É pra rir ou pra chorar? – segunda parte

Edson Sardinha

No rádio e na TV, o horário eleitoral gratuito terminou quinta-feira (28). Mas, graças à internet, alguns candidatos ainda continuam usufruindo da celebridade instantânea proporcionada pela aparição na telinha. Menos por suas propostas, mais pelo estilo caricaturesco de se apresentar e pedir votos.

O Congresso em Foco apresentou, no último dia 23, algumas dessas figuras que aparecem de quatro em quatro anos Brasil afora. Mas uma rápida visita ao Youtube, o mais popular dos sites de compartilhamento de vídeo, mostra que o repertório de candidaturas curiosas vai além de Papai Noel, Mamãe, Super Moura, Emanuel dos Aposentados… (leia a matéria anterior e veja os vídeos)

Propostas das Arábias

Do Rio Grande do Norte, por exemplo, vem o folclórico Xeque Humberto, que concorre a governador pelo minúsculo PTC, partido pelo qual também disputa uma vaga na Câmara o estilista e ex-apresentador de TV Clodovil. Trajando-se como um legítimo saudita, o Xeque se dirige ao eleitor potiguar com propostas das Arábias, como a implantação de um trem-bala ligando Natal a Mossoró (280 km de Natal) e Caicó (299 km de Natal) e a instalação de refinarias de petróleo e de leite encanado. O mirabolante Projeto Milk-Xeque prevê uma torneira de leite por casa. Clique aqui para conhecer o autor dessas e outras mil e uma idéias.

Se as idéias não convencem, alguns tentam conquistar o eleitor a partir do próprio apelido. Outros não se constrangem em repetir fórmulas teatrais pra lá de conhecidas, mas que ainda fazem sucesso eleitoral. No primeiro grupo, estão dois candidatos a deputado estadual em Sergipe: Rola (PSL) e Espaço (PT). Não é preciso muito criatividade para imaginar para onde o petista, cujo nome verdadeiro é Gilson Santos Moura, recomenda que o leitor mande o seu voto no dia 1º de outubro.

Vestindo-se no melhor estilo Falcão (o do cantor cearense), o vendedor José Ribeiro, mais conhecido como Rola, se oferece como antídoto da corrupção. “Rola neles”, grita, enquanto abre os braços (veja os dois vídeos aqui).

Sininho na mão e chifre na cabeça, o candidato Zé do Bode (PRP-RN) se apresenta como “o voto do momento”. E, pra não dizer que não falou das flores, conclama o eleitor à ação, fazendo aquele gênero Geraldo Vandré (confira).

O engenheiro Antonio José Picolé de Oliveira (PSC) também não perdeu a oportunidade de brincar com o nome que adotou para se candidatar a deputado federal pela Bahia. Olha o Picolé

Doido

Na mesma Bahia de Todos os Santo,s há um candidato que se autodeclara “doido”. Com um quepe na cabeça e uma Bíblia na mão, Sargento Isidoro (PSC) pede uma chance ao eleitor evangélico e militar para representá-lo na Câmara dos Deputados. “Doido por Jesus”, explica-se. Veja se ele tem razão.

Apresentando um cardápio que vai de veneno para sanguessuga, óleo de peroba “pros cuecão e pros mensalão”, injeção para “enfiar na língua dos políticos” e ratoeira para “político ladrão”, José Muniz (PMDB-AL) não poupa nem mesmo os únicos que podem conduzi-lo à Câmara dos Deputados. Oferece, sem constrangimentos, um penico ao eleitor alagoano. É ver para crer. Em outra aparição, o candidato insiste na brincadeira ao chamar o horário eleitoral de “penico eleitoral” (confira).

Fazendo escola

“Miasmas pútridos emanam do Congresso em Brasília, contaminando o ar da metrópole. Mas o meu nome não exala odor mefítico porque não chafurda no pântano da ignomínia”. Antes que você procure o dicionário, já adivinhou quem é o autor da frase? A barba já não é a mesma, mas a metralhadora verbal continua implacável: “Meu nome nunca esteve ligado à imundície – por isso não aparece em lista alguma de deputados suspeitos de assaltarem o povo. Pela doença que tive, perdi minha barba. Sou deputado federal. Com barba ou sem barba, meu nome é Enéas, 5656”.

E o Dr. Enéas não pára de fazer sucessores. Se as criaturas, a exemplo do próprio criador, repetirão o sucesso eleitoral de 2002 (quando Enéas foi o deputado federal mais votado da país), só o resultado da votação de amanhã dirá. O estilo raivoso do médico toma conta até dos traços suaves de Patrícia Freitas Lima (Prona-SP), candidata a deputada estadual (veja aqui).

Eleita deputada estadual com uma das votações mais expressivas do país em 2002, Dra. Havanir (PSDB) não perdeu o estilo que já lhe rendeu o apelido de “Enéas de saias”, mesmo tendo trocado o Prona pelo PSDB. Desta vez, a nova tucana tenta repetir o sucesso do seu criador político em Brasília, concorrendo também a uma vaga de deputada federal. Há quatro anos, Enéas se elegeu com 1,5 milhão de votos. Havanir obteve a maior votação da Assembléia, com 682 mil votos. Não fosse pelo número da nova sigla ou pelo símbolo do PSDB, o eleitor nem perceberia a mudança partidária (confira).