Para onde vão as elites

A ideia em um segundo

Elite, mais do que um adjetivo pejorativo a ser aplicado a um antagonista, é um conceito sociológico. A presente edição do Farol busca, de forma ensaística, pensar sobre o posicionamento das elites nacionais em uma eventual disputa eleitoral entre Bolsonaro e Lula em 2022.

Interesses diversos influenciam nas posições política e eleitoral do topo da pirâmide social

Eu não me creio elite, pero que las hay

 “As elites” viraram bode expiatório. Ninguém gosta de se identificar com elas, mesmo os que estão no poder. Elite é sempre o outro, fenômeno que se repete também quando se autoavalia a posição na escala social – ricos são sempre os outros. Ocorre que em uma sociedade democrática moderna, pluralista, o rodízio das elites é um fator natural, conforme já apontado por Gaetano Mosca, Wilfredo Pareto e Joseph Schumpeter. 

Eleições são janelas de oportunidade para que segmentos da elite disputem e se sucedam no poder, sem derramamento de sangue – no trocadilho em inglês, de bullets to ballots (de balas a votos). Uma vez no poder, o grupo vai tomar decisões residuais – ênfases em políticas públicas, mantido o acordo maior – as regras do jogo, o sistema democrático mais amplo intocado. 


Quem são as elites?

Vamos tomar por base a definição de Ralf Dahrendorf, sociólogo alemão, segundo quem há sete grupos que compõem a elite em qualquer país.  

A partir dessa classificação, vamos buscar pensar sobre o comportamento dessas elites nacionais, tendo como pano de fundo a eventual disputa eleitoral entre Bolsonaro e Lula em 2022

Os donos do dinheiro

Sede da Federação da Indústria do Estado de São Paulo, na Avenida Paulista
Fiesp
O empresariado – tomado aqui por sua representação organizada – está alinhado ao governo Bolsonaro. Muito sintomático que uma das principais reivindicações de êxito feitas pelo próprio presidente seja a de que a Bolsa de Valores tem batido recordes. Assumido o Ibovespa como uma proxy para satisfação do empresariado, de fato Bolsonaro pode comemorar. 

Mas a relação não fica exclusivamente nisso – há os gestos simbólicos, como jantares e convescotes, e a nomeação do presidente da Fiesp, Paulo Skaf, para o Conselho da República (fevereiro de 2021), por exemplo. Indícios mais sombrios podem ser encontrados em empresários que correm para apagar tuítes críticos ao presidente (publicados talvez em arroubos de impulsividade) ou ainda em relatos de bastidores de empresas, no âmbito interno, determinando posicionamentos favoráveis ao governo ou minimamente o silêncio obsequioso.

Não é de se estranhar, contudo, essa posição. O empresariado nacional estaria, ao menos na aparência, alinhado com qualquer governo. O capitalismo retardatário brasileiro se constituiu sob a sombra do Estado, que lhe retirou a dinâmica interior. Os interesses liberais típicos da burguesia não resistem ao canto da sereia da proteção estatal, no fenômeno que vem sendo chamado mais amplamente de capitalismo de compadrio (mais sobre o assunto). 

Os donos do poder 

A configuração das forças políticas favorece Bolsonaro. O poder Legislativo federal inclina-se favoravelmente ao Executivo, até mesmo pela ausência de pautas substantivas que sejam propostas e defendidas de fato pelo Executivo. Desde fevereiro deste ano, com a eleição das novas mesas diretoras da Câmara e do Senado, Bolsonaro se tranquilizou em relação ao que poderia vir sobre ele desse lado da Praça dos Três Poderes. 

As eleições municipais do ano passado também registraram um crescimento de partidos de centro e centro-direita. Sob o comando do Centrão, articula-se na Câmara dos Deputados uma reforma política que deverá favorecer partidos maiores, ainda que com algumas concessões aos partidos pequenos (aprovação da possibilidade de federações partidárias, cuja urgência foi aprovada em 9 de junho; flexibilização na cláusula de desempenho etc.). 

