Principais trechos da degravação

A FORÇA DO CELULAR

Godofredo Bittencourt Filho, diretor do Departamento de Investigações sobre o Crime Organizado de São Paulo (Deic-SP):
“Na realidade, hoje uma das armas que mais preocupam a polícia no combate ao crime organizado, obviamente não letal, é uma arma que se chama celular. O celular dentro de cadeia é mais perigoso do que dez fuzis na rua. Vou deixar bem claro para o senhor: um celular é mais perigoso do que dez fuzis na rua. Nós fizemos recentemente uma prisão em São Paulo de três pessoas especialistas só em clonar telefone para bandido. Os telefones são danados, 30, 40, 50, 60, 100 telefones, e distribuídos nas cadeias. Nós estamos cansados de ver a imprensa do Estado mostrar bandidos fotografando, inclusive o Sr. Marcola, com um telefone celular, tirando fotografia dentro da cadeia. Os senhores devem ter visto isso na imprensa escrita, está certo? Nós temos uma luta muito grande com as operadoras para que isso não venha a acontecer. Não estamos conseguindo êxito nisso. Estamos reclamando. Enquanto existir essa facilidade de o celular entrar na cadeia, eles vão se comunicar, conversar, falar e dar ordens. Para os senhores terem uma idéia, os seqüestros, as extorsões mediante seqüestro em São Paulo, mais de 70% são comandadas dentro da cadeia. O bandido tem o seu braço fora da cadeia. Ele faz, ele fica sabendo quem é o alvo de que ele precisa, fala com os … dá ordens, conversa, faz e até orienta a negociação. Então, tudo de dentro da cadeia, e você não consegue chegar à identificação, porque o celular é trocado em dois ou três dias, o chip dele, e vai fora. Há uma necessidade realmente de nós pararmos com o celular. Isso é um fato muito preocupante. Se conseguirmos fazer isso, vamos quebrar a perna de todo criminoso”.
“(…) Discutimos ontem, numa reunião com o pessoal da Secretaria Penitenciária, a dificuldade, dentro da lei, que eles têm de fazer até as revistas que são feitas. E as famílias e até advogados levam isso realmente para o preso, e o preso tem, na realidade, um comando lá dentro. Senhores, São Paulo tem 140 mil presos. São 140 mil homens do PCC dentro da cadeia e 500 mil ou mais familiares fora. Eles estão hoje programando inclusive para fazer eleições de políticos, está certo? Então, isso nos preocupa muito. Seria muito importante que essa arma perigosa que é o celular se conseguisse fazer com que as operadoras a bloqueassem e eles não conseguissem entrar mais”.

CRÍTICAS ÀS OPERADORAS DE CELULAR

Godofredo:
“Você se reúne com as operadoras e a cada momento a operadora alega legislação, alega tecnologia, dificuldades, está certo? Não estamos conseguindo, na realidade. Nesta semana nós estamos tentando fazer uma reunião novamente com todas elas, tentando fazer uma pressão em cima delas, porque o governo dá a concessão, e acho eu que ele tem condições de fazer que na legislação a operadora cumpra isso, mas está na mão dela. E, pior que isso, neste caso que está aqui nós temos envolvimento de pessoas dentro da operadora. Então, aqui nós prendemos o pessoal na rua que faz e a pessoa de dentro da operadora que dá o (ininteligível), quer dizer, o número do seu rádio para ser clonado”.

Delegado Ruy Ferraz Fontes, titular da 5ª Delegacia de Roubo a Banco do Deic:
“Para sugestão: exigir da operadora – isso já passou da hora – que ela agregue tecnologia ao seu sistema para que forneça à polícia, no telefone interceptado, a localização desse telefone. Eles fornecem esse serviço comercialmente. Eles têm a possibilidade de oferecer esse serviço comercialmente e oferecer para a polícia prender o seqüestrador que está com o sujeito no cativeiro, e eles não dão. Eles dizem assim: “Olhe, está aqui na área da estação rádio base nQ 10″, que que agrega 5 quilômetros de distância! Como é que nós vamos achá-Ia dentro de São Paulo, com uma população de 15 milhões de habitantes, em 5 quilômetros?”

