazados pelo Wikileaks não são considerados secretos, mas apenas “sensíveis”.

Em 7 de julho de 2006 (depois, portanto, dos dois encontros citados), Michel Temer declarou apoio à candidatura de Alckmin ao Planalto. A decisão foi anunciada um dia após Lula receber o apoio de cerca de 80% dos diretórios regionais do PMDB. “Eu hoje estou declarando meu apoio a Geraldo Alckmin por duas razões: primeiro, para revelar que nem todo o PMDB optou por uma candidatura e, segundo, para revelar que há muitas divergências nos estados quanto a isso”, discursou na ocasião.

Os telegramas ainda citam uma possível disputa entre um candidato do PMDB com Lula, caso não houvesse acordo entre os partidos. Naquele momento, o nome cotado pelo partido era o do ex-governador do Rio de Janeiro Anthony Garotinho. Germano Rigotto, na época governador do Rio Grande do Sul, e Nelson Jobim, ex-ministro da Defesa, também foram cogitados.

Em outro trecho, Temer disse que qualquer que fosse o presidente eleito naquele ano teria de se aliar ao PMDB para governar. “Quem quer que vença a eleição presidencial terá que vir até nós para fazer qualquer coisa”, disse, de acordo com o relato da diplomacia estadounidense. Para exemplificar o poder do partido que presidia, Temer citou que o PMDB elegeria entre 10 e 15 governadores e as maiores bancadas na Câmara e no Senado. O peemedebista, porém, se negou a prever como ficaria a corrida eleitoral daquele ano, mas afirmou que haveria segundo turno.

Um ano após enfrentar a maior crise de seu governo, as revelações do mensalão, o então presidente Lula conseguiu se reeleger com 60,83% dos votos válidos contra 39,17% obtidos por Geraldo Alckmin no segundo turno. A votação foi marcada por uma curiosidade:  o tucano teve menos voto no segundo do que no primeiro turno.

O Congresso em Foco procurou a assessoria do presidente em exercício em busca de esclarecimentos sobre o assunto, mas até este momento não teve retorno.

 

Íntegra do primeiro telegrama

Íntegra do segundo telegrama

 

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