A renúncia ao bom senso

Um governo que ignora os servidores de carreira, técnicos, especialistas e deixa de indicar profissionais qualificados como a doutora Ludhmilla Hajjar por questões ideológicas, está fadado a contar os corpos das vítimas de sua irresponsabilidade.

Há um despeito estrutural neste governo. Servidores públicos e profissionais técnicos não são colocados em suas devidas posições para exercerem um trabalho coerente com a realidade de cada área. É cansativo ter que remoer Damares, Sérgio Camargo, a caterva de Olavo de Carvalho, Abraham Weintraub, Carlos Decotelli, Roberto Alvim e, o que custou mais ao Brasil, Eduardo Pazuello. Esses são partes de uma obra dantesca, que nem o mais irracional e míope entre os apoiadores do presidente consegue defender com convicção. Nossos netos vão perguntar como deixamos isso acontecer e não vamos saber o que responder.

Se esse hospício já não fosse o suficiente, em julho do ano passado, o governo já tinha dobrado o número de militares em cargos civis. Naquela época já estávamos em 6.157 militares, entre ativos e aposentados, segundo apontou o Tribunal de Contas da União. Existem militares muito bons, que obviamente poderiam ser aproveitados. No entanto, é inconcebível achar que não temos servidores com anos de casa, que entendem de todas as minúcias dos processos internos e poderiam agir como facilitadores em um momento como este.

Não há compromisso com as agendas de cada ministério. Entra quem está alinhado às ideologias (ou insanidades) da presidência, como se fosse fácil substituir anos de dedicação técnica, ciência, entendimento do Estado e uma simples patente militar funcionasse como um condão mágico que permitisse, a quem ocupa esses cargos, tomar decisões que tem a ver com assuntos que eles nunca ouviram falar na vida. Isso não é aqui ou ali, está nas entranhas do governo, de uma forma completamente generalizada de descrédito e desrespeito ao conhecimento, inclusive em algumas das áreas mais importantes como saúde, educação e cultura.

Inúmeros relatórios e apresentações de planejamento do Ministério da Saúde saíram sem sequer constar uma assinatura de um servidor representante do corpo técnico em meio à pandemia. Isso porque aquele que se insurge contra o que é determinado, é colocado automaticamente no ostracismo e, pior, pode ter a sua carreira simplesmente enterrada. Entendem a importância da estabilidade de um servidor público?

No quesito “dança das cadeiras” e passagem de cargos, temos exemplos claros como o Inep, que já tem quatro nomeações em pouco mais de dois anos. Não podemos ignorar que o recém nomeado geralmente troca toda a equipe da cadeia de comando e, com isso, o conhecimento técnico e o andamento do que estava sendo feito acaba por ser enterrado. No Ministério da Saúde já estamos com o quarto ministro, sendo a lógica exatamente a mesma e o custo muito alto à sociedade. Mais de 300 mil vidas, para ser mais preciso.

O preço dessas irresponsabilidades, que ocorrem há décadas no Brasil, passava desapercebido. Obviamente sentíamos em um ou outro caso, como falta de vagas em escolas, eventuais erros em provas do Enem ou casos pontuais de falta de leito ou medicamentos em determinadas regiões. As consequências dessas atitudes só ficam evidentes quando temos problemas que saem da normalidade, em grande escala, como o caso da pandemia pela covid-19.

Eduardo Pazuello assumiu o cargo interino e nomeou nove militares. No total, chegamos a ter 25 militares em cargos de chefia dentro do Ministério da Saúde. Servidores com anos de casa, conhecimento técnico e experiência foram simplesmente deixados de lado.

Para não ser injusto e, ao mesmo tempo, comprovar a importância de um ministro e um corpo técnico nos cargos do estado, vale citar o caso Ministério da Infraestrutura com Tarcísio Gomes de Freitas. Brilhante, é servidor público de carreira, vinculado à consultoria legislativa da Câmara dos Deputados, mas com muita experiência na área. Tarcísio é formado em Engenharia Civil no IME – Instituto Militar de Engenharia, com a maior média histórica do curso na instituição e teve uma ótima passagem pelo DNIT – Departamento Nacional de Infraestrutura e Transportes - no governo Dilma.

Caso Ludhmilla Hajjar

Fui paciente da doutora Ludhmilla entre 2011 e 2012, após sofrer um infarto e passar por uma cirurgia corretiva do coração. Testemunhei de dentro da UTI do Incor a sua dedicação e atenção aos pacientes. Os vídeos que rodaram em grupos bolsonaristas com ela tocando violão para a ex-presidente Dilma Rousseff nada mais é do que o que ela faz, seja para quem for. Eu era apenas mais um dentro do hospital e fui tratado igualmente bem.

Enquanto estive internado, fiquei posicionado próximo da entrada de uma sala de isolamento que estava uma paciente a quem chamavam de “Z”, uma chinesa, que pesava 38kg à época. Ela havia passado por um procedimento e estava com uma infecção generalizada. Eu vi a doutora Ludhmilla lutar com todas as forças para salvar essa paciente. Eu a vi reunir a equipe no meio da UTI, reclamar do atraso da fisioterapeuta, exigir cuidados extras e, ao mesmo tempo, dar todo carinho e apoio à família da paciente, que tinha marido e dois filhos que a visitavam regularmente.

Seis meses depois, retornei para uma consulta de rotina e perguntei à doutora Ludhmilla sobre a “Z”. Naquele momento, pude testemunhar o que é amar o que faz. Ela encheu os olhos d’água, abaixou a cabeça e disse: “Não conseguimos salvá-la”. Não era responsabilidade apenas dela, mas a reação que ela teve depois de seis meses, foi algo que só gente de bem sente, de médico que ama o que faz e que valoriza a VIDA, acima de qualquer coisa. Era exatamente o que precisávamos agora com o que estamos vivendo.

Doutora Ludhmilla, em nome daqueles com bom senso, te pedimos desculpas. Você era a melhor coisa que poderia nos acontecer em meio à esta pandemia. Uma luz no fim do túnel e não soubemos cuidar de você da forma que cuidou de mim e tantos outros quando precisaram. Graças à você, estou vivo, me tornei pai, sigo bem de saúde e com a oportunidade de dizer ao mundo o que você já sabe:  você não precisava desse cargo, nós que precisávamos de você.

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