Segunda, 20 de Fevereiro de 2017

Políticos trocam de discurso sobre impeachment

Lula defendendo a “saída do governo”; Caiado chamando impeachment de “golpe”. Discursos sobre afastamento de Collor e Dilma se repetem, mas na boca de personagens antagônicos

A discussão sobre o impeachment em 2016 trouxe de volta ao cenário personagens que também se destacaram no processo de impedimento do então presidente Fernando Collor. A diferença é que muitos deles trocaram de papel. Franco-atiradores 24 anos atrás, petistas viraram alvo. Aliados do ex-presidente, que à época denunciavam a trama de um “golpe”, passaram à artilharia. Dilma não é Collor, o PT não é o PRN (antiga legenda de Collor) e as acusações são distintas. Mas uma coisa é certa: os discursos de ataque e defesa unem as duas histórias. Este texto é um dos destaques do novo número da Revista Congresso em Foco, cuja versão digital já pode ser acessada pelo assinante (clique aqui).

Lula, em 1992: saída do governo é solução contra "crise profunda"

“Acredito que até o final deste mês o impeachment será votado, porque o Congresso Nacional sabe da responsabilidade que hoje recai sobre a instituição. Se não votar, ficará desacreditado com a opinião pública. O Congresso tem a clareza de que vivemos uma crise profunda de governo e que, somente com a saída do governo, resolveremos alguns problemas da nação.”

Lula, presidente do PT, em setembro de 1992

“Eu perdi muitas eleições. E eu quero que ele (Michel Temer) aprenda sobre as eleições. O Temer é um professor de Direito e sabe que o que estão fazendo é um golpe. E isso ele sabe que vão cobrar é dos filhos dele, é do neto dele, amanhã. Porque a forma mais vergonhosa de chegar ao poder é tentar derrubar um mandato legal.”

Lula, ex-presidente da República, em abril de 2016

 

Caiado, em 1992: impeachment é golpe de quem não teve competência para ganhar as eleições

“O cidadão simples lá do interior sabe muito bem que há uma montagem, uma farsa que não convence ninguém. Isso nada mais é do que um golpe pela tomada ao poder, que parte de quem não teve competência para ganhar na urna e não se curvou diante da decisão maior em 1989.”

Ronaldo Caiado (PFL-GO), deputado federal em setembro de 1992

“’Não vai ter golpe!’ se tornou slogan de Dilma, Lula e do reduzidíssimo número de apoiadores desse desgoverno tomado pela corrupção em todos os seus níveis. Os governistas golpeiam o Estado democrático de direito e a inteligência dos brasileiros. Não à toa, sempre quando questionados sobre as denúncias e provas de corrupção, respondem com essa frase de (d)efeito mais gasta que a imagem deles nesses últimos 14 anos. É como o gatuno que, ao bater a carteira alheia, grita ‘pega ladrão!’, manobra que não resiste ao mais banal dos exames.”

Ronaldo Caiado (GO), líder do DEM (antigo PFL) no Senado, em março de 2016

Mercadante, em 1992: Congresso não pode voltar as costas para manifestações pela saída do presidente

“Foram dezenas de passeatas e atos públicos que deixaram clara a determinação de lutar por um Brasil mais justo e mais ético. Voltar as costas para essa realidade é o mesmo que deixar que a história escape por entre os dedos. Temos o grande desafio de mostrarmos à nação que esta instituição não compactua com a impunidade.”

Aloizio Mercadante (PT-SP), deputado federal em setembro de 1992

Clique aqui e assine a revista

“Se eu abro um processo de impedimento, estou diretamente anulando o princípio fundamental da democracia que é o voto popular. Por isso que é sempre traumático e não pode ser uma decisão eminentemente parlamentar e política. Tem que ser jurídica e fundamentada.”

Aloizio Mercadante, ministro da Educação, em 4 de dezembro de 2015

“Os aplausos que colhe hoje o presidente da Câmara são os mesmos que aqueles defensores do esquadrão da morte recebem quando fazem justiça pelas próprias mãos, matando, violentando acusados de crimes. Não vejo nenhuma diferença entre os gestos do presidente da Câmara e o esquadrão da morte.”

