Não se iluda: o Centrão manda, Bolsonaro obedece

Giovanni Mockus *

Em alguns momentos, uma pauta que é de interesse em comum do Centrão e de Jair Bolsonaro surge e dá a impressão que existe uma aliança entre estes dois mundos. Não existe. O Centrão manda e o presidente obedece. Esses momentos de agendas em comum são coincidências nas quais ocorre uma intersecção de interesses.

A realidade é que o presidente Jair Bolsonaro comprou a sua permanência no governo. Ele aprendeu com o passado: Dilma Rousseff caiu quando deixou de fazê-lo, Michel Temer topou o jogo completo e ficou até o fim do mandato. O atual Chefe do Executivo está fazendo o usual, liberando bilhões de reais em emendas para a base parlamentar, que agora forma maioria no Congresso Nacional, e relativizando casos de corrupção.

Cabe aqui, por uma questão de honestidade intelectual, fazer uma distinção entre os partidos que possuem uma visão política de centro e os partidos que apenas compreendem o fisiologismo. Enquanto os primeiros exercem a legitimidade democrática de expressar a sua visão centrista de sociedade através da política, os últimos compõem o Centrão.

Um Centrão que comanda a política nacional não é novidade. Os exemplos são muitos, como Eduardo Cunha, que presidiu a Casa Legislativa entre 2015 e 2016. Mas o que parecia impossível ocorreu e esse poder agora sofreu uma mutação sob a gestão Arthur Lira.

Diante da fraqueza singular do Presidente da República, ausência de respaldo partidário e apagão nas ações governamentais, a sanha do Centrão se intensificou de forma que agora essa entidade heterogênea e amorfa não se contenta “apenas” com cargos em estatais e postos do governo. A cúpula do Centrão agora exige a aprovação de sua agenda histórica para não levantar seu martelo e esmagar a quem se opuser.

A oposição ao governo Bolsonaro, composta por parte dos partidos que valorizam a democracia, os valores republicanos, detém ideologia definida e base de filiados orgânicos, hoje já tem menos espaço em um Congresso que é menos democrático. Isso ocorre por conta da reforma do regimento interno, patrocinada por Lira. Se antes havia espaço regimental para questionar pautas, forçar debates e, assim, chegar a consensos mais qualitativos, agora a oposição perdeu boa parte de suas prerrogativas.

Na prática, a mudança no regimento interno da Casa faz com que o Centrão aprove os projetos com muito mais rapidez e menos debate. Mas é interessante notar que esse atropelo não impacta apenas a oposição. Foi só na votação da medida provisória que trata da privatização da Eletrobrás, ocorrida nas últimas semanas, que ficou evidente que as armas do Centrão podem muito bem voltar contra o próprio governo. O texto votado não foi o proposto pelo Ministério da Economia e sofreu fortes críticas por parte da base do governo, com acusações de lobby e inclusão de matérias estranhas ao objetivo inicial. Mesmo assim, foi aprovado sem oportunidade de resistências e mudanças.

Bolsonaro se elegeu tendo como uma das principais bandeiras não ceder ao que chamava de velha política, o que significava que não iria trocar cargos ou verbas por apoio político no Congresso. Agora vemos cenas constrangedoras dele abraçando Arthur Lira e Ciro Nogueira, ambos líderes do Centrão, em cerimônias oficiais, como um menino orgulhoso do pai que foi campeão do torneio interno do clube de bocha.

O Centrão e Bolsonaro têm uma parte de pautas em comum, como privatizações, costumes e enfraquecimento do licenciamento ambiental. Tudo o que renda mais a setores específicos do mercado, o que não é um problema em si, mas se torna quando é feito em detrimento do bem público. A diferença de limites entre eles é que o governo para quando a pauta prejudica o próprio Executivo, já o Centrão não. Para este, o limite é saciar uma sede insaciável por voto, poder e dinheiro.

Não se iluda ao ver os dois juntos neste momento. É apenas uma confluência de interesses. Se você olhar bem atentamente vai ver os fios em Bolsonaro, e eles vão indo até as mãos de Lira, que controla a marionete falastrona.

* Giovanni Mockus é gestor de políticas públicas e porta-voz (presidente) estadual da Rede Sustentabilidade em São Paulo.


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