O Brasil tem jeito: Paulo Gustavo reacendeu a chama da esperança

Apesar de você, Bolsonaro, o Brasil tem jeito sim.

Bolsonaro, como disse Chico Buarque:

“Apesar de você, amanhã há de ser;
Outro dia;
Eu pergunto a você;
Onde vai se esconder
Da enorme euforia;
Como vai proibir;
Quando o galo insistir; Em cantar;
Água nova brotando;

 E a gente se amando; Sem parar”

Gigante, Paulo Gustavo mostrou com sua morte que esse país tem jeito. Apesar de sermos governados por um presidente que já disse “prefiro ter um filho morto, a ter um filho gay”, seguido por lunáticos que acreditam que uma família só pode ser formada por um homem e uma mulher e destilam ódio a uma emissora de televisão específica.

Estamos vivendo tempos sombrios. Negacionismo, ataques xenofóbicos como “gripe chinesa”, desinformação, falta de empatia, menosprezo pela vida e pelo cuidado ao próximo, falta de bom senso, preconceito, ataque à diversidade e equidade de gêneros e completo descaso com o país e a população que mais precisa.

Eu preciso confessar que até dia 4 de maio de 2021 minhas esperanças tinham se esgotado. Um governo vendido ao Centrão, manifestações de apoio à essas aberrações que ocuparam Brasília, pesquisas apontando chance de reeleição de um ser humano desprezível e uma população completamente inerte e anestesiada com toda essa situação. Isso sem contar a total aceitação com normalidade das mortes de 410 mil irmãos brasileiros.

Testemunhar um ator, homossexual, pais de dois filhos numa família não convencional e funcionário da emissora de televisão mais odiada pelos bolsonaristas, ser homenageado e ovacionado, provocando a comoção que provocou, me fez renovar as esperanças de que o bom senso vai vencer. Que o amor é e será maior que o ódio. Que a vida ainda pode ser vista como um bem precioso e que a maioria dos brasileiros tem coração.

Paulo Gustavo não foi gigante porque doou R$ 1,5 milhão para obras de caridade da Irmã Dulce, porque isso só foi descoberto depois que ele morreu. Não foi homenageado porque detém o recorde de arrecadação do cinema nacional com “Minha mãe é uma peça 3” e foi visto por mais de 9 milhões de pessoas.

Ele foi gigante porque foi verdadeiro. Porque conseguiu mostrar que família é amor, independentemente do gênero de seus integrantes. Que trabalho pode servir para conscientizar, como em seu último filme da série, que retratou a aceitação da personagem Dona Hermínia com o casamento de um dos seus três filhos, que era gay, assim como Paulo na vida real. Porque foi pai exemplar de duas crianças juntamente com seu companheiro, que é um médico competente e viviam em completo estado de amor e harmonia.

O que mais choca no fim dessa história é ter que engolir o presidente Jair Bolsonaro, que repudia tudo que Paulo Gustavo representou em sua vida, tentar surfar a onda de comoção, publicando um tweet em homenagem ao ator.

Bolsonaro, 410 mil vezes não a você. Paulo Gustavo morreu e milhares de outros brasileiros continuam morrendo por uma doença que tem vacina. Milhares de mulheres são condicionadas a uma vida sem equidade por contas das suas declarações que afirmam que elas precisam ganhar menos porque engravidam.

Milhares de homossexuais são atacados porque você diz que prefere um filho morto a ter um filho gay. Famílias com mães e pais solteiros, famílias entre duas mulheres ou dois homens são diariamente atacadas porque você é a favor da “tradicional família brasileira”. Eu não te perdoo e tenho certeza de que 410 mil brasileiros que se foram também não, e um novo exército formado por pessoas de bom senso também não te perdoarão.

Apesar de você e sua caterva, o Brasil tem jeito. Obrigado Paulo Gustavo por reacender essa chama de esperança. Sua morte não foi em vão e seu legado ajudará a mudar a história desse país.

O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para redacao@congressoemfoco.com.br.

> Leia mais textos do autor.

Continuar lendo