Privatização de estatais colabora com a fuga de cérebros do Brasil

Renata Vilela*

André Jackson Gomes Bessa emigrou para o Canadá há cerca de um ano e meio. Na bagagem, além da sua formação como desenvolvedor, levou 10 anos de experiência em uma das mais premiadas estatais do Brasil, a Dataprev

Segundo ele, o sonho de testar suas habilidades no mercado internacional era antigo. Contudo, o empurrão definitivo para fora da sua terra natal foi dado pela disposição do atual governo em desestatizar a Dataprev: “Quando chegou a época do aumento de pressão para a privatização da empresa, em conversa com minha esposa, decidimos que era hora de apostar na curiosidade. Independente do que viesse pela frente”.

Esse voo às cegas não se deu somente na família de Bessa. Ao contrário, é uma tendência apontada pelos dados do Departamento de Imigração norte-americano, um dos destinos mais procurados pelos brasileiros com formação, conforme nota publicada pela Carta Capital

De acordo com estudos de consultorias especializadas, em 2019 e 2020, a busca pelo visto permanente dos tipos EB1 e EB2 teve um aumento de 40%, em comparação ao biênio anterior - 2017 e 2018. Quando comparado aos anos de recessão de 2015 e 2016, esse aumento foi de 135%. 

O visto EB1 é destinado a profissionais altamente capacitados ou com talentos extraordinários nas áreas de artes, esportes, educação, pesquisas e negócios que trabalham em multinacionais dos EUA ao redor do mundo. Já o EB2, contempla profissionais com bacharelado e experiência de ao menos cinco anos na área. 

Privatizações e liquidações extinguem cargos no Brasil e fomentam ciência e tecnologia no exterior

Bessa conta que na empresa em que trabalha como desenvolvedor no Canadá, há ex-funcionários de outras empresas públicas brasileiras. Além de colegas que já atuaram na Dataprev, há ex-funcionários do Serpro, Petrobras e do Banco do Brasil, “Todos ótimos quadros”, segundo ele.

Além dessas empresas, vale mencionar os profissionais altamente especializados oriundos do Ceitec, empresa pública brasileira que vem sendo liquidada. De acordo com o presidente da Associação dos Colaboradores da Ceitec S.A. (Acceitec) Silvio Luis Santos Júnior, “Os colaboradores altamente qualificados já iniciaram a sua evasão para o mercado internacional”. 

Diversas consultorias vendem serviços de obtenção de vistos na internet. E, para os profissionais de ponta, os riscos inerentes às desestatizações desiludem. A depender das privatizações do governo, a tendência é que a evasão de cérebros do País se acentue ainda mais.

“O país segue destruindo empregos qualificados de tecnologia e, dessa forma, dificultando o crescimento econômico e isso se reflete na qualidade de vida de todos” afirma um profissional brasileiro.

*Renata Vilela, especial para a campanha Salve Seus Dados

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