Os donos do saber

A academia deve ir de Lula. Mas sua relevância em termos de capacidade de influência política no Brasil é relativizada em relação a outros países – nos Estados Unidos, por exemplo, é notório o papel dos think tanks na determinação dos posicionamentos políticos. De qualquer modo, o governo Bolsonaro, inclusive por meio de seu segundo ministro da Educação, difunde a noção de que as universidades estariam colonizadas por pessoas de esquerda, usuários de drogas e praticantes de sexo livre. Além desse posicionamento hostil, no âmbito da pós-verdade, o governo pratica contingenciamento de recursos, tentativa de mudar normas sobre nomeação de reitores, nomeação de candidatos menos votados etc. 

Os donos da fé

Bolsonaro e ministros em café da manhã com evangélicos no Planalto, em maio
 Marcos Corrêa PR
Os evangélicos devem continuar no páreo com Bolsonaro. Conforme já analisamos em edição anterior do Farol, a bancada evangélica tem um comportamento situacionista (quem quer que ganhe as eleições poderá contar com sua aproximação). Contudo, no caso específico de Bolsonaro, os evangélicos estão nutrindo expectativas de aprovação e defesa de suas pautas específicas. E contam ainda com a promessa, a ser cumprida nos próximos dias, de terem pela primeira vez um ministro para chamarem de seu no STF. 

A Igreja Católica aparece dividida. O posicionamento oriundo da CNBB tem tons de oposição. Mas, nas paróquias, não são poucos os relatos de padres defendendo abertamente Bolsonaro. 

Com relação às demais religiões, pode-se prever alguma hostilidade a Bolsonaro, particularmente pela forma depreciativa com que são tratadas pelos evangélicos, que se identificam com o presidente. Contudo, seus números em termos da população geral são menores.

Os donos dos corações e mentes

Lula, entre os atores Tonico Pereira e José de Abreu, em encontro do ex-presidente com artistas no Rio
Instagram
A classe artística vai com Lula. Com a exceção de alguns fenômenos isolados, como Regina Duarte e Mário Frias, que abertamente assumiram apoio ao presidente, inclusive participando do governo, a maioria dos artistas nacionais de expressão tem se posicionado de forma contrária ao governo. Em que se pese a existência de algumas expressões reivindicando autonomia (como o recente vídeo de Juliana Paes, que despertou grande polêmica nas redes sociais), percebe-se no clima geral da classe artística um desejo de mudança e a noção de que essa poderia sim se dar na pessoa de Lula. 

Os donos das armas

 

Antonio Carlos Moretti, Ilques Barbosa e Edson Pujol entregaram seus cargos de comandantes das Forças Armadas em resposta à pressão política de Bolsonaro
Divulgação
As Forças Armadas são bastante heterogêneas (aliás, como todas as outras elites mencionadas). É evidente, entretanto, que da visão de que seriam a “ala técnica” do governo e os responsáveis por manter Bolsonaro sobre controle, marcadamente presente no início do mandato do atual Presidente, restou pouco. A troca do ministro da Defesa e do Alto Comando do Exército, da Marinha e da Aeronáutica, seguida, pouco tempo depois, pelo episódio Eduardo Pazuello, trouxeram de vez para o tabuleiro a perspectiva de que as Forças apoiam sim o atual presidente. 

Um elemento diferenciado aqui, relacionado à estratégia de Bolsonaro, é a inclusão ativa das polícias nesse cálculo. Há claramente um esforço do presidente em atrair as forças policiais, cujo exemplo mais recente foi a proposição de um programa de financiamento habitacional exclusivamente desenhado para esse público. 

Os donos das leis

Posicionamento político e eleitoral da magistratura ainda é uma incógnita
  TST
Difícil avaliar o posicionamento da magistratura – é fato que muitos juízes ainda respeitam o preceito de restringir suas manifestações aos autos dos processos. Decisões favoráveis a Bolsonaro em alguns pontos esdrúxulos acabam chamando muita atenção, o que pode gerar, pelo viés da disponibilidade, a sensação de que o poder Judiciário estaria com o presidente. 

