Governo parou de divulgar número de mortos por covid-19 nas redes sociais

Uma nova estratégia de comunicação a respeito da covid-19 está em curso nas redes sociais do governo. Há três dias, os dados de casos confirmados e óbitos decorrentes da covid-19 pararam de ser divulgados pelas redes sociais oficiais do Ministério da Saúde.

Nas publicações no Twitter e no Facebook, o link para o painel completo não é escondido, mas as postagens fazem referência apenas aos números de brasileiros curados e em tratamento. A postura reflete uma mudança no tom adotado pela Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República (Secom). Nesta semana, a Secom passou a divulgar um “Placar da vida”, que traz o número de infectados pelo coronavírus no país, pacientes curados e em recuperação, omitindo o número de mortes.

Na terça-feira (19), dia em que o país bateu, pela primeira vez, a marca de mais de mil mortos pela covid-19 em um único dia, o órgão replicou publicação da Secom que não fazia menção direta ao número.

Naquele dia, o site O Antagonista criticou a comemoração de vidas salvas, afirmando que a publicação mostrava descaso pelas famílias dos brasileiros mortos pelo novo coronavírus. Em resposta, a Secom esclareceu que a publicação citada era do dia anterior, sem mencionar, porém, que a publicação daquele dia (19) seguia na mesma toada.

“O Governo Federal não ignora a realidade do problema e por isso trabalha sem parar. Somente em valores, já foram mais de R$ 350 bilhões empenhados no combate à pandemia e às suas consequências. Do mesmo modo, ninguém pode ignorar a realidade de que há, sim, dezenas de milhares de vidas sendo salvas. Cada vida perdida tem um valor inestimável e deve ser lamentada. Do mesmo modo, cada vida salva deve ser celebrada. Infelizmente, há quem prefira concentrar suas forças em explorar o sofrimento alheio para desgastar a imagem do Governo”, diz a resposta da Secom.

A tabela com dados da situação epidemiológica no país, que é repassada diariamente aos jornalistas com informações por estado, deixou de ser publicada nas redes sociais tanto do ministério quanto da Secom. A última vez em que ela foi postada foi na segunda-feira (18).

Na quarta-feira (21), quando o país ultrapassou a marca de 20 mil mortes, nem o Ministério da Saúde, nem a Secom publicaram o dado em suas redes socais.

Com mais de 1 milhão de seguidores no Twitter, o foco das postagens da pasta da saúde passou a ser em informações enquadradas como positivas, como a habilitação de novos leitos de UTI para pacientes com covid-19 e a destinação de equipamentos e outros insumos de saúde para profissionais que atuam na linha de frente do combate à doença. Também são replicadas redes sociais as coletivas que técnicos do ministério concedem diariamente à imprensa no Palácio do Planalto.

Nas redes de ambos os órgãos também há publicações referentes às novas diretrizes do Ministério da Saúde quanto ao uso da cloroquina. As novas regras permitem que médicos de todo o Brasil prescrevam cloroquina e hidroxicloroquina para pacientes com sintomas leves ou avançados da covid-19. A Secom se refere ao documento como “novo protocolo”, enquanto o ministério chama de “nova orientação”.

Comandada pelo empresário Fabio Wajngarten, a Secom já foi alvo de diversas críticas por adotar uma linha de comunicação ideológica. Um dos exemplos dessas publicações é a que divulgou o ato de 15 de março em defesa do governo.

Recentemente, a conta oficial da Secom no Twitter veiculou uma mensagem que elogiava as ações militares na Guerrilha do Araguaia, já condenadas pela Corte Interamericana de Direitos Humanos. A postagem classifica como “heróis do Brasil” os agentes públicos que atuaram na repressão à guerrilha durante o regime militar. A publicação foi objeto de uma representação na Procuradoria da República no Distrito Federal.

O Brasil ultrapassou nesta quinta-feira (21) a marca de 20 mil mortes por covid-19. Segundo dados do Ministério da Saúde divulgados no começo da noite, o país já registra 20.047 óbitos e 310.087 casos confirmados da doença. Nas últimas 24 horas, 1.188 pessoas morreram de covid-19 e 20.047 novas infecções foram detectadas.

O Ministério da Saúde e a Secom foram procurados pela reportagem, mas não emitiram posicionamento até o fechamento desta reportagem. O espaço segue aberto para manifestações.

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