Deputado Moroni Torgan: “Na verdade, era para haver alguém da polícia em cada operadora dessas, para…”

Delegado Ruy: “… para fazer a representação. Eu acho que seria excelente se acontecesse um negócio desses. (…) Nós pegamos três celulares cadastrados com nome de ltamar Franco! Isso é uma gozação. E numa mesma operação. Ele ligava lá e dizia: “Itamar Franco, rua 12, nQ 4″.

GOVERNO DE SÃO PAULO ERROU

Godofredo:
“Houve uma época em que o governo do estado cometeu um erro, quando pegou a liderança do PCC e os bandidos mais perigosos e redistribuiu-os pelo Brasil, entre Brasília, Rio Grande do Sul e outros estados, como Rio de Janeiro, Mato Grosso do Sul e Bahia. Então, isso, na realidade, acabou fazendo um acasalamento, está certo? E todo estado tem, de certa maneira ou de outra, alguma organização criminosa que se protege. Então, o Comando Vermelho, por exemplo, começou a ter muito contato com o PCC, a ponto até de liberar por si droga no Rio para que o PCC pudesse até explorar em briga de ponto de droga. Então, na realidade, o PCC é forte na capital, mas ele é apoiado em todo o Brasil, aonde vai. Virou realmente uma febre. Ser do PCC é bom negócio. Agora, veja bem, tamanha é a orientação referente a isso que muitas pessoas vão cometer o crime sem muitas vezes saber o que tem de fazer. Se não vai, morre. Nós prendemos há tempos atrás um tesoureiro do PCC, o Dr. Ruy prendeu, ficou, em seguida mataram-no, em questão de dez ou 15 dias. Não é isso? Mataram-no porque ele não interessava mais”.

EXTORSÕES VIA CELULAR

Godofredo:
“Criam uma situação de… uma sensação de insegurança. E a cada momento, pela dinâmica do próprio crime, eles vão inventando uma coisa; a última que inventaram no Rio de Janeiro foi da seguinte maneira. Atendemos pessoalmente a vítima em São Paulo: ele ligou, o sujeito pagou R$ 1 mil; ligou de novo, e com medo de seqüestrar alguém da família, ele pagou o segundo R$ 1 mil; na terceira, o sujeito foi nos procurar e lhe dissemos: ‘Não faça. Não adianta. Pare.’ Aí veio a ligação. O sujeito disse para ele: ‘Olhe, o senhor por duas vezes pagou, fez um depósito aqui para nós, para o meu traficante aqui. Eu estou com um jornalista aqui que está sabendo da história. Se você não pagar, nós vamos colocar, porque tem uma prova de depósito, como uma associação ao tráfico de drogas.’ E o cara continuou pagando, está certo? Então, o senhor vê: 100 ligações dessas chegam a São Paulo quase que por dia. Hoje já diminuiu, porque nós fomos à televisão e informamos que não se faça, que não aconteça. Deu para entender? Mas ninguém está preparado para receber esse tipo de telefonema e ter a firmeza de segurar e não tomar nenhuma providência”.

FRAUDES EM CONCURSOS PÚBLICOS

Deputado Paulo Pimenta (PT-RS), relator da CPI:
“Delegado, não sei se os senhores chegaram a acompanhar: a Polícia do Distrito Federal, junto com a Polícia Federal, desbaratou uma quadrilha que era especializada em fraude de concursos públicos, e naquele concurso para agente penitenciário federal ficou absolutamente claro – não sei se os senhores chegaram a ter acesso a esse material – que havia ligações de São Paulo, do Rio de Janeiro, para esse grupo de Brasília, que fraudava o concurso no intuito de fazer com que pessoas ligadas ao PCC tivessem acesso prévio ao gabarito. Foram mais de 90 prisões em cinco estados. Então, isso aí, no meu ponto de vista, está ramificado em todas as esferas da instituição. Nesse caso do concurso, eu não tenho nenhuma dúvida de que eles tinham a clara intenção de garantir a presença de um número significativo de pessoas entre os aprovados no cargo de agente penitenciário federal, da carreira nova que estava sendo criada, não é?”