Líder da tropa de choque de Collor, Jefferson comparou o presidente da Câmara, em 1992, ao "esquadrão da morte". Agora, torce para o "bandido" favorito

Roberto Jefferson (PTB-RJ), deputado federal em setembro de 1992

“É ele (Eduardo Cunha) que tem que conduzir (o processo do impeachment). Ele foi o adversário mais à altura do Lula. Lula nunca esperou encontrar um bandido da mesma qualidade moral, intelectual que ele. O bandido pelo qual eu mais torço é o Eduardo Cunha. Vai puxar a barba do Rasputin. Gelado, frio, equilibrado.”

Roberto Jefferson (PTB-RJ), ex-deputado cassado e condenado no mensalão, em março de 2016

Presidente da UNE e líder dos caras-pintadas, Lindbergh defendeu greve geral no país caso impeachment não passasse

“Se não for aprovado o impeachment, vamos chamar o povo para as ruas, apoiar a iniciativa dos trabalhadores de greve geral e tentar chamar todo mundo para a rua.”

Lindbergh Farias, presidente da União Nacional dos Estudantes, em setembro de 1992

“Aquela cena mostrou ao país que existe uma chapa nova no país, a chapa Temer-Cunha, de caráter totalmente golpista. A sensação que temos é que o PMDB tenta dar uma quartelada no país. Se hou-ver um impeachment, vocês correm o risco de os manifestantes das duas passeatas, a que defende a presidenta e a que pede o impeachment, se reunirem para gritar ‘fora, Temer’.”

Lindbergh Farias (PT-RJ), senador, em abril de 2016

Assessor jurídico da Presidência, em 1992, Gilmar chamou denúncia contra Collor de "inepta"

“Essa nova lei é inaceitável e contraria o Estado de direito. Nem nos tempos negros da ditadura militar e nem mesmo no tribunal de Nuremberg se fez isso. (…) A denúncia é manifestamente inepta e não honra o nome de seus signatários.”

Gilmar Mendes, assessor jurídico da Presidência, em setembro de 1992, sobre as regras do processo de impeachment

“O que mais me preocupou foi a opção do tribunal pela intervenção no sistema de eleição da comissão na Câmara. Achei lamentável. Tem jeito de coisa direcionada. Líderes indicados, voto aberto. Ora, a gente vê o que está acontecendo nos partidos. Foi para isso que o tribunal se reuniu? Achei aquilo constrangedor.”

Gilmar Mendes, ministro do STF, em dezembro de 2015, após ser voto vencido no julgamento do rito do impeachment

Jaques Wagner, em 1992: "Bye, bye, Fernandinho"

“Inauguramos uma página que terá de ser percorrida por todos nós – aqueles que têm assento nesta Casa, os jovens que foram às ruas para conquistar este glorioso dia, e as organizações da sociedade civil, que se irmanaram com o espírito da nação para dizer basta à corrupção, à impunida-de e à ilegitimidade no poder neste país. (…) ‘Fora, Collor! Bye, bye, Fernandinho’.”

Jaques Wagner (PT-BA), deputado em setembro de 1992

“Em 2014, 54,5 milhões de brasileiros, de maneira soberana, escolheram Dilma para presidir este país até 2018. Um pedido de impeachment sem a mínima consistência jurídica não pode se sobrepor à vontade do povo. Não vai ter golpe.”

Jaques Wagner (PT), ministro-chefe de gabinete da Presidência, em março de 2016

Na linha de frente contra Dilma, Pauderney só decidiu apoiar impeachment de Collor na véspera

“A minha posição é de esperar que todo o processo se desenvolva, ouvindo-se os argumentos de acusação e de defesa. Só então, decidirei. E que venham as pressões, se é que elas virão, não importa de onde. A minha consciência não se curva a pressões.”

Pauderney Avelino (PDC-AM), em setembro de 1992. O deputado, depois, votou a favor do impeachment de Collor

“Eu percebo que essas delações trazem mais razões para a presidente ser cassada. Ela, ao meu ver, poderia ter uma atitude de grandeza de renunciar, para que o país pudesse tentar voltar à normalidade.”

Pauderney Avelino (AM), líder do DEM na Câmara, em março de 2016

Mais sobre impeachment

Continuar lendo

Curtir Congresso em Foco no Twitter e Facebook:

comments powered by Disqus
Publicidade Publicidade