Todos os cenários são ruins. Ou péssimos. Ou não.

Tenho duas notícias, uma boa e outra ruim. Qual delas quer que eu diga primeiro? Eu entendo. Como todo mundo, prefere ouvir a má notícia primeiro, para ter um refresco quando eu contar a boa, né? Então, tá.

A má notícia é que não existe, no horizonte das possibilidades, qualquer cenário positivo, sejam quais forem as alternativas apresentadas. Mesmo em baixa nas pesquisas, vamos considerar que Bolsonaro saia vencedor das próximas eleições. É óbvio que essa não é e nunca será uma boa notícia, pela folha corrida dele e da corja de que se cerca – sem trocadilho – no cercadinho do Alvorada e no cercadão da Esplanada.

Se a situação está ruim, a tendência é piorar com a sensação de fortalecimento por sair vitorioso da disputa eleitoral. A vocação autoritária que acalenta o sonho de governar sem Legislativo nem Judiciário ganharia um formidável reforço. Agora, vamos considerar que Bolsonaro perca as próximas eleições. O cenário, que até poderia ser considerado bom, continua péssimo, porque só lhe restará, para manter-se no poder, partir para o sonhado golpe de estado. Golpe que virá respaldado na falsa premissa de que as eleições teriam sido fraudadas pelo uso do voto eletrônico e não da arcaica cédula de papel que continua defendendo.

Mas, e se o golpe der com os burros n’água? Ah, aí as coisas vão melhorar, com toda a certeza, certo? Errado. O cenário continua péssimo. Porque não hesitará em colocar na rua sua tropa de choque espontânea: o gado que o aplaude freneticamente aos gritos de “mito”, e que não vacilará em pegar em armas – armamentismo civil que vem defendendo desde o dia de sua posse – para sair em defesa de seu líder. Ou seja: haverá  derramamento de sangue, muito sangue.

Mas, vamos admitir que A CPI da Covid, que já se transformou na CPI da Propina, conclua seus trabalhos apontando, como o relator Renan Calheiros já indicou mais de uma vez, para o indiciamento de Bolsonaro e a recomendação de sua condenação por uma sequência de crimes contra a humanidade, os quais estão sendo avaliados até pelo Tribunal Internacional de Haia.

Não resta a menor dúvida de que as instituições legislativas e judiciárias vão ter de cumprir um extenso ritual de protocolos, findo o qual, sejam quais forem os resultados, terá se encerrado o mandato presidencial, provavelmente já terão ocorrido as eleições com Bolsonaro concorrendo. E, portanto, teremos de retornar aos cenários anteriores. Ou seja, um cenário pior do que todos os outros.

Agora, uma boa notícia 

Agora, a boa notícia. Ufa! A perniciosa competência exclusiva dada pela Constituição de 1988 ao presidente da Câmara para dar andamento a um pedido de impeachment, excrescência monumental que os constituintes mantiveram tal como constava da Carta anterior, pode ser implodida pela pressão das ruas.

Pressão que, neste momento, está contingenciada pelos cuidados sanitários em razão da pandemia, mas que tende a se avolumar cada vez mais, basta ver os crescentes índices de insatisfação da população apontados pelas pesquisas. Dificilmente Arthur Lira permanecerá protegendo com as próprias nádegas aquele pacote de papel que contém mais de uma centena de pedidos de impeachment, inclusive um que engloba as provas e argumentos contidos nos demais, e que foi apresentado por um conjunto de partidos e instituições da sociedade civil há menos de um mês.

O problema é o timing. Enquanto o presidente do TSE, ministro Luís Roberto Barroso, alvo de ataques de baixíssimo calão por parte de Bolsonaro, sai em defesa da lisura do voto eletrônico, e o presidente do Senado e do Congresso, Rodrigo Pacheco, já desembarcou do barco bolsonarista com uma nota dura contra a diarreia verbal de sua excelência, Lira continua pendurado na brocha, na inútil tentativa de proteger o Chefe do Executivo da execução anunciada. Sim, porque já há sinais visíveis de que a maioria dos deputados que antes se alinhavam a Bolsonaro não estão mais querendo pagar pra ver, porque já estão antevendo o desastre em que estarão metidos se insistirem em continuar segurando a alça do caixão.

Lira, fisiológico até as tripas, mantém-se na defesa de Bolsonaro porque seu estado ainda o considera como o nome mais forte das Alagoas por ocupar um dos cargos mais importantes da República. E as manifestações contra ele em Maceió e nas principais cidades do estado ainda são muito tímidas. O problema, para ele, é que as manifestações nacionais, programadas para acontecer numa sequência cada vez maior, começam a centrar fogo não apenas na figura de Bolsonaro, mas na dele próprio, como já é possível ver em faixas, cartazes e posts de internet na condição de cúmplice do genocídio. Não demora e a ficha cai em Alagoas. Aí, adeus viola.

Ora, deem-se ao respeito 

Historicamente, como dizia o velho Ulysses Guimarães, o parlamento se mexe de acordo com o rumo indicado pelas ruas. O cenário positivo decorrente de um impeachment que abortaria desde agora qualquer aventura golpista se derrete caso os integrantes do Congresso Nacional façam ouvidos de mercador ao alarido das ruas.

Mas, se o eleitorado botar a faca nos peitos (estou usando uma metáfora, viu?) dos nobres representantes do povo, não há dúvida de que, em nome da preservação da própria espécie, eles vão jogar a carga podre ao mar e garantir os votinhos da reeleição.

O mesmo vale para os digníssimos chefes das Forças Armadas, que precisam dar-se ao respeito, respeitando o preceito constitucional que as colocou a serviço do estado e não do eventual ocupante do poder, seja ele de esquerda, de direta ou de centro. Ainda mais em se tratando de um chefe de governo que foi posto pra fora das próprias Forças Armadas pela porta dos fundos. Enlameadas pelo golpe sanguinário de 1964, e a muito custo conseguindo reaver sua imagem nos últimos anos,  custa crer que as Forças Armadas insistam em não se dar ao respeito e simplesmente cumpram a missão que a Constituição lhes atribui. Porque apoiar o Brasil é uma coisa. E apoiar Bolsonaro é outra, muito diferente e perigosa.

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