Ruy Ferraz:
“Ele [Marcola] com certeza geriu a questão dos concursos públicos. Eles formam, pagam pela formatura de pessoas nas escolas de Direito. Está lançado no livro, está escriturado em livro. Então, a organização é muito séria mesmo, e a tendência é crescer, porque a gente acaba não tendo como, não conseguindo atingir o objetivo principal que é desmontá-Ia, porque está muito difícil desmontar essa estrutura”.

CONDENAÇÃO À MORTE EM CONFERÊNCIA TELEFÔNICA

Delegado Ruy Ferraz:
“Eu gostaria, para ilustrar, de fazer primeiro uma observação: nós temos gravada uma conferência de chamadas entre 12 presos – esses 12 presos pertenciam na ocasião à alta hierarquia do PCC – decidindo sobre a vida de um indivíduo que já estava retido e custodiado com alguns criminosos em São Vicente; nós não sabemos exatamente onde, mas em São Vicente. Eles julgaram, através da conferência de chamada, esse camarada, condenaram esse sujeito à morte, e ouviram os tiros que mataram esse sujeito. Isso está gravado, para demonstrar a arma eficiente que é o telefone celular”.
“(…) Então, eu quero demonstrar o quão é difícil para a gente acompanhar uma situação dessas, a gente enfrentar duas crises: a primeira porque tem gente em conferência de chamada decidindo sobre a vida de alguém, ainda que um criminoso, tá? Decidindo sobre a vida de alguém. A nº 2: a operadora não nos dá condição de identificar o local de onde está partindo a chamada para a gente tentar salvar a vida do cidadão. Não conseguimos! O cidadão foi efetivamente morto. O corpo dele desapareceu no mangue de São Vicente, e até hoje nós não encontramos o cadáver. Isso faz parte de uma investigação sobre o PCC. Isso foi gravado. Encontra-se gravado e juntado num dos 12 inquéritos policiais sobre o PCC. Isso para demonstrar o quanto é fatal a presença do telefone celular dentro da cadeia. Isso é um exemplo”.

A ORGANIZAÇÃO FINANCEIRA DO PCC

Ruy Ferraz:
“É assim. Já vou dizer de cara o que está acontecendo e que muito assustou a gente também. Logo depois que eu estive na CPI, no ano passado, nós desencadeamos uma operação em cima do PCC, e nós descobrimos que eles tinham um tesoureiro central. Hoje eles mudaram a tática. Eu vou explicar qual a tática atual. Mas, naquele caso passado, coisa de oito meses ou um ano atrás, nós descobrimos que eles tinham um tesoureiro central. Nós conseguimos interceptar o número do tesoureiro. Ele fazia toda a arrecadação, ele escriturava esse livro, todas as entradas e saídas. O livro está apreendido. Nós achamos o livro. Achamos R$ 157 mil que também faziam parte daquela entrada daquele dia, no dia que nós desencadeamos a ação, e isso também está apreendido. Nós prendemos em torno de 20 pessoas e apreendemos o maior arsenal que o PCC tinha, que estava discriminado, em parte, no livro, como arsenal do PCC. Isso é manuscrito. O grafotécnico foi positivo para o tesoureiro, que já morreu, mas nós colhemos o material e deu positivo. Todo o arsenal que nós apreendemos, e que aparece numa fotografia que está encadernada aqui, foi apreendido com esse grupo. A organização de entrada e saída de dinheiro deles é uma coisa absurda! Eles arrecadam do tráfico. Eles têm diversos pontos de venda de entorpecentes, e arrecadam desses pontos de venda. Eles arrecadam dos sócios ou dos associados que estão na rua R$ 550 e arrecadam R$ 50 de quem está dentro da cadeia. Todo esse dinheiro, na época dessa prisão, oito meses atrás, gerava uma receita bruta mensal de R$ 750 mil. Está lançada lá essa somatória, está lançada lá, por mês, era a média, às vezes R$ 750, às vezes R$ 600. O que eles faziam? Parte do dinheiro eles destinavam a empréstimo a grupos que pertenciam ao PCC, para que eles investissem na prática do crime. Estava lá lançado assim: fulano de tal vai fazer um roubo; ele precisa de R$ 20 mil. Eles faziam um empréstimo para o cara de R$ 20 mil; aí ele fazia o roubo e devolvia com juros e correção monetária para o caixa do PCC. Isso era lançado também na devolução. E ele dava as saídas: pagamento de ônibus das visitas, o quanto era pago de ônibus das visitas, compra de armas, e vinha lançado lá qual a arma comprada, quanto foi pago por aquela arma e onde está a arma custodiada, com quem, em nome de quem a arma está custodiada, e assim por diante. Eles centralizaram tudo nesse camarada!”

