Desigualdade social é determinante em avanço da pandemia, aponta pesquisador

Pesquisa publicada na revista científica Lancet Global Health aponta a desigualdade socioeconômica e a falta de apoio público à população mais vulnerável como os principais fatores para o avanço da pandemia no Brasil ao longo de 2020.

O estudo foi feito por institutos de pesquisa brasileiros e estrangeiros, como a Fundação Getúlio Vargas (FGV), o Instituto de Estudos para Políticas de Saúde e as universidades de Harvard (Estados Unidos) e a College London. Foram analisados dados sobre a estrutura populacional, características socioeconômicas, infraestrutura assistencial do sistema de saúde brasileiro e indicadores sobre a covid-19, buscando compreender quais as causas de taxas altas de mortalidade em decorrência do  coronavírus no país.

"A gente observou, no ano passado, que a trajetória da pandemia nos países dependia muito da resposta do sistema de saúde: se ele falhava, as populações mais afetadas eram primeiramente idosos e pessoas com doenças crônicas", diz  Adriano Massuda, médico sanitarista e professor da FGV/Eaesp, um dos autores do estudo, em entrevista ao Congresso em Foco.

Ele afirma que, no Brasil, a questão socioeconômica foi determinante. "Grupos populacionais que moram em regiões mais carentes do Brasil, mais pobres, foram os mais afetados. Foram as regiões onde houve maior número de mortes", aponta.

Veja na íntegra o artigo publicado na Lancet:

Regiões

A pesquisa demonstra ainda que a região Norte é a de maior taxa de mortalidade do país, chegando a 99,9 mortes por 100 mil habitantes em 2020, apesar de ser a região com a menor porcentagem de população com doenças crônicas de fator de risco (43,2%) e ter apenas 12,7% da população acima dos 60 anos. Já a região Sul teve a menor taxa de mortalidade, registrando 45,4 mortes por 100 mil habitantes, mesmo tendo mais da metade da população (52,9%) com comorbidades, a maior do país, e a segunda maior população acima de 60 anos (18%), perdendo apenas para o Sudeste com 19% da população acima de 60 anos.

Para a pesquisa, a grande explicação para a discrepância está nos índices de vulnerabilidade social. Numa escala de 0 a 1, em que 0 é a menor vulnerabilidade possível e 1 é a maior, a região Norte possui um índice de 0,79, o segundo pior do país, praticamente empatado com o Nordeste, que ocupa o primeiro lugar, registrando um índice de 0,80. Enquanto isso, o Sul possui a menor taxa de vulnerabilidade social do país, com 0,31.

Outra questão apontada pelo pesquisador é que as regiões de maior vulnerabilidade social do país, o Norte e Nordeste foram as primeiras a serem atingidas de forma mais severa pela pandemia. "O artigo demonstra que foi a desigualdade que determinou a evolução da pandemia no Brasil, então começou por lá [de forma mais intensa em regiões mais vulneráveis], depois foi afetando também duramente lugares onde têm uma melhor situação econômica. O Norte e Nordeste foram as primeiras a serem  afetadas [mais intensamente]", explica.

Para o pesquisador, a população mais exposta à infecção da covid é justamente aquela que tem mais dificuldade de acesso a serviços de saúde. "Isso explica a trajetória da pandemia no país." Massuda analisa ainda que as medidas de proteção sanitária e assistência econômica são complementares no enfrentamento da pandemia no país. Ele defende a inclusão desses grupos mais vulneráveis entre os prioritários no programa de vacinação.

A realidade de grandes contingentes populacionais em situação de grande vulnerabilidade social é um traço característico do Brasil e de muitos países de baixa e média renda, segundo o pesquisador. Ele aponta a questão da desigualdade social como um fator importante no curso da pandemia até mesmo nos Estados Unidos. Embora seja a maior potência mundial, o país convive com uma profunda desigualdade econômica e não possui uma sistema de saúde gratuito e universal como o SUS, no Brasil. Os Estados Unidos lideram o ranking mundial de mortalidade por covid-19.

Diferenças continentais

A situação do Brasil se assemelha à de outros países da América Latina, aponta a pesquisa. Na Ásia, a resposta rápida dos governos foi determinante para o controle da pandemia, segundo Massuda. Os governos asiáticos, de maneira geral, agiram prontamente, aproveitando experiências passadas com outras epidemias respiratórias, explica o pesquisador. O continente africano foi pouco impactado, até o momento, por também ter tomado, de acordo com o brasileiro, medidas rápidas de segurança sanitária coordenadas.

O agravamento da crise em 2021 no Brasil é marcado também pelo desgaste no sistema de saúde brasileiro, que agora está mais sobrecarregado, com redução de recursos, e esgotamento dos profissionais da área, com novas variantes do vírus e com o fim do auxílio emergencial, explica o professor.

"No retrato que a gente mostrou de 2020, no artigo, para 2021, está se observando uma piora dessa situação, um número maior de mortes, acometendo as populações mais vulneráveis", afirma o médico.

Como mostrou o Congresso em Foco na última quinta-feira, há uma combinação entre os índices de morte por covid-19 e a influência do presidente Jair Bolsonaro, cujo discurso negacionista tem desestimulado a adoção de medidas preventivas, como o distanciamento social e o uso de máscaras. De acordo com o estudo da unidade de inteligência do Congresso em Foco, Bolsonaro foi o mais votado no primeiro turno em 2018 nos 12 estados com maior proporção de óbitos pelo coronavírus.

A pesquisa feita pelo Congresso em Foco também demonstrou que os estados considerados mais pobres do país por dados do IBGE como o Maranhão e Alagoas, segundo e terceiro mais pobres do país respectivamente, estão entre os três estados com menor taxa de letalidade. Neste caso, o médico ressalta o impacto das resposta dadas localmente na proteção das populações.

Massuda frisa que apesar da média regional, existem as diferenças locais refletidas pelas ações dos governos e o comportamento da população. Segundo ele, a pesquisa concluiu que "as ações locais tiveram um impacto para reduzir a pandemia, o Maranhão foi um estado  que teve uma ação bastante forte do governo estadual  e isso possivelmente pode ter tido um fator de proteção".

Por fim, ele ressalta que a partir desse fato pode-se concluir que o número de mortes poderia ter sido evitado através de adoção de ações governamentais. "Essas ações locais foram dispersas, a gente também destaca isso na pesquisa, e foram difíceis de serem sustentadas pela falta de suporte nacional. Ao contrário, o governo Federal desestimulava", afirma.

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