Por que a bandeira LGBT também é nossa bandeira

Fernando Frazão/ABr

Parada Gay - Rio/2013

Reparou a bela bandeira no cabeçalho das nossas páginas? Sim, ela mesma, o símbolo máximo do orgulho de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais (LGBT). Na semana em que todos nós, com o mínimo de apreço pela espécie humana, fomos afrontados pelo massacre de Orlando, ela vem tingir este site com as cores do respeito à diversidade sexual.

“O Congresso em Foco saiu do armário. Agora assumiu que é um site gay”, dirá alguém. Seria um carinhoso adjetivo para quem nos últimos tempos se acostumou a ser brindado, felizmente por uma minoria, com os pobres clichês que a polarização política colocou no centro do palco do atual momento brasileiro. “Petralhas”, berraram alguns quando – por exemplo – destacamos, antes de qualquer outro veículo, o 7 a 0 que marcou o anúncio do ministério Temer. Sete, em alusão aos indicados às voltas com acusações criminais. Zero, para a representação de mulheres, negros e índios (estes últimos, eternamente esquecidos pelo poder). “Golpistas”, atiram outros quando dedicamos atenção às inesgotáveis revelações da Operação Lava Jato, às vezes publicando em primeira mão alguns dos seus aspectos mais constrangedores para Lula e o PT.

Não, gente! Da mesma forma que só os desinformados ou os mal intencionados nos veem como “coxinhas” ou “mortadelas”, ignorando ou fingindo não compreender o caráter apartidário da proposta jornalística que nos inspira, não pretendemos transformar este bat-canal em um gueto LGBT. O que estamos dizendo, e já nos preparávamos para dar esse passo quando fomos surpreendidos pelos disparos assassinos de Omar Mateen, é que não dá pra tolerar mais os intolerantes, aqueles que colocam em risco vidas e valores preciosos por fazerem da discriminação sua razão de ser.

A Constituição Federal é clara. Um dos “objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil”, define ela em seu terceiro artigo, é “promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação”. Mulheres ou homens, LGBT ou héteros, nordestinos ou sulistas, afrodescendentes ou brancos de olhos azuis, idosos ou jovens, índios ou descendentes europeus, brasileiros natos ou imigrantes que escolheram o Brasil como lar, todos são muitíssimo bem-vindos neste Congresso em Foco!

Liberdade de opinião

O que pedimos, em primeiro lugar, é respeito à opinião de quem pensa e age diferente. Não nos esqueçamos que é crime “praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional” (Lei 9.459/1997). Vai aqui também um convite: se você encontrar em qualquer um de nossos canais manifestações que considerar ofensivas, nos acione pelos perfis que mantemos no Facebook, no Twitter e no Instagram ou pelo e-mail redacao@congressoemfoco.com.br. Sua queixa será avaliada e, quando for o caso, os comentários serão suprimidos. No limite, seus autores poderão ser bloqueados ou banidos.

Da mesma maneira que no futebol a deslealdade e a desobediência sistemática às regras do jogo devem ser punidas com cartão vermelho, a democracia deve ter salvaguardas contra quem usa as liberdades democráticas para sabotá-la. Quer jogar futebol com as mãos, como fazem os homofóbicos? Então, dá licença, fio. Esta não é a página da internet mais indicada pra você.

Por outro lado, queremos garantir ampla liberdade de opinião para os que seguem as regras do jogo democrático. Ouvir quem pensa diferente só pode nos enriquecer. Aumenta a qualidade do debate. Abre caminho para a superação de problemas comuns.

A questão LGBT

Em segundo lugar, com a bandeira LGBT estampada no alto de nossas páginas, queremos expressar nossa firme solidariedade com uma pauta que hoje é um divisor

Elaine Patrícia Cruz/ABr

Diversas pessoas fazem vigília na Avenida Paulista em homenagem aos mortos no massacre da boate Pulse, em Orlando

de águas na luta pela democracia em todo o mundo. No instante em que levamos ao ar este editorial, não estão totalmente claras as causas do atentado de Orlando. É possível atribuí-lo em parte à frouxidão das regras de controle de armas de fogo vigentes nos EUA, em parte ao terrorismo. Mas não há dúvida de que a homofobia contribuiu para inundar de sangue a boate Pulse e o planeta naquele domingo trágico. “Se você está tentando derrubar o governo americano, você não ataca um bar gay em Orlando”, observou com propriedade um advogado ouvido pelo jornal The New York Times. Ou seja: trata-se de um grave problema mesmo em nações de tradição democrática bem mais longa que a nossa.