A TESOURARIA ATUAL

Ruy:
“Ele [Marcola] funciona assim: ele é o principal líder e ele elegeu um representante em cada região de São Paulo. Cada representante tem poder sobre aquela região. E dentro da capital, ele dividiu a capital em quatro áreas de influência, está certo? É sul, norte, leste, oeste. E tem um representante em cada área, que determina tudo o que acontece ali. Determina de quem ou como é que vão ser comercializados entorpecentes. Quando o crime é cometido, qual é a parte que cabe ao PCC – tem que ser entregue uma parte que cabe ao PCC. E cada um deles é encarregado da tesouraria, de fazer a arrecadação. Antigamente, era um tesoureiro central; hoje são 4 tesoureiros, 4 ou 5 tesoureiros, para que a polícia não consiga atingir, como atingiu a tesouraria no passado, de uma vez só, centralizada. Ele descentralizou isso daí. Ele repassa a ordem através de quem os visita. Nunca por telefone celular. Nunca. Se ele for pego talando em telefone celular, ele é pego falando bobagem, coisas triviais. A ordem é repassada ou através da visita ou através do advogado.

A ECT E O TRANSPORTE DE ARMAS

Ruy Ferraz:
“Eles tentaram fazer o ingresso de armas pesadas em presidiárias, e fizeram a tentativa através do Correio. Eles depositaram as armas no Sedex, em grandes caixas, e só foi descoberto por acaso, porque o Sedex chegou a entrar na cadeia, e um fuzil muito pesado rompeu o fundo da caixa e caiu; foi assim que a segurança do presídio percebeu que o conteúdo das caixas do Sedex eram armas. Eles colocaram recentemente 60 televisores que foram adquiridos em Avaré, provavelmente com dinheiro do partido, do PCC, e o Correio foi que se encarregou de introduzir no presídio os televisores.

TELEVISORES E UNIFORMES

Paulo Pimenta:
“Sessenta televisores?”

Ruy:
“Sessenta televisores de uma vez”.

Paulo Pimenta:
“Para o pessoal assistir à Copa’.

Ruy:
“É, justamente, é para isso mesmo, é para o pessoal assistir à Copa”.

Godofredo:
“Trocaram até as cores do .uniforme. Não estavam contentes com as cores do uniforme; então, eles pediram a troca do uniforme laranja. Passou a ser agora cinza.

Ruy:
“Eles achavam que a cor laranja era muito rotuladora, expunha muito.

FUZIS CONTRA PISTOLAS

Godofredo:
“Vou contar uma história para o senhor: durante três ou quatro anos, o Rio de Janeiro vem procurando Robinho Pinga, famoso traficante do Rio de Janeiro. (…) Ele ficou dois ou três anos em São Paulo, de uma certa forma acobertado pelo PCC, de uma maneira ou de outra, e quando ele entrou na minha sala tinha uma pistola no canto, e ele disse: “Os senhores ainda esta o usando essa pistolinha? No Rio de Janeiro só usamos fuzil, não existe mais pistolínha.” Era uma 40, que é a arma oficial nossa. Ele riu na cara de todo o mundo e disse: “Isso aí a gente não usa mais lá. Lá só usa fuzil”. E ele ficou dois anos escondido! Nós tivemos que fazer um trabalho para poder pegá-Io, mas de uma certa maneira acobertado pelo pessoal do PCC”.