Na seara dos advogados, igualmente difícil avaliar. A presidência da OAB pode se posicionar de forma ostensivamente oposicionista, porém a entidade segue suficientemente dividida para não ser capaz de aprovar a iniciativa de apresentar um pedido de impeachment do Presidente. Aliás, dizem os bastidores, que Rodrigo Maia aguardou ansiosamente, em maio e junho de 2020, pelo pedido da OAB, que nunca chegou. 

Elites como veto-players

O empresário José Alencar, filho do ex-vice-presidente José Alencar, é o nome preferido de Lula para compor sua chapa em 2022
 Guilherme Dardanhan/ ALMG
Elites não ganham eleições – por definição, são minoritárias. Contudo, podem ser atores de veto importantes no sistema político. Por exemplo, o veto dos donos do dinheiro a Lula somente teria sido levantado após a famosa Carta ao Povo Brasileiro, abrindo caminho para sua primeira vitória em eleições presidenciais. Nesse cenário que apresentamos, o jogo estaria 4 a 2 para Bolsonaro (não pontuamos a elite jurídica, deixando como um possível empate). 

Significa que Bolsonaro vá vencer as eleições? Não necessariamente. Mas acaba sendo um componente importante do quadro. Explica, inclusive, muitos dos habilidosos movimentos de Lula – aproximação com empresariado, retomada de diálogo com o Centrão, tentativa de reaproximação com os evangélicos. Nesse contexto, a escolha do vice-presidente, por exemplo,  torna-se uma questão crucial. 

Um elemento importante, no contexto da teoria das elites, é o respeito às regras do jogo. Uma elite derrotada não pega em armas porque confia que terá nova oportunidade de disputar e vencer. Nessa perspectiva, Bolsonaro causa incômodos crescentes, uma vez que dá sinais de que não vá respeitar eventual derrota eleitoral, bem como de possíveis alterações nas regras do jogo em um eventual segundo mandato. 

Reconhecemos que as elites são heterogêneas e que as atribuições de posicionamento aqui foram feitas exclusivamente com base na opinião dos autores. Acreditamos, todavia, que levar os nossos leitores a pensar sobre esses fatores pode agregar mais um elemento de compreensão da realidade presente, viabilizando tanto decisões mais bem informadas quanto palpites mais bem embasados.

Termômetro

Geladeira

A reforma política ganhou um "emendão" nesta semana, documento que condensa uma série de sugestões individuais de alterações no texto. Mas o debate sobre o assunto esfriou em plenário. Não há previsão, no momento, de quando o tema será pautado, dadas as diferentes visões dos parlamentares sobre o tema. Foram apresentadas propostas relacionadas às mudanças nas votações, com modelos divergentes, como o distrital, o distrital misto e o distritão. Na falta de acordo, a expectativa é que as discussões ainda vão se estender, com resultado incerto. Entre outras mudanças em análise estão a redução no tempo de mandato dos senadores, a instituição da federação partidária e de uma cota para mulheres nos parlamentos.

Chapa quente

O jabuti está na lista de animais ameaçados de extinção, mas no Congresso eles se reproduzem à solta. A aprovação apertada da MP da Eletrobras expôs um Senado que se curvou a diferentes lobbies, agravando o que já havia ocorrido na Câmara. Também foram incluídos "jabutis" - expressão usada no Legislativo para se referir à inserção de trechos que nada têm a ver com a proposta original - para atender a interesses regionais de senadores. A União pela Energia, grupo que reúne 45 entidades ligadas à indústria, estima que as novas medidas custarão R$ 15 bilhões, que se somam aos R$ 41 bilhões dos impactos dos jabutis incluídos no texto pela Câmara. O texto volta à Câmara para votação nesta segunda-feira.

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O Farol Político é produzido pelos cientistas políticos e economistas André Sathler e Ricardo de João Braga e pelo jornalista Sylvio Costa. Edição: Edson Sardinha. Design: Vinícius Souza.
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