Ao contrário do que imaginam alguns, nem sempre foi assim. A homossexualidade foi aceita por várias culturas da antiguidade. Passou a ser associada ao pecado ou ao crime sobretudo a partir da Idade Média. Aos olhos de hoje parece inacreditável, mas até 17 de maio de 1990 a Organização Mundial da Saúde (OMS) a classificava como transtorno mental. A data tornou-se, em todo o mundo e também no Brasil, emblemática da luta pela cidadania plena e pelo respeito aos direitos humanos da população LGBT (ou LGBTTI, como preferem alguns, para frisar as diferenças entre travestis, transexuais e intersexuais nas três últimas letras). Não podemos admitir que os avanços da ciência e da civilização humana sejam ameaçados pelos mesmos retrógrados – de moralismo frequentemente hipócrita, como pode ter sido o caso do assassino de Orlando – que usam a religião ou a defesa da família como instrumento para invadir o espaço privado alheio e desrespeitar os outros no que têm de mais essencial, isto é, a forma que encontram para expressar o seu amor e sua sexualidade.

Não satisfeitos em se empenhar noite e dia para impor as suas normas de conduta a todos, passando por cima da extrema diversidade que caracteriza o gênero humano, os homofóbicos aumentam a população dos cemitérios. Lá e também aqui. Segundo o Grupo Gay da Bahia (GGB), a cada 22 horas a homofobia mata uma pessoa no Brasil. As mortes costumam ter em comum a extrema violência: tiros e facadas em quem já não respira, longas sessões de espancamento e tortura. Sem falar das humilhações, do assédio no trabalho, dos constrangimentos em locais públicos. Reagir contra esse quadro é – ou deveria ser – uma tarefa acima de todos os partidos, todas as igrejas, todas as ideologias. Estão em questão a solidariedade humana e a defesa dos valores democráticos mais básicos.

Setores vulneráveis

Em terceiro lugar, ao pregar o respeito à diferença, queremos fazer um gesto em favor dos setores sociais mais vulneráveis. Muitas vezes chamados de minorias, eles formam na verdade a grande maioria dos habitantes desta ou de qualquer outra nação do planeta: as mulheres, os negros, índios, crianças, idosos, migrantes, deficientes físicos e mentais, grupos étnicos marginalizados, além de gays, lésbicas e diversos outros grupos identitários que não se encaixam nas classificações mulher/homem, homo/hétero.

Gostaríamos muito que vocês se sentissem em casa ao frequentar estas páginas. Contribuam com artigos, comentários, sugestões, puxões de orelhas! Usem o prestígio e a audiência que conquistamos em seu favor! Eles são, acreditem, maiores do que temos sido capazes de propagar. Qualquer coisa, vocês sabem, estamos no redacao@congressoemfoco.com.br. Não somos uma ONG. Somos uma empresa em busca de lucros. Mas isso não pode nos desviar dos melhores trajetos possíveis, no rumo de uma sociedade mais igualitária e mais justa. E a busca da igualdade passa pelo reconhecimento das diferenças.

Você acha estranho? É, pode ser. Mas é que as coisas que a princípio soam estranhas têm sido as mais legais que temos visto nos últimos tempos. Porque não há jornalismo digno desse nome sem compromisso com a humanidade e os princípios democráticos. Sabemos que teremos em troca incompreensão, pancadas, novos riscos. Ou talvez optem simplesmente por nos ignorar. Beleza. Recusar caminhos mais fáceis e seguir a consciência têm o seu preço.

Uma menção especial merece a questão da mulher. Foi-se o tempo em que o paradigma para a defesa dos direitos humanos era o homem. Quando aquela menina no Rio foi violentada por um monte de bárbaros e depois publicamente insultada, não foi só a alma dela que doeu. Doeu, e ainda dói,  também a nossa. O estupro coletivo e moral de que ela e tantas outras mulheres são vítimas ultrajam toda a população, não só a feminina. Sob ameaça, os valores mais caros da vida em sociedade. De certa forma, a própria ideia de uma sociedade democrática é estuprada quando se comete um crime dessa natureza.

Ah, sim. O trabalho guardará coerência com os dois slogans que precederam o que agora inauguramos. “Respeitamos as diferenças” porque continuamos acreditando em um “jornalismo para mudar”. Porque, no limite dos nossos recursos físicos e profissionais, somos irrigados a todo minuto pelo sonho de apresentar, a cada palavra, a cada imagem, a cada post, “o Congresso e a política como você nunca viu”.

 

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