A ATITUDE DE ALGUNS JUÍZES

Delegado Ruy:
“(…) Quem foi preso na época, junto? A mulher de Marcola, Cíntia. Por que é que ela foi presa? Por que nós prendemos essa moça? Porque ela vinha ao telefone, ela falava com os presos, os principais líderes do PCC, dando recados de Marcola (…) Aí o pessoal que ficava na cadeia determinava que se fizesse depósito na conta dela. Noventa mil reais foram depositados na conta dela em seis meses, para que ela gastasse com quê? Com os gastos pessoais e viagens que ela fazia para visitar Marcola. Os R$ 90 mil ou vinham de depósitos não identificados em dinheiro ou vinham de contas que depois descobrimos que eram laranjas. Está dentro da conta da irmã dela, que ela usava. Isso foi gravado, e as contas foram monitoradas, e devidamente instruído o processo. Vinte e tantas pessoas presas. O armamento, eu não consigo lembrar quantas armas foram apreendidas; foi muito maior que essa apreensão que nós fizemos agora. Surpreendentemente, todos estão presos até hoje, menos Cíntia. Cíntia foi solta logo em seguida. (…) Hoje ela se encontra morando em Avaré e ajudou nessa operação que quase culminou com o resgate de Marcola”.

Deputado Paulo Pimenta:
“Esse caso de Cíntia, doutor? Por que ela está solta?”

Ruy:
“Não sei informar. Para mim foi uma surpresa. Foi uma surpresa. (…) Houve um relaxamento da prisão na fase do processo. (…) Na esfera judicial”.

Deputado Paulo Pimenta:
“Tínhamos de ouvir é o juiz que relaxou essa prisão. Esse, sim, vale a pena ouvir”.

Ruy:
“Recentemente, de forma equivocada, um juiz que estava julgando Marcola como participante do crime organizado, do PCC, absolveu Marcola, dizendo que não havia nos autos prova suficiente de que ele participaria. Mas fez isso de forma equivocada, porque o Ministério Público recorreu e apontou onde estavam os equívocos que o juiz tinha cometido na sentença. Está em grau de recurso. Mas ele absolveu. Absolveu assim, desconsiderando todas as provas que existiam nos autos”.

PCC NA POLÍTICA

Moroni Torgan:
“Eu ouvi falar também que o PCC está organizando-se para entrar na política. É verdade isso?”

Ruy:
“É. A gente já tem algumas informações de que eles estão investindo em algumas pessoas que têm interesse numa carreira política, para que façam ou promovam a candidatura e a tentativa de eleição”.

Godofredo:
“Houve um, no passado, que nós prendemos a dois meses da eleição, Anselmo…”

Ruy:
“É um advogado chamado Anselmo. Eu não lembro o sobrenome dele. Ficou dois anos preso, e era candidato a deputado federal”.

Moroni:
“O PCC hoje controla o quê? Cento e quarenta mil presos? É isso?

Ruy:
“Com toda a certeza. Ou é do PCC ou morre”.

Ruy Ferraz:
“(…) o principal responsável político por isso é o próprio Marcola. É um camarada que se dedica à leitura de todo o aparato leninista; todos os livros relacionados com Lenin e Trotsky ele leu e fazem parte da biblioteca dele. O livro de cabeceira dele é Arte da Guerra. Eu tenho a cópia da dedicatória que a namorada fez para ele no livro que deu de presente, eu tenho a cópia da dedicatória, eu xerocopiei do livro dele mesmo. E ele é que bolou toda essa estrutura e a descentralização de tesouraria para evitar que a polícia pudesse atingir, foi ele quem fez, foi ele quem bolou tudo, essa estrutura foi ele quem bolou. E ele pretende agora uma estrutura política; ou seja, ele está, digamos assim, trazendo gente que se interesse pela candidatura e apostando, investindo nessa gente para, evidentemente, tentar sua eleição. Nós estamos tentando identificar quem são essas pessoas”.

OS ADVOGADOS DO PCC

Ruy Ferraz:
“Para os senhores terem uma idéia, prendi um advogado dentro do parlatório de Avaré traçando um plano de morte de diversas pessoas com Marcola. O advogado está condenado como integrante do PCC, porque estava traçando esses planos com Marcola. Eles foram filmados e gravados. Isso fez parte da prova contra o advogado. Só que não pude indiciar Marcola, porque Marcola já estava indiciado nesse caso anterior. E Marcola foi absolvido no caso anterior porque surgiu uma discrepância. O advogado, posteriormente, que conversou com ele, está condenado, e Marcola, porque estava indiciado no caso anterior, foi absolvido! É algo maluco. Por isso é que o advogado adota esse tipo de postura que os senhores viram agora aqui. Ele acha que pode mandar”.

QUEM É MARCOLA

Ruy:
“Marcola hoje tem 35 anos de idade. O nome dele é Marco Willians Herbas Camacho. Ele vem de uma família criada no bairro do Glicério, entre Glicério e Mooca, em São Paulo. Aos 18 anos ele já foi preso por roubo a banco. Voltou para rua e se especializou no crime a tal ponto de praticar um roubo contra a empresa Transbank, que é uma empresa transportadora de valores. Ele seqüestrou a família de um gerente da Transbank, conseguiu ingressar na empresa, e na época, em 1996, conseguiu subtrair R$ 9 milhões da empresa, ele e irmão, JúnÍor, e algumas outras pessoas que também foram presas. Ele mudou para o Paraguai, morou no Paraguai durante um ano, mais ou menos, mas só que conseguimos provas contra ele, conseguimos a prisão preventiva dele, nós da delegacia mesmo, pelo roubo da Transbank. Ele voltou do Paraguai de carro, em 1997, no carro do sócio dele nos roubos, cuja alcunha era Sócio. Hoje esse sujeito já faleceu. Por um incidente, passávamos pela Marginal Tietê, vimos um carro que era muito estranho à época, em 1997, um Dodge Stratus, era incomum, e nós vimos que era Marcola que estava dirigindo, que estava chegando do Paraguai, e conseguimos prendê-Io. Desde então ele está preso. Isso aconteceu em 1999, 2000 mais ou menos, se não me engano, mas quando esteve preso, no começo da carreira criminosa, ele esteve no Piranhão; em Taubaté, onde se formou o PCC. Ali conseguiu agregar-se à ideologia daquelas pessoas que estavam em Taubaté, e simpatizou com essa ideologia. A partir de então, ele começou a estudar diversas, digamos assim, questões políticas, sejam do Brasil, sejam do exterior, e se tomou um letrado na área; leu mais de 3 mil livros, que ingressaram nesses últimos sete anos no presídio. E os livros, naturalmente eram uns livros de Esquerda. Ele optou pela leitura dos livros de Esquerda, principalmente Lenin, Trotsky, Marx, Karl Marx…”

Godofredo:
“Nós tivemos situações que estavam invadindo presídio, invadindo delegacias e tudo o mais. Eu mandei buscá-Io pra gente poder… tinha que ser indiciado e ter uma conversa meio de homem pra homem, dizendo pra ele que nós… que já tinham morrido dez pessoas do lado dele e da polícia tinham morrido só duas. Até quando ia morrer jovem pra poder satisfazer essa liderança dele? Ele falou: “O senhor, quando fala na televisão, o senhor representa o governo; eu sou o líder do PCC, pô, então, somos duas lideranças, entende?” E o que está acontecendo? Aí, ele tinha umas reclamações de piloto que nós tínhamos feito, entendeu? Que ele achava que estava injustamente, teria ido para um regime especial, coisa e tal, pá, pá, pá, entende? Aí ele falou: “Eu gostaria só que constasse um depoimento meu nesse caso, que eu sou contra essas invasões’. Aí, nós tomamos o depoimento dele e… (…) Parou. (…) Naquele dia, não teve nem mais nenhuma invasão em nenhuma cadeia, nem nada, ao longo de um certo período. (…) Uma palavra dele, somente. Ele te encara. Ele fala. E realmente ele é uma liderança”.

 

 

Continuar lendo

Publicidade